“Um país em suspenso por causa de um desportista” seria a maneira mais simples de resumir o que está a acontecer em Portugal desde que, na Dinamarca, pediram a um homem que se sentasse num banco. A frase tem a vantagem de ser verdadeira, mas o inconveniente de não explicar nada do que está a acontecer.
Porque a pergunta devia ser: o que pode haver de tão terrível numa peça de mobiliário? Seguida de: e o que pode haver de tão necessário em permanecer de pé, e se possível em movimento, para que o acto de um homem se sentar num banco provoque toda esta comoção?
Sabemos as respostas. Ou pelo menos temos a superstição de que as sabemos: Cristiano Ronaldo é amado e odiado com uma intensidade habitualmente reservada a tiranos ou a certos membros da própria família; a sua grandeza funciona como uma excepção através da qual os portugueses gostam de se imaginar; a vida vai torta e os grupos de comunicação beneficiam em variar no prato do dia.
Tudo isto explica muito, mas ainda assim explica muito pouco. Permitirá, certamente, que quem seja estrangeiro ao Ronaldo Issue se situe no mapa da intriga. Embora, por esta altura, aquilo que começou na Liga das Nações — essa competição que ninguém sabe muito bem para que serve — pertença já à jurisdição universal de qualquer criatura com acesso à internet e um par de sapatos.
Mas uma coisa é ser estrangeiro ao assunto e outra, muito diferente, é ser estrangeiro mesmo. Isto é: não ser português.
Para esses talvez seja preciso explicar não exactamente o que aconteceu, mas o que realmente interessa. Que é, claro, a maneira como Portugal vive este tipo de acontecimentos. Resume-se assim: tudo começa no futebol e toda a gente continua convencida de que é de futebol que se está a falar. Só que, a páginas tantas, a conversa já pertence a qualquer coisa da ordem do delírio especulativo e o que teve origem numa bola, meia hora depois, já foi parar a Pessoa, à teoria das vantagens comparativas ou à causa final da humanidade.
A primeira coisa que convém limpar do caminho é aquela reacção zoológica, do tipo Ronaldo-bom-Ronaldo-mau, que já nasceu resolvida e só serve para encher chouriços no espaço mediático. Os fiéis à causa CR7 aproveitam para disparar os últimos cartuchos apologéticos, invariavelmente os mesmo que usaram nos últimos quinze, dez ou cinco anos. Os que nunca gostaram dele podem finalmente levantar-se do sofá e anunciar aos vizinhos: “Eu bem dizia.” Alguns desses foram ao ponto de descobrir no episódio uma espécie de 25 de Abril do futebol português. Coisa que se compreende. Seria até possível escrever um pequeno ensaio a partir do paralelo salazarismo, cristiano-ronaldismo. Não seria um mau artigo. Talvez até tivesse graça. Mas não duraria muito.
Há, ainda, um certo tipo de reacção, aparentemente mais sofisticada, que é a dos que se indignam não com Cristiano Ronaldo, não com Jorge Jesus, não com Pