“Como é que se come um elefante? Cortando-o em fatias fininhas.” Contaram-me há pouco tempo esta anedota e eu fiquei fascinada por ela. Pensei: “É isso!!” É preciso fatiar o mundo. Cortá-lo em pequenospedaços que nos caibam entre os dedose começar a resolvê-lo, pedaço a pedaço.A ideia de mudar o mundo tornou-se numa piada fácil, a que juntamos um revirar de olhos e aquela pose enfastiada de quem já desistiu de tudo, que mascara a derrota com uma capa de maturidade e sabedoria. Sim, eu quero mudar as coisas. Recuso-me a deixar que tudo fique na mesma. Recuso-me a aceitar que as coisas são o que são. Recuso-me. Mas esse é só o primeiro passo. Depois, é preciso começar realmente a fazer alguma coisa. E é usualmente aí que bloqueamos. Porque as coisas estão montadas para bloquearmos. Não é falha. É programa.
Às vezes, parece-me que vivo em slots. Giro a vida como quem orienta aviões de uma torre de controlo (embora “controlo” seja aqui uma palavra um pouco deslocada). A cada hora há uma atividade que tem de descolar. A pista tem de estar desimpedida a tempo. Nada pode falhar, porque tenho a agenda organizada numa sucessão de eventos que me engolem as horas. Não estou sozinha nisto. E quando entro na farmácia à procura de um novo suplemento de magnésio, a curta troca de palavras com a farmacêutica deixa isso bem claro. “Estamos todos exaustos, não é?”, diz-me ela, com uns olhos muito cavados por detrás dos finos aros dourados dos óculos. Estamos. Estamos a viver vidas como corridas de obstáculos, sempre em salto, sempre com os olhos numa meta que se desloca uns metros mais à frente todos os dias. Isso é parte do bloqueio.
E depois há sensação de que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. A guerra, aqui e ali. Os desvarios do Trump e do Putin. O custo de vida. A crise na Habitação. O caos na Educação. O desmoronar do SNS. A violência. O conservadorismo do ódio. A crise climática. O apocalipse da IA. O fim do mundo. Apetece desligar. O bombardeamento de informação entorpece-nos. E não é por acaso. A ideia é mesmo essa: esmagar-nos, paralisar-nos. Fazer-nos pensar que não há como acorrer a tantos fogos ao mesmo tempo. Porque não há mesmo. Ou será que há?
É preciso perceber que tipo de bicho é o elefante, antes de começar a comê-lo. Porque é precisamente por todas estas crises que nos sufocam serem parte do mesmo animal que é preciso ter a inteligência de saber que conseguiremos derrotá-lo se começarmos a fatiá-lo
É aí que penso no elefante. E em como podemos começar a comê-lo em carpaccio fino, sem nos engasgarmos. Isso começa por escolher o que é possível fazer. Todos os dias. As pequenas coisas que parecem que não mudam nada, mas mudam tudo.O gesto simpático com o vizinho, o ser rede para aliviar o fardo de quem está ao nosso lado, o não calar as injustiças, o sorriso que abre as portas a quem tem medo, a opção consciente de não explorar nem maltratar quem trabalha connosco, a decisão de olhar para os outros como humanos. A compra conscienciosa, feita na pequena loja do bairro ou no negócio que se quer apoiar. O pensar criticamente sobre o mundo, comprar o jornal, a revista ou o livro e ter como prioridade pôr o cérebro a funcionar. O espalhar da informação que é essencial termos, partilhando conhecimento, sem superioridade intelectual, com a humildade de ouvir quem não pensa como nós e a paciência para explicar o que nos parece óbvio sem insultarmos quem nos ouve. O ter a coragem de ir à luta, sacrificando tempo numa associação de pais ou de moradores, num sindicato ou noutro coletivo, sabendo que não sairá dali nada de perfeito, mas que o simples encontro com quem partilha as nossas batalhas é já uma vitória. O votar com propósito e convicção, sem engolir os sapos dos males menores que há décadas nos provocam indigestões.
Mas há outra coisa: é preciso perceber que tipo de bicho é o elefante, antes de começar a comê-lo. Porque é precisamente por todas estas crises que nos sufocam serem parte do mesmo animal que é preciso ter a inteligência de saber que conseguiremos derrotá-lo se começarmos a fatiá-lo.
Esta semana, Espanha indignou-se com o despejo de Maricarmen, uma idosa de 87 anos, que foi desalojada por um fundo abutre, que lhe comprou o apartamento em Madrid e andou sete anos em tribunal até conseguir despejá-la, depois de lhe subir a renda (que ela sempre pagou) de 500 para 1650 euros. Houve uma multidão que se juntou para impedir que a idosa fosse retirada da sua casa, e foram todos expulsos à bastonada por agentes da polícia de intervenção. Porque o elefante é um animal que usa a sua força contra os mais fracos e protege sempre os que têm poder e dinheiro.
Houve um músico famoso que foi falar com o fundo abutre para comprar o apartamento de Maricarmen e salvá-la do despejo, cobrando-lhe a mesma renda que sempre pagou. E houve outro doador anónimo que se ofereceu para pagar a renda à idosa. As duas ofertas foram ignoradas pelos abutres. Porque o elefante não tem só fome de dinheiro, ele alimenta-se sobretudo de poder. E o importante é mostrar a sua força arrastando Maricarmen para a rua, sentada na sua cadeira de rodas, da mesma forma que se matam todos os dias bebés, crianças, mulheres e velhos em Gaza, enquanto se projetam construções de luxo para serem erguidas sobre o pó dos seus ossos. O elefante quer que percamos a humanidade e aceitemos que nos pise, como se essa fosse uma lei da natureza.
O elefante deixa de ser dito. Está no meio da sala e ninguém o vê. Aprendemos a andar à volta dele, sem lhe pisar as patas nem a tromba, acreditando que ele nunca desaparecerá. E essa é a sua maior força. Às vezes, até nos iludimos ao ponto de acharmos que ele nos será útil. Escalamo-lo em direção à garupa, convencidos de que vamos montá-lo, sem perceber como nos escorregam os dedos sobre a sua pele enrugada ou como a sela que lhe puseram em cima está já ocupada e nunca será nossa.
Olhemos para o elefante. Afiemos as facas, com vontade. E comecemos a fatiá-lo, devagar e com método. Se formos muitos, em breve restarão apenas os ossos e os dentes de marfim. Talvez possamos transformá-los também em facas ou apenas em instrumentos musicais. Depois de comido o elefante, tudo é possível.