(Dois sismos, com réplicas, arrasaram um país, mataram um número ainda não calculado em termos definitivos de pessoas e separaram famílias. Por mais imagens e testemunhos que vejamos, a dimensão da tragédia que sucedeu na Venezuela deve remeter-nos para as coisas – em especial, as mais básicas, como uma casa, luz e água- que, diariamente, damos por adquiridas e que, de um momento para o outro, podem desaparecer. Para além da evidente solidariedade com um país que terá que se reconstruir e com os respetivos cidadãos sobreviventes, este desastre natural pode também servir para que, de uma vez por todas, percebamos que nesta vida tudo é mutável e pode desaparecer. Saibamos ser gratos pelo que temos, saibamos lutar quando é necessário melhorar as coisas (e é sempre…) e saibamos ser dignos daquilo que vamos mantendo. No meio de tudo isto, mais do que a mera comoção, que consigamos fazer algo verdadeiramente útil, seja com os venezuelanos, seja com quem quer que precise de ajuda.)
No debate parlamentar de 25 de junho, a deputada do PSD Sandra Pereira partilhou publicamente que está a enfrentar um cancro e que continua a trabalhar: “Se eu consigo, os outros também conseguem.” Foi considerado por muitos como testemunho de coragem, resiliência e determinação, o que mereceria todo o respeito.
A senhora deputada tem todo o direito de contar a sua história? Claro que sim, quanto mais não seja ao abrigo do direito à liberdade de expressão. Deve fazê-lo, naqueles termos, quando se discute um tema tão sensível quanto os apoios a doentes com incapacidade grave? Creio que não.
Desde logo, a vivência de uma pessoa, por mais inspiradora que possa parecer, não pode representar a realidade de todos os doentes oncológicos. Principalmente, quando o trabalho em concreto da pessoa que disse esta frase se afasta tanto da realidade da maior parte dos portugueses. Desde logo, os senhores deputados auferem muito acima da média, trabalham em ambientes climatizados, com grande flexibilidade de horários, assessores e fazem muito pouco esforço físico. Não pode, portanto, comparar-se, por exemplo, com uma senhora que faça limpezas ou com um operário de construção civil ou fabril, obrigados a levantarem-se de madrugada para enfrentarem os transportes públicos que, por vezes, demoram horas a levá-los ao local de destino, por exemplo. A maioria da população dita ativa, no exercício das suas funções, tem um desgaste físico muitíssimo maior e, como tal, incomparável.
Acresce que a biologia não obedece a leis mas a raramente a exceção se converte em regra. O cancro não é igual para todos. O primeiro erro deste tipo de visão reside na ignorância sobre a forma como cada indivíduo reage perante a doença e perante os tratamentos. Cada corpo reage de forma única à agressividade de tratamentos, entre os quais a quimioterapia ou a radioterapia, já para não falar nas profundas diferenças entre o acompanhamento dado nalguns hospitais privados e no SNS, este último completamente sobrelotado e sobrecarregado. O que para uma pessoa não é incapacitante, para outra pode ter como resultado não conseguir sair da cama, principalmente quando o caminho para o próprio tratamento é feito nos moldes já aventados.
Generalizar uma experiência pessoal para a tentar transformar numa regra universal é, em primeiro lugar, injusto mas acima de tudo, desumano porque a capacidade de sobrevivência não se pode tornar numa competição desenfreada e porque a condição profissional da senhora deputada não é, sequer, similar à da maior parte das pessoas.
Ao contrário do que se ouviu no Parlamento, as políticas públicas devem proteger todos, mas sobretudo os mais vulneráveis. Quando se discute uma prestação social, fala-se da vida de milhares de pessoas, não de casos individuais, para mais vindos de uma bolha que não representa, pelos motivos já detalhados, a maioria.
Obviamente que valorizar quem trabalha é importante, mas, mais ainda, num Estado que se diz Social de Direito, garantir proteção a quem, de facto, não o consegue é o dever de toda uma sociedade que se pretenda mais justa e fraterna.
Em síntese, aquilo a que assistiu na Assembleia da República foi a consagração de uma linha de pensamento completamente elitista que desprotege os cidadãos mais vulneráveis, justamente no exato momento em que mais precisam da Segurança Social.
É que, aqui, como em tantas outras realidades, a exceção não confirma a regra e, por via desta, a esmagadora maioria das pessoas não consegue, de facto, viver com um mínimo de qualidade e, muito menos, trabalhar como se nada se passasse.
Mais do que mera empatia, é de justiça social que se trata.
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