Durante muitos anos, a sustentabilidade esteve relativamente afastada dos principais critérios de decisão na compra de uma casa. Localização, preço, área e tipologia concentravam praticamente toda a atenção, enquanto fatores como eficiência energética, isolamento térmico ou consumo de recursos eram frequentemente encarados como características adicionais. Essa realidade começa, contudo, a mudar, à medida que sustentabilidade, conforto e racionalidade económica se tornam cada vez mais difíceis de separar.
Esta evolução é particularmente relevante num país onde uma parte significativa do parque habitacional continua a apresentar desafios ao nível da eficiência. Dados da ADENE indicam que cerca de 70% dos edifícios em Portugal são energeticamente ineficientes, revelando a dimensão do caminho ainda por percorrer na renovação do edificado nacional.
Para quem procura casa, esta questão traduz-se numa realidade muito concreta. Uma habitação energeticamente eficiente não representa apenas menor impacto ambiental. Pode significar maior conforto térmico, menor necessidade de aquecimento ou arrefecimento e menores custos de utilização ao longo do tempo. É precisamente aqui que a sustentabilidade deixa de ser apenas uma característica do imóvel e começa a entrar na equação financeira de quem o compra.
Durante muito tempo, comparámos casas essencialmente através do seu preço de aquisição. Mas dois imóveis com valores semelhantes podem representar custos muito diferentes ao longo dos anos, dependendo da qualidade da construção, do isolamento, dos equipamentos instalados, da eficiência energética ou das necessidades futuras de reabilitação. Por isso, começa a fazer cada vez mais sentido olhar não apenas para o preço de uma casa, mas para o seu custo total de habitar.
Esta mudança de perspetiva acrescenta novos elementos à decisão. O certificado energético, a qualidade das janelas, o isolamento, os sistemas de climatização ou a existência de soluções de produção de energia renovável ajudam a perceber melhor aquilo que determinado imóvel poderá exigir financeiramente depois da compra. Não substituem fatores como localização, preço ou área, que continuam a ser determinantes, mas tornam a comparação entre imóveis mais completa e informada. Esta preocupação tem sido acompanhada também por políticas de incentivo à melhoria do desempenho das habitações. O Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, promovido através do Fundo Ambiental, começou com uma dotação de 30 milhões de euros, posteriormente reforçada em mais 60 milhões após o esgotamento da verba inicial. O programa apoiou intervenções como substituição de janelas, isolamento térmico, sistemas de climatização eficientes e produção de energia renovável, mostrando como a eficiência energética está também a traduzir-se em investimento concreto na melhoria das habitações.
Do lado da oferta, esta evolução também deverá ter consequências. À medida que o desempenho energético ganha relevância para consumidores e o enquadramento europeu aumenta as exigências aplicáveis aos edifícios, características anteriormente encaradas como diferenciais poderão tornar-se progressivamente parte daquilo que se espera de uma habitação. A diretiva europeia relativa ao desempenho energético dos edifícios aponta para a descarbonização do parque imobiliário até 2050, colocando a renovação e a eficiência no centro da transformação que o setor terá de enfrentar nas próximas décadas.
Isto poderá acentuar a diferenciação entre imóveis. Uma casa eficiente não oferece apenas potencial para menores custos de utilização; está também mais preparada para responder às exigências futuras do mercado. Em sentido contrário, imóveis com pior desempenho energético poderão exigir maior investimento em reabilitação para continuarem competitivos, introduzindo um custo que também deve ser considerado no momento da decisão.
É precisamente quando os valores ambientais começam a coincidir com o valor económico que a sustentabilidade ganha outra relevância na compra de uma casa. Para muitas famílias, escolher uma solução mais eficiente poderá não partir exclusivamente de uma preocupação ambiental, mas da combinação entre conforto, previsibilidade de custos e proteção de uma das decisões financeiras mais importantes das suas vidas.
Este é também um sinal de maturidade do próprio mercado. Quanto mais informação existe sobre aquilo que estamos a comprar, mais completa pode ser a avaliação do seu verdadeiro valor. E, num imóvel, esse valor não termina no momento da escritura: prolonga-se durante todos os anos em que é necessário aquecer, arrefecer, manter e adaptar aquela casa.
O mercado imobiliário continuará naturalmente a ser condicionado por localização, preço, oferta e capacidade financeira. Mas a forma como avaliamos uma habitação está a tornar-se mais abrangente. Se durante décadas perguntámos sobretudo quanto custa comprar um imóvel, começamos agora a perceber que existe outra pergunta igualmente importante: quanto custa viver nele?
É nessa passagem do preço de aquisição para o custo total de habitar que a sustentabilidade pode deixar definitivamente de ser um atributo adicional e passar a fazer parte daquilo que entendemos como valor imobiliário.
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