Durante seis anos enterrámos o cinema tantas vezes que, se cada obituário tivesse levado uma coroa de flores, os multiplexes seriam hoje cemitérios municipais com estacionamento subterrâneo. Primeiro foi a pandemia, depois o streaming, depois o TikTok e finalmente a geração que, segundo os profetas da desgraça, só conseguiria seguir uma história se coubesse na vertical de um telemóvel. As salas iam morrer, o sofá tinha vencido e o comando à distância seria a lápide. Então chegou o verão de 2026 e o cadáver teve a indelicadeza de se levantar.
Em Portugal, não foi sequer um espasmo discreto. Até 16 de setembro, as salas somavam 8876 437 espectadores, mais 11% do que no período homólogo de 2025, e 66 milhões de euros de receita, mais 21,8%. Só agosto recebeu 1792 980 espectadores, contra 977 276 um ano antes — mais 83,5% — e a receita saltou de 6,28 para 13,25 milhões de euros, uns quase obscenos 110,8% de crescimento. Se isto fosse uma tecnológica, já havia um rapaz de ténis brancos num palco a falar de “crescimento exponencial”, “disrupção do mercado” e a pedir mais uma ronda de investimento. O ICA, felizmente, limita-se a pôr os números numa tabela. E os números são mesmo impressionantes.
