Comecemos pelo princípio. Pelo mérito. Porque o mérito existe e negá-lo seria tão desonesto quanto idolatrá-lo. E, atenção, aqui uso corretamente a palavra mérito.
Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro é o melhor jogador de futebol que Portugal alguma vez produziu e um dos melhores que o mundo alguma vez viu. Isto não é opinião. É aritmética. Ninguém marcou mais golos na história do futebol. Ninguém jogou mais jogos por uma seleção nacional. Ninguém, em nenhum desporto, juntou mais pessoas a olhar para o mesmo ecrã ao mesmo tempo. O corpo dele é uma obra de engenharia. A disciplina dele é monástica. A ambição dele moveu montanhas, contratos, campeonatos e um país inteiro que, numa noite de julho de 2016 em Paris, acreditou por noventa minutos que era grande. E foi. Nessa noite, foi.
Nasceu em Santo António, Funchal, num dos bairros mais pobres da Madeira, numa casa de blocos com telhado de zinco e buracos tapados com chapas de metal. A mãe era cozinheira. O pai era jardineiro e alcoólico. Havia ratos. Havia frio. Havia um quarto para quatro irmãos e quase nenhum brinquedo. Havia uma bola. E havia fome. Aos onze anos era tão magro que os treinadores do Nacional chamaram os pais por preocupação. O pai disse que era “de família.” Na véspera de partir para Lisboa, a mãe e as irmãs foram ao Funchal comprar-lhe roupa nova para que no continente não fosse discriminado pela pobreza. Tinha doze anos. Levou tudo num saco.
E saiu. E venceu. E venceu outra vez. E outra. Contra tudo e contra todos. Contra o sotaque, contra a magreza, contra o dinheiro que não havia, contra o mundo que não o esperava. E isto é bonito. Isto é verdadeiramente bonito. Uma criança pobre de uma ilha esquecida que se tornou o homem mais famoso do planeta. Se a história acabasse aqui, seria perfeita.
Mas a história não acaba aqui. As histórias perfeitas nunca acabam bem.
A Madeira é, ainda hoje, a segunda região com maior risco de pobreza de Portugal. Mas a Madeira é muito mais do que ele. É a terra das levadas e da poncha, da bordadeira que transforma linhas em arte e do lavrador que cultiva em socalcos impossíveis. É a ilha das gentes mais generosas que este país tem, e que nunca precisaram de um aeroporto com o nome de ninguém para provar o seu valor. O rapaz saiu. A pobreza ficou. E algures entre a saída e a glória, a história deixou de ser política e tornou-se mitologia.
Porque em vez de usar a plataforma mais poderosa que um português alguma vez teve para questionar porque é que a terra que o viu nascer continua pobre, usou-a para se sentar à mesa com Donald Trump e Mohammed bin Salman na Casa Branca. Acompanhou a comitiva oficial da Arábia Saudita. Não de Portugal. Da Arábia Saudita. O país onde mulheres precisam de autorização masculina para viajar, onde ativistas apodrecem na prisão por um tweet, e onde Jamal Khashoggi, jornalista do Washington Post, foi assassinado e desmembrado dentro de um consulado. A CIA confirmou o envolvimento do príncipe que o levou ao jantar. Ronaldo sentou-se ao lado dele e sorriu. Trump disse: “O meu filho respeita-me um pouco mais agora que passei a noite com Cristiano Ronaldo.” E Ronaldo disse que Trump “consegue fazer as coisas acontecer” e que “gosta de pessoas assim.” Na entrevista a Piers Morgan, o mesmo Piers Morgan que lhe serve de confessionário mediático sempre que precisa de se humanizar, disse que se sente “como um saudita.” Depois publicou no Instagram a agradecer: “Estou pronto para fazer a minha parte.”
A parte dele. A parte que a Amnistia Internacional descreveu assim: “Esta grandiosa máquina de relações públicas das autoridades sauditas, da qual faz parte também Cristiano Ronaldo, vende ao mundo uma imagem de progresso e glamour, distraindo a opinião pública do seu registo atroz de direitos humanos.” Mais de duzentos milhões de euros por ano. É o que custa um troféu que MBS leva à Casa Branca.
