“Como dizia um russo acerca do modelo estalinista de reescrever a História: nunca se sabe o que o passado nos reserva.” Jaime Semprun
Jurei a mim mesmo que ia evitar acompanhar a política nacional durante as férias. Está longe de ser a única coisa a que dedico o meu tempo, mas é parte da minha vida, tanto a nível profissional como pessoal.
Já se sabe que este tipo de proclamações tem sempre um alcance limitado. Queiramos ou não, as notícias chegam até nós – e o bombardeamento das redes sociais, com as suas inúmeras formas de atravessar as barreiras que lhes impomos, só torna isso mais certo. Os nossos círculos de amigos formam-se por interesses comuns e as vidas profissionais aproximam-nos de outras pessoas; não foi o Instagram nem o X que inventaram o desassossego nas férias. E isso vale tanto para a política como para a nobre arte de fazer botões ou fio de pesca.
Seja como for, não dei a devida atenção a assuntos importantes. A recompra de parte da REN pareceu-me um absurdo, mas talvez seja só por não ter estado muito atento. Da entrega do relatório sobre a Segurança Social, só registei que deve ter servido para forrar gavetas, já que o Governo se apressou a dizer que não lhe dava importância alguma. E depois houve a extraordinária discussão sobre a segurança em Lisboa, que me fez passar parte de agosto a explicar a pessoas convencidas de que a cidade era uma espécie de Tijuana europeia que ainda se conseguia sair à rua sem ser num tanque de guerra – a maioria não acreditou em mim.
Entre livros, sol, chuva (apanhei muita) e confraternizações, fugi o que me foi possível a estes e a outros temas. Mas acabei apanhado – não por Luís Neves, Montenegro ou os assuntos já descritos, mas pelas vitórias dos DSA, os Socialistas Democráticos da América. E não só pelas de gente dessa organização, que vive dentro e fora do Partido Democrata, mas também pelas de outros, como Abdul El-Sayed, no Michigan, que sem pertencer ao movimento partilha a maioria dos seus valores.
Claro que a vitória mais significativa foi a de Mamdani para mayor de Nova Iorque. Mas as que mais me interessam, em termos de análise, são as de homens e mulheres – Melat Kiros, Chris Rabb, entre outros – sobre os candidatos do establishment do Partido Democrata, os chamados moderados, e as reações de pessoas e organizações próximas desse partido.
Li editoriais e colunistas em jornais estrangeiros, insuspeitos de simpatia por trumpismo ou parecido, a argumentar que as vitórias destes – a quem chamam esquerdistas, tal como chamam centristas aos outros – vão facilitar a vida aos republicanos nas eleições para a Câmara dos Representantes e o Senado. A razão é sempre a mesma: os americanos assustam-se com propostas radicais.
O radicalismo em causa é estranho. Falamos de candidatos que defendem melhor distribuição da riqueza, cuidados de saúde independentes da condição económica de cada um, mais investimento em educação pública e infraestruturas, mais habitação pública e, pecado dos pecados, a condenação dos crimes de Israel contra a população palestiniana.
Não sou americano nem especialista em política dos Estados Unidos, mas isto era antes conhecido como política moderada. Foi com estas bases, por exemplo, que Franklin Delano Roosevelt se tornou um dos Presidentes mais amados e respeitados do país.
Às tantas, os defensores da suposta linha moderada do Partido Democrata acham que não se deve apostar nestes valores – não por não serem os que consideram certos, mas por não terem apelo junto do eleitorado.
Deixo para o fim o pormenor de não se perceber para que serve um partido político que não defenda claramente os seus princípios. Mas quero sublinhar algo: aceita-se sem problema que o Partido Republicano, pela mão de Trump, defenda as políticas mais delirantes, injustas e opostas a tudo o que durante décadas considerámos o tronco comum da democracia – e não se lhes chama radicais. Já defender posições social-democratas simples é, isso sim, radicalismo. Assim, o que há meia dúzia de anos eram princípios moderados tornou-se radicalismo, quase um sinal de comunismo à porta.
É a consagração da vitória de quem de facto luta contra a democracia: conseguiram que os democratas tenham vergonha de lutar pelo que acreditam.
Saltemos agora o Atlântico e aterremos em Portugal.
Não percebo como pessoas como eu, que sempre defenderam a democracia liberal, o SNS, a educação pública, a progressividade fiscal, a igualdade de todos perante a lei, os imigrantes, os emigrantes e um papel forte do Estado na regulação económica – incluindo presença robusta em alguns sectores – passaram de repente a ser acusadas de comunismo ou de extrema-esquerda. Pela narrativa corrente, Sá Carneiro, Mário Soares, Mota Pinto, Francisco Balsemão, Cavaco Silva (cuja governação seria vista como digna da ex-União Soviética), Guterres e até Santana Lopes seriam uma espécie de Lenines.
Percebo, contudo, que isto faz parte de uma estratégia pensada e organizada: tornar estes valores indefensáveis e transformar quem os defende em marginais políticos.
Por isso, é essencial que os partidos que ainda acreditam nestes princípios não se escondam. Quanto mais se escondem e se deixam armadilhar por quem reescreve o passado, mais cresce a narrativa de que um social-democrata ou um democrata-cristão é um perigoso radical.
É preciso coragem para enfrentar esta onda que ameaça engolir a democracia e os valores humanistas que tanto custou implementar – não importa o que nos chamem, se acreditamos que defendemos o que está certo. Mas exige-se também clareza aos principais atores políticos, sobretudo aos partidos.
Um partido que se diz social-democrata não pode fingir que não há sectores que não deveriam estar nas mãos de privados, nem ter medo de defender a sua nacionalização. Não pode ser tíbio a dizer que os imigrantes não são demais e que a política que os trouxe faz sentido. Não pode deixar de defender a progressividade fiscal. Não pode esconder o que pensa sobre o ataque aos direitos dos cidadãos que foi o último pacote legislativo da Justiça. Numa palavra: defender o seu programa.
Posso até admitir que levar tudo isto para o espaço público tenha custos eleitorais, mas nada é mais importante do que defender aquilo em que se acredita. Sobretudo, não ajudemos a reescrever o passado, nem deixemos que nos digam que o que resultou afinal não resultou.
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