Tom Cruise corre praticamente há mais de quatro décadas. Corre de bombas, terroristas, aviões, edifícios, vilões, catástrofes e, sobretudo, parece correr contra aquela coisa profundamente desagradável e que é impossível alterar chamada certidão de nascimento. Em Digger, Alejandro G. Iñárritu consegue finalmente aquilo que nenhum inimigo de Ethan Hunt foi capaz de fazer: obriga-o a parar e a envelhecer. Dá-lhe barriga, papada, cabelo grisalho a rarear, um sotaque texano suficientemente espesso para barrar numa torrada e transforma-o num magnata do petróleo chamado Digger Rockwell. Aos 64 anos, talvez a maior acrobacia da carreira de Cruise seja finalmente esta: interpretar um homem da sua própria idade e sem a habitual postura física.
Digger herdou dinheiro, petróleo, poder e uma velha pá com que o avô terá começado a fortuna familiar. Vive rodeado de peles, chifres, troféus de caça e uma gata branca quase tão moribunda como o planeta. É precisamente o género de homem que olha para uma catástrofe ambiental e pergunta primeiro quanto vai custar à empresa. Quando uma fuga de metano numa plataforma do Ártico provoca uma explosão e liberta uma gigantesca massa de gelo em direção ao Norte da Europa, percebemos que o homem que durante décadas salvou o mundo no cinema produziu, desta vez, um filme em que ajuda a destruí-lo. E aqui começa o problema — e também a graça — de Digger.
Iñárritu não faz propriamente filmes discretos. Nunca fez. Depois de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), The Revenant: O Renascido e BARDO, Falsa Crónica de Umas Quantas Verdades, ninguém o convida para filmar duas pessoas a tomar café durante 90 minutos. Digger é, obviamente, cinema de megafone: personagens aos berros, política aos berros, petróleo aos berros, alterações climáticas aos berros e Tom Cruise, naturalmente, também aos berros. Por vezes, parece que alguém meteu Doutor Estranhoamor, Escândalo na TV e Não Olhem Para Cima dentro de uma máquina de lavar industrial e se esqueceu de desligar a centrifugação.
Cruise contra o próprio Cruise
A grande curiosidade é mesmo ver Cruise compor uma personagem muito diferente daquelas a que nos habituou. Não será propriamente a melhor interpretação da carreira — continuaria a lembrar-me de Magnólia, Nascido a 4 de Julho, De Olhos Bem Fechados ou até Colateral —, mas é provavelmente aquela em que mais descaradamente representa, no verdadeiro sentido da palavra, desde há muitos anos. Digger pavoneia-se, rosna, grita, ameaça, gesticula, insulta e ocupa uma divisão como se estivesse permanentemente a disputar a última mesa disponível de um restaurante. E, no entanto, alguma coisa funciona, apesar dos longos diálogos e monólogos.
Cruise passou os últimos quinze anos a transformar o próprio corpo numa franquia. Saltou de prédios, agarrou-se a aviões, pilotou helicópteros e caiu de precipícios para nos convencer de que Tom Cruise não envelhece: apenas muda de missão. Mas já não tem corpo nem idade para isso. Aqui, finalmente, aceita tornar-se ridículo e ator a sério. O corpo deixa de ser monumento e passa a fazer parte da piada. A barriga é falsa; a idade já não.
Isso dá ao filme uma segunda camada bastante mais interessante do que a habitual sátira aos milionários maus que destroem o planeta. Digger é também, talvez involuntariamente, um filme sobre Tom Cruise a tentar perceber o que acontece quando Tom Cruise já não consegue continuar a ser apenas Tom Cruise. Já não o víamos há bastante tempo entregar-se assim a um realizador sem transformar tudo numa pista de obstáculos.
O Presidente, o cientista e o manicómio
À volta de Cruise, Iñárritu monta um pequeno circo do fim do mundo. John Goodman interpreta o Presidente dos Estados Unidos como uma personagem claramente construída a partir de traços associados a Donald Trump: gravata vermelha, ego hipertrofiado, entusiasmo militar e aquela confiança especial dos homens capazes de transformar ignorância em política de Estado. Michael Stuhlbarg é um vice-presidente tão submisso que praticamente podia ser dobrado e guardado no bolso do casaco.
Riz Ahmed tem a ingrata função de representar a única pessoa aparentemente adulta na sala. O seu Ganesh, responsável pela segurança ambiental da empresa petrolífera de Digger Rockwell, tenta explicar a dimensão da catástrofe a um conjunto de homens poderosos que parecem bastante mais preocupados em decidir quem ficará com a culpa do que em impedir milhões de mortes. Sandra Hüller, como meia-irmã de Digger, entra também no campeonato dos gritos, embora receba muito menos espaço do que merecia. Não apenas enquanto atriz: a própria personagem poderia complicar um pouco mais o enredo.
A melhor sequência poderá ser precisamente aquela em que Digger enfrenta uma assembleia mundial e resolve explicar-nos a sua versão muito particular do capitalismo e da humanidade contemporânea. A humanidade odeia o petróleo, diz ele, mas continua apaixonada pelos carros, pelos aviões, pelas viagens, pelo conforto, pelo consumo e por tudo aquilo que o petróleo permite. “Vocês exigem, eu forneço.”
É um argumento obsceno, mas verdadeiro. E suficientemente incómodo para impedir que a sátira se transforme inteiramente num exercício de superioridade moral. Porque talvez seja precisamente aí que Digger acerta: é muito fácil odiar o magnata do petróleo enquanto esperamos que o ar condicionado do cinema continue ligado. E basta o preço dos combustíveis subir para toda a gente reclamar.
Iñárritu põe o fim do mundo num palco
Visualmente, porém, o filme joga noutra divisão, que vai para além do cinema e atravessa o palco. Emmanuel Lubezki filma espaços que parecem simultaneamente reais e artificiais, enquanto Dennis Gassner e Richard Johnson transformam interiores, cortinas, paredes, plataformas e salas de poder numa espécie de enorme teatro em permanente mutação. Por vezes parece Brecht ou E La Nave Va, de Federico Fellini, mas com orçamento de Hollywood. Noutras, faz lembrar os filmes de Roy Andersson depois de três cafés e de uma reunião de acionistas da Exxon. É precisamente esta beleza formal que impede Digger de se afundar completamente na própria grandiloquência. Porque o filme é excessivo. Muito.
Existem momentos em que Iñárritu parece não acreditar que percebemos a piada e decide explicá-la novamente: maior, mais alto, com mais figurantes e com uma sonorização ainda mais forte. Onde Stanley Kubrick precisava apenas de um olhar, Iñárritu por vezes pede uma explosão, uma banda sonora ou efeitos sonoros, duzentas pessoas aos gritos e, já agora, um icebergue.
Doutor Estranhoamor continua a ser — e não sou só eu que o digo — o fantasma impossível de expulsar da sala. Iñárritu procura a crueldade de Kubrick, o absurdo de Kubrick e a precisão de Kubrick, mas é precisamente essa precisão que mais vezes lhe escapa. O seu filme está demasiado apaixonado pelo próprio dispositivo, demasiado fascinado pela dimensão da metáfora e demasiado consciente de estar a fazer um grande filme sobre um grande assunto. Mas confesso que já prefiro este fracasso aparatoso a mais duas horas de Cruise a perseguir uma pen USB nuclear.
O apocalipse também envelhece
No fundo, Digger poderá ser menos uma sátira perfeita sobre a crise climática do que uma curiosa radiografia de Tom Cruise aos 64 anos. Durante décadas, o ator construiu uma imagem baseada no controlo absoluto: do corpo, da carreira, do espetáculo e até da nossa perceção sobre ele. Digger Rockwell é precisamente o contrário. Um homem que acreditou controlar tudo até descobrir que talvez tenha soltado um pedaço do planeta e já não saiba muito bem como voltar a encaixá-lo. O filme também nem sempre sabe como encaixar todas as suas peças.
É ruidoso, desigual, megalómano, visualmente prodigioso, irritante, por vezes muito divertido e suficientemente louco para continuar a existir na nossa cabeça depois dos créditos, mesmo que ainda tenhamos dúvidas sobre se gostámos ou não.
Talvez não seja o grande Doutor Estranhoamor ecológico que Iñárritu imaginou. Talvez nem seja o grande renascimento dramático de Cruise que a campanha parecia querer vender. Mas existe qualquer coisa de extraordinariamente apropriado em ver o homem que passou quarenta anos a correr para salvar o planeta finalmente parado, com uma barriga postiça, a olhar para aquilo que fez. E, desta vez, nem Ethan Hunt consegue desativar a bomba.
Muito bem colocado no final, o tema What Have They Done to My Song, Ma, de Melanie, acaba por responder ao filme inteiro. E, por isso mesmo, não vale a pena sair da sala antes de terminar o genérico final.