Mas ele não se mete em política. Nunca se meteu. Ele que partilha a mesa com presidentes, viaja com comitivas diplomáticas, critica a “guerra cultural identitária” em linguagem da direita americana, e diz que Trump pode mudar o mundo, não se mete em política. A neutralidade dele é como a esfera armilar na bandeira: decorativa. Está lá para mostrar, não para significar. Bonita ela.
Sim, faz caridade. Doou ao hospital que salvou a mãe. Visitou o Aceh depois do tsunami. Faz jogos solidários. E eu não duvido que o gesto seja sincero. Mas como dizia o lobo de Wall Street: ser generoso é fácil quando tens muito dinheiro. A generosidade do Ronaldo custa-lhe o que a nós nos custa um café. E a caridade é a forma mais elegante de não mudar nada. A caridade dá. A política transforma. E entre dar um cheque a um hospital na Madeira e questionar porque é que a ilha precisa de cheques em vez de políticas públicas, Ronaldo escolheu o cheque. Sempre. Porque o cheque não incomoda. A pergunta sim. E perguntas, filha, é coisa que este país não faz.
O rapaz que cresceu numa casa com telhado de zinco e buracos tapados com chapa construiu uma marquise ilegal numa cobertura de sete milhões de euros em Lisboa. A cobertura mais cara alguma vez vendida em Portugal. Rua Castilho. Duzentos e oitenta e oito metros quadrados. Piscina infinita. Vista trezentos e sessenta graus. Os arquitetos disseram-se “chocados.” A Câmara deu-lhe quinze dias para a tirar. No bairro onde cresceu, as casas com buracos continuam à espera de que alguém lhes dê quinze dias para alguma coisa. Em Cascais, a mansão da Quinta da Marinha: vinte e um milhões de euros, novecentos metros quadrados, piscina coberta de cristal, torneiras de ouro maciço. E antes disto tudo, comprou apartamento na Trump Tower em Nova Iorque. Vendeu com prejuízo. Mas a relação ficou. As paredes mudam. Os contactos não.
Há um aeroporto com o nome dele na Madeira. Uma academia com o nome dele em Alcochete. Uma medalha de honra de Lisboa proposta por Carlos Moedas. E um busto. Aquele busto. Que é talvez a coisa mais honesta que já se fez em sua homenagem: uma cara que não se parece com ele. Como o país que ele representa e que não se parece consigo próprio.
Criticar o Ronaldo em Portugal é como criticar a francesinha no Porto. Sabes que o molho está pesado, que há carne a mais e que a conta vai doer. Mas defendes. Porque é teu. E o que é teu não se discute. Come-se e cala-se. Que é, já agora, o lema não oficial deste país.
Os Aveiro são uma família portuguesa como tantas: a matriarca que manda, as irmãs que competem, os negócios que se misturam com os almoços de domingo, e um patriarca ausente que ninguém menciona. A diferença é que esta família tem quinhentos milhões de seguidores e um logótipo. A Dolores vê tudo e não diz nada, até emitir comunicado. Sobreviveu a um AVC e foi acusada de fazer bruxaria contra a nora. A Katia é a impulsiva: começou como “Ronalda”, foi anti-vacinas na pandemia, criticou publicamente os colegas da seleção depois do empate com o Congo, vestiu a camisola do Brasil para provocar. A Elma quer ser levada a sério mas os negócios falam por si: geriu as lojas CR7 na Madeira, fecharam todas em 2022. Foi investigada pelo Ministério Público por alegada fraude fiscal e contrafação. Vendia camisolas supostamente assinadas pelo irmão que, segundo a denúncia, eram tão autênticas como a neutralidade política dele. A Georgina chegou de fora, casou com o poder, e negoceia o seu espaço com a delicadeza de quem remove um quadro da sogra da parede e substitui por um espelho. E por trás de todos, silencioso, em cada assinatura mas em nenhuma fotografia: Jorge Mendes. O homem que fez a máquina funcionar. Sem ele, os Aveiro seriam uma família da Madeira. Com ele, são uma corporação.
Porque o Ronaldo é o novo navegador. A continuação dos descobrimentos com outras caravelas. Só que agora somos nós os descobertos. Nós, que exportámos o melhor produto humano que o País alguma vez fabricou, e que em troca recebemos um SIUUUUU.
O SIUUUUU. Não há nada mais desagradável do que chegar ao Mónaco, ao lobby de um hotel com chão de mármore e champanhe a trinta euros o copo, e ouvir um SIUUUUUU. É a Brienne of Tarth do futebol: solene, inabalável, completamente a sério, enquanto todos à volta tentam perceber se é performance ou convicção. É um salto com as pernas abertas que se tornou liturgia. Ele não é o Messias. É um rapaz muito habilidoso. Mas a multidão já não distingue.
Porque o futebol é exatamente isso: o melhor desporto rei que o sistema actual conseguiu inventar. Cada sistema com a sua distração. Roma tinha os gladiadores. A Idade Média tinha as fogueiras. Nós temos noventa minutos, um relvado e milhões de pessoas a esquecer que não têm médico de família. O espetáculo mudou de cenário. A função é a mesma. E tal como a Igreja Católica, o futebol atingiu o seu limite e continua exactamente igual. Pas de femmes. Sem mulheres. Nenhuma na direção. Nenhuma no comentário que conta. Nenhuma na mesa onde se decide. O Vaticano de chuteiras.
E o primeiro-ministro? Luís Montenegro voou três vezes aos Estados Unidos para assistir ao Mundial. Três vezes. Faltou às jornadas parlamentares do seu próprio partido. Quando lhe perguntaram se estava arrependido, disse que não estava “mesmo nada arrependido.” Chamou aos jogadores “heróis do mar”, citando o hino nacional para descrever onze homens a correr atrás de uma bola. Disse que Ronaldo é “a maior referência de Portugal e da portugalidade no mundo.” Disse: “Ele sofre, ele sente, ele é um orgulho enorme de Portugal.” Ativo. Foi a palavra que usou. Ativo. Como quem fala de uma empresa. Porque para Montenegro, Ronaldo não é um homem. É um ativo. Uma marca. Uma coisa que se usa para promover um país enquanto o país se desfaz. O primeiro-ministro voa para Dallas e as urgências fecham em Leiria. O primeiro-ministro abraça o Ronaldo e os professores fazem greve sem ninguém os abraçar. O primeiro-ministro diz “heróis do mar” e os pescadores não têm reforma digna. A mentalidade Ronaldo não é só do Ronaldo. É de um país inteiro que confunde espectáculo com governo e orgulho com política.
A Nike lançou um anúncio: “His Legend Goes On” após o último jogo de Portugal. A lenda continua. Como D. Sebastião no nevoeiro, o rapaz da Madeira não morre, não se reforma, não desaparece. Voltará. A nação espera. O sebastianismo agora vem com contrato de patrocínio. Mas a lenda que eu gostava de ver numa t-shirt não é a dele. É a da Aida Fernandes, agricultora em Covas do Barroso, presidente dos Baldios, que enfrentou uma empresa britânica cotada na bolsa de Londres, a GNR e o Ministério do Ambiente para defender a terra onde nasceu. Ou a da Catarina Alves Scarrott, professora da mesma terra, que foi ao parlamento explicar a deputados o que é um baldio e porque é que não se vende. Sem anúncio da Nike. Sem “His Legend Goes On.” Porque a lenda delas não precisa de continuar. Está a acontecer agora.
E depois veio o choro. O choro contra a Eslovénia no Euro 2024. O choro contra a Espanha no Mundial de 2026. O choro reprimido mas visível, contido mas performático, calibrado ao milímetro para emocionar sem desmanchar. Porque a cara não desmancha. A cara não se move. A cara tem a elasticidade emocional de uma máscara veneziana. O menino que chorava quando não tinha a bola, o “bebé chorão” da sua aldeia, agora chora com a disciplina de quem tem um rosto que custa mais do que a casa onde nasceu. E as lágrimas, quando caem num rosto que não se mexe, parecem um efeito especial. Bonito. Mas impossível de confirmar.
“Vou terminar quando eu quiser, não quando vocês quiserem.” Exatamente como eu neste artigo. Não é sobre futebol. É sobre poder. É sobre um homem que confundiu ser indispensável com ser eterno. E um país que o deixou confundir porque a alternativa era pensar.
E quando o avião aterrou em Lisboa às seis da manhã, cem adeptos esperavam. Alguns tinham saído de Aveiro e do Algarve de madrugada. Bruno Fernandes parou. Vitinha parou. Nuno Mendes parou. Ronaldo não apareceu. Como nos Globos de Ouro que ganhou por votação do público e para os quais nunca apareceu. O público vota. O público viaja de madrugada. O público espera. E o público não merece cinco minutos. Não porque não tenha tempo. Porque o público, para quem vive na cobertura, é o número debaixo da publicação. E os números não precisam de ser cumprimentados.
Saiu da pobreza. Mas não saiu do sistema que a produz. Mudou de andar. Não mudou de prédio. Passou da cave para a cobertura e em vez de perguntar porque é que o prédio tem caves, instalou uma piscina infinita no terraço. Não porque seja mau. Porque o prédio só lhe mostrou dois andares: o de baixo e o de cima. Ninguém lhe disse que podia sair do prédio. Ninguém lhe ensinou que havia rua.
O que mais me entristece é que este homem veio de onde eu podia ter vindo. Da pobreza. Da margem. Da vergonha de um sotaque. Da roupa comprada à pressa para não parecer pobre. E em vez de usar o que viveu para iluminar o que ainda se vive, escolheu apagar. Apagou a sua aldeia. Apagou os ratos. Apagou a fome. E construiu em cima um império de mármore onde o passado não entra. Porque o passado, no mundo do Ronaldo, é uma história de superação. Nunca uma história de injustiça. E a diferença entre as duas é tudo.
A superação é individual. A injustiça é coletiva. A superação celebra quem saiu. A injustiça pergunta por quem ficou. E na terra que o viu nascer ficou quase toda a gente.
Ronaldo não é um jogador de futebol frustrado. É o melhor produto que Portugal alguma vez exportou. Mas o legado que deixa é um campo cheio deles: raparigas e rapazes que acham que basta talento e trabalho para sair da pobreza. Sem questionar quem lucra com a pobreza. Sem questionar porque é que o talento de quem nasce numa casa de zinco precisa de um milagre e o talento de quem nasce no Chiado precisa de um telefonema.
E nós, que o vimos crescer, que gritámos os golos, que vestimos a camisola, que chorámos com ele, o que é que andamos a fazer? Que sociedade é esta que produz um génio e não lhe dá as ferramentas para ser mais do que um produto? Que transforma crianças pobres em sonhos individuais em vez de direitos coletivos? A pergunta não é o que o Ronaldo devia ter feito. A pergunta é o que é que nós devíamos ter construído para que nenhum rapaz de doze anos precisasse de sair com a roupa num saco para ter uma vida digna. O Ronaldo não devia ser herói. Devia ser pergunta.
E agora que já vos feri bem na identidade, na bandeira, no herói, no orgulho, no SIUUUUU, na francesinha, talvez possam sentir um bocadinho do que é o nosso sofrimento. Dói, não dói? Quando tocam no que é vosso. Exatamente como eu neste artigo.
Agora imaginem que não é o Ronaldo que vos tiram. É o espelho. E que quando olham, não vos reconhecem.
Miguel Salazar tinha dezasseis anos quando tentaram convertê-lo. Aos vinte e seis, foi ao parlamento defender a lei que proíbe essas práticas. Não por ele. Por quem ainda está lá dentro. A coragem dele não tem estátua, não tem aeroporto, não tem SIUUUUU. Tem só um corpo que sobreviveu e uma voz que se recusa a calar.
Neste momento, dezassete mil pessoas querem que a tortura volte a ser legal. Mais de setenta e cinco mil assinaram para a impedir. E enquanto vocês sentem uma pontada por eu ter tocado no Ronaldo, há adolescentes que sentem essa pontada todos os dias. Não por causa de um herói. Por causa de quem são. E a diferença entre as duas dores é esta: a vossa passa quando fecham o telemóvel. A deles não passa nunca. Sabem o que é isso? No Mónaco, no lobby de um hotel com chão de mármore, vocês ouvem um SIUUUUU e riem-se. Nós ouvimos o nosso nome morto e não temos com quem rir. Mas continuamos aqui. De pé. Sem aeroporto, sem busto, sem t-shirt da Nike. Só com o corpo. Que é nosso. Que é político. Que é bonito. E que não pede autorização para existir.
O Peter Parker aprendeu aos dezassete anos que um grande poder exige uma grande responsabilidade. Quinhentos milhões de seguidores é um grande poder. A pergunta é para que serve. E a resposta, até agora, é SIUUUUU.
Ainda dá tempo para outra resposta. Mas isso já não depende de nós. Depende do rapaz que saiu com a roupa num saco. E do que ele decide fazer com o que aprendeu pelo caminho. Ou com o que decidir aprender agora.
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