Nanni Moretti passou a sua vida e carreira de cineasta a tentar perceber que repetir-se pode ser uma forma superior de avançar e, sobretudo, revolucionar. Voltamos às famílias, aos filhos, aos pais, às separações, às culpas, aos pequenos desastres sentimentais, à esquerda que já não sabe muito bem onde fica a esquerda, às canções que entram de repente e salvam uma sequência, aos homens com enorme dificuldade em dizer aquilo que sentem e às mulheres que, geralmente, percebem o problema bastante antes deles. Mudam as personagens, envelhecem os corpos, desaparecem algumas certezas, mas o território continua reconhecível. É Morettilândia. E, felizmente, ainda não foi adquirida por nenhuma plataforma de streaming.
Succederà questa notte é um belíssimo regresso a esse território. Talvez até um dos trabalhos mais serenos do realizador, embora chamar sereno a um filme de Moretti seja mais ou menos como chamar contemplativo a um condutor romano. Há sempre qualquer coisa a buzinar lá dentro. Depois de O Sol do Futuro, onde ainda aparecia no centro da história a discutir o cinema, a História, o Partido Comunista Italiano, a Netflix, os produtores e provavelmente o alinhamento dos planetas, Moretti dá agora um pequeno passo para o lado. Continua presente, aparece várias vezes e não nos deixa esquecer quem manda na casa, mas já não pode — nem quer — ser o homem de quarenta ou cinquenta anos que atravessa estas histórias de desejo e desencontro. Para isso encontrou Louis Garrel.
O estranho caso do francês que acordou Nanni Moretti
E aqui começa uma das grandes graças do filme. Garrel não interpreta Nanni Moretti. Naturalmente que não. Mas durante largos momentos temos a sensação perturbadora e divertidíssima de que alguém meteu o realizador numa máquina do tempo, retirou-lhe vinte e cinco anos, acrescentou-lhe aquele ar francês de quem nasceu já a saber fumar num café de Saint-Germain-des-Prés e devolveu-o ao set. É quase Moretti dentro de Louis Garrel. Está no andar. Nos braços. Na maneira ligeiramente desajeitada de ocupar o espaço. Sobretudo nas pausas e naquele olhar de quem parece estar simultaneamente a viver uma situação e a avaliá-la moralmente. Garrel apanha a fisicalidade morettiana sem cair na caricatura. Não copia tiques: absorve uma maneira de estar. Há qualquer coisa no seu corpo que parece dizer permanentemente: “Isto está tudo muito bem, mas eu gostaria de discutir alguns pormenores.” É extraordinário.
Moretti encontrou assim aquilo que qualquer cineasta autobiográfico gostaria de descobrir quando o espelho começa a devolver-lhe impiedosamente a passagem dos anos: um ator capaz de ser uma espécie de prolongamento juvenil sem se transformar num sósia. Garrel é Moretti e não é Moretti. É talvez aquilo que Michele Apicella — o velho alter ego do realizador — poderia ter sido se tivesse nascido em Paris, fosse filho de Philippe Garrel e tivesse aprendido cedo que uma camisola bem escolhida resolve metade das crises existenciais.
Ao seu lado, a atriz italiana Jasmine Trinca dá-lhe o indispensável contraponto. Vinte e cinco anos depois de ter sido a filha de Moretti em O Quarto do Filho, regressa ao seu universo já do outro lado da vida, agora mulher e mãe, carregando no rosto parte da própria memória cinematográfica do autor. E é precisamente dessa passagem dos anos que Succederà questa notte se alimenta. Greta (Trinca) e Matteo (Garrel) encontram-se. Desencontram-se. Aproximam-se quando não deviam. Afastam-se quando talvez já pudessem ficar. A vida faz aquilo que gosta particularmente de fazer: pregar-nos partidas quando menos esperamos e estragar-nos o calendário.
Quando o amor também sofre de problemas de agenda
O filme nasce de vários contos de Legami, de Eshkol Nevo, o escritor israelita a quem Moretti já tinha ido buscar Três Andares. É, portanto, a segunda incursão naquele universo, mas, desta vez, a operação é bastante mais livre. Moretti, Federica Pontremoli e Valia Santella desmontam contos, relações, imagens e personagens e voltam a montá-los até fazer nascer uma única corrente narrativa. E percebe-se porquê. Nevo e Moretti partilham uma obsessão fundamental: ninguém vive sozinho, mesmo quando passa metade da existência a tentar convencer-se disso. Pais e filhos, mães e filhas, casais, antigos amantes, amigos, famílias improvisadas: todas estas personagens estão ligadas por fios invisíveis. Alguns salvam. Outros apertam. Outros só percebemos que existem quando tentamos afastar-nos. O tema é antigo como o cinema e bastante mais antigo do que o próprio cinema: e se a pessoa certa aparecer na altura errada? Hollywood resolveu o problema milhares de vezes mandando alguém correr para um aeroporto. Moretti, evidentemente, prefere complicar. Porque não basta encontrar o outro. É preciso estarmos disponíveis para o reconhecer. E depois há filhos, relações anteriores, medos, cobardias, rotinas, doenças, compromissos, pequenos egoísmos e aquela formidável capacidade humana para adiar uma felicidade possível até ela começar a parecer uma recordação. Por isso, este é menos um filme sobre o amor do que sobre o momento do amor. Sobre aquele intervalo terrível entre desejar qualquer coisa e ter coragem para a viver. E Moretti filma tudo isto sem açúcar. Há ternura, muita, sexo, algum, mas nunca chantagem sentimental. Há melancolia, mas não há violinos a dar ordens ao espectador. E há humor, porque num universo destes até uma catástrofe emocional pode acabar com um problema de estacionamento.
Dançar antes que seja tarde
E depois dança-se. Quando entram os Rolling Stones e She’s a Rainbow, Moretti volta a fazer aquilo que sempre soube fazer tão bem: interromper o realismo sem abandonar a realidade. As personagens começam a dançar e, de repente, o cinema parece oferecer-lhes aquilo que a existência lhes anda a negar: alguns minutos em que o corpo decide primeiro e a cabeça deixa finalmente de apresentar objeções. Aliás, como acontece também na cena do concerto de Bruce Springsteen em San Sebastian, que provavelmente o permitiu, ficando os dois a ganhar.
São duas sequências belíssimas porque concentram dois momentos e, de certo modo, todo o filme. O desejo é também isso: alguém começa a dançar e resta saber se o outro tem coragem de acompanhar. Há ecos inevitáveis de Querido Diário, de Minha Mãe, de O Quarto do Filho, até de Palombella Rossa. Não porque Moretti esteja a fazer um “best of” de si próprio, mas porque aos 73 anos já pode conversar com os seus fantasmas sem pedir autorização à crítica. As famílias continuam a desarrumar-se. Os anos passam. Os homens continuam emocionalmente atrasados. E a existência, contra todas as evidências, pode oferecer mais uma hipótese. É talvez isso que torna Succederà questa notte especialmente comovente.
Nos filmes do jovem Moretti havia frequentemente um homem zangado porque o mundo estava errado. Agora há um homem que já sabe que o mundo continuará errado depois de ele sair da sala e se pergunta se, apesar disso, ainda vale a pena amar alguém, fazer cinema, dançar uma canção, reconciliar-se com um filho ou simplesmente tentar outra vez. A resposta é sim. Mas um sim morettiano, evidentemente. Um sim com dúvidas e, provavelmente, com uma discussão ou uma dialética pura de quarenta minutos.
37 anos depois, Veneza 83 também teve uma segunda oportunidade
Há ainda uma deliciosa ironia suplementar. Succederà questa notte é uma história de pessoas que se reencontram depois de demasiado tempo e chega a Veneza justamente no reencontro entre Moretti e o Lido, 37 anos depois de Palombella Rossa. Em 1989, o filme não entrou na Competição e acabou por se transformar no grande acontecimento daquela edição. O mundo estava a mudar, o Muro de Berlim prestes a cair e Moretti filmava um dirigente comunista que já nem conseguia lembrar-se corretamente de quem era. Agora regressa a Veneza num mundo que, convenhamos, também não parece particularmente seguro da própria identidade. Desta vez, porém, deixa a política explícita respirar um pouco ao fundo. Ela continua lá porque, num cineasta destes, tudo acaba por ser político, até decidir quem se senta onde à mesa de jantar. Só que a batalha principal já não se trava no PCI, no Vaticano ou no set de um filme sobre 1956. Trava-se entre pessoas que gostariam de conseguir dizer umas às outras o que sentem antes que seja demasiado tarde. Talvez seja esta a revolução possível de Nanni Moretti em 2026. Dizer “amo-te” a tempo. Parece pouco. Experimentem.
Succederà questa notte é uma pequena pérola, delicada sem ser frágil, divertida sem fazer cócegas ao espectador, melancólica sem se deitar no divã. A obra de um cineasta que envelheceu suficientemente para perceber que as segundas oportunidades são raras, mas não o bastante para deixar de acreditar nelas. E depois há Louis Garrel. Se Moretti algum dia precisar de voltar a fazer Querido Diário, já sabemos quem pode novamente conduzir a Vespa. Só convém não lhe explicar demasiado.
Nanni Moretti: O homem que passou 50 anos a discutir com Itália
Nanni Moretti nasceu em Brunico, no norte de Itália, em 1953, mas cinematograficamente nasceu em Roma, cidade que percorreu, discutiu, psicanalisou, insultou e amou durante meio século. Poucos realizadores europeus conseguiram transformar tão completamente as próprias manias numa linguagem cinematográfica. Em Moretti, o autobiográfico nunca é apenas autobiográfico: quando fala dele próprio está quase sempre a falar de Itália, da esquerda, da família, do cinema e daquela estranha espécie humana que insiste em ter sentimentos sem perceber primeiro o outro. Começou a filmar em Super-8, inventou Michele Apicella como alter ego e tornou-se uma espécie de consciência irritante do cinema italiano. Ecce Bombo, Bianca, La Messa è finita e, sobretudo, Palombella Rossa construíram a personagem Moretti: nervosa, moralista, obsessiva, hilariante e profundamente política. Em 1993, Querido Diário transformou uma Vespa num instrumento de crítica cinematográfica e valeu-lhe, no ano seguinte, o prémio de realização em Cannes. Depois vieram outros Morettis.
O pai devastado de O Quarto do Filho, Palma de Ouro em 2001. O psicanalista convocado para tratar um Papa em Habemus Papam – Temos Papa. O irmão perante a doença da mãe em Minha Mãe. O juiz de Três Andares. E finalmente Giovanni, o realizador de O Sol do Futuro, talvez o Moretti mais assumidamente morettiano de todos: um cineasta que discute com actores, produtores, plataformas, a História e o próprio futuro do cinema.
Moretti também produz, exibe filmes e mantém em Roma o Cinema Nuovo Sacher, porque limitar-se a realizar nunca lhe pareceu suficiente. Para ele, o cinema não é uma profissão: é um permanente estado de vigilância. O mais interessante é ter envelhecido sem se tornar dócil. Apenas mudou progressivamente o alvo. A fúria política de Palombella Rossa foi abrindo espaço para a família, a morte, os pais, os filhos, a memória e o medo de perder quem amamos. A frase célebre continua válida — “as palavras são importantes” —, mas hoje parece acrescentar-lhe outra: também é importante dizê-las antes que seja tarde. Em Succederà questa notte, dá finalmente um pequeno passo para fora do centro e deixa Louis Garrel carregar uma parte do seu corpo cinematográfico. Não desapareceu. Limitou-se a encontrar uma maneira elegantíssima de rejuvenescer. E isso, para um cineasta que passou meio século a filmar-se, já anda perigosamente perto da ficção científica.