No dia 2 de outubro farão greve os auxiliares da educação: contínuos, funcionárias dos pavilhões escolares, pessoas sem as quais uma escola não existe. São esses trabalhadores, o chamado pessoal auxiliar, que garantem, não raro, a ordem escolar e, de certo modo, porque trabalham há décadas numa mesma escola, são eles que conferem certa identidade aos estabelecimentos de ensino. A precariedade laboral das suas carreiras é, por isso, e por razões até de natureza emocional, uma ofensa ao mundo da educação. Se é certo que os professores têm sido espoliados da sua representação cultural, esvaziados do poder simbólico que lhes garantia certo ascendente na comunidade (até aos anos 70), não é menos verdade que a auxiliar que abre a porta da escola e da universidade, que o funcionário responsável pela manutenção dos equipamentos, ou as funcionárias que fazem o serviço de reprografia, todas estas pessoas deveriam merecer da tutela a mais urgente atenção: salários dignos, horários compatíveis com o direito à vida: o lazer, o repouso.
Professores do Ensino Superior ou de outros graus de ensino, o combate por melhores condições de trabalho não se restringe à questão salarial. O combate é muito mais profundo e tem que ver com a ética nas relações humanas. O Estado e o mundo das empresas não podem olhar para os cidadãos como simples chaves de rodar a engrenagem da competitividade. Não é enganadora a tese de Foucault: a questão neoliberal por excelência no campo educativo tem um princípio geral: empobrecer ou precarizar deve traduzir-se na corrida pela proficiência, na competitividade total. Esta lógica escravizante dos homens e mulheres que fazem a escola, isso tem de ser desmontado. Nem os estudantes são cavalos de corrida treinados para competir nas grandes pistas do mercado laboral, nem professores e demais pessoal técnico são funcionários cegos, surdos e mudos que executam funções nos estabelecimentos escolares.
Na vertigem estupidificante em que os professores estão metidos, são muitas vezes os funcionários escolares os adultos com quem muitos jovens e crianças conversam. Não raro são esses funcionários que protegem, orientam, esclarecem. Mas vejamos isto a partir de um ângulo que creio ser urgente. Não só os salários deviam ser alvo de uma política robusta, fazendo-os crescer, como, por outro lado, em função da violência e da disrupção que afetam as escolas, aos professores e ao pessoal de ação educativa deveria ser possível serem sujeitos livres, conscientes. O projeto de proletarização da classe docente não está separado da visão pobre que o Ministério da Educação tem do funcionário da reprografia, do contínuo ou da secretária administrativa dum liceu. A crise da educação prende-se com a representação destes atores indispensáveis para haver um ideal educativo. A escola-empresa, a escola-gueto, a escola-depósito, que fins serve?
Aos professores do 1º ciclo, que se preparam para vir a ser integrados no 2º, receio bem que é a lógica do “tudo ao molho”, para economia de recursos, o que está em andamento. Devem recusar-se, uns e outros, a participar deste atentado à saúde mental e física das crianças de 6, 7, 8 anos, futuramente “encaixadas”, à força, em escolas onde estão jovens adolescentes de 11, 12 anos. Todos funcionários, que professor dirá, lecionando no 1º ciclo, que esta incúria faz sentido? O que está mal no 1º ciclo é a falta de reconhecimento de que esses docentes necessitam: deveríamos ter os melhores como professores primários. Mas se os professores são, para a tutela, o que são os auxiliares de educação, que esperamos desta “reforma”?
Tudo é biopoder. Tudo é economia. Ninguém pediu tal medida. Sem que se tenham ouvido professores, pais e demais comunidade, a finalidade é esta: significa agrupar, aumentar o número de alunos por sala. Resolve o problema dos alunos sem professores, ou sem escola. Alarga até ao 6º ano a educação primária, mas potencia a indisciplina, transforma escolas em depósitos de crianças e adolescentes em processo de desumanização.
Tese: professores e auxiliares de educação, todos medidos pela régua da pobreza espiritual, salarial. E as crianças? São para gerir, nada mais.
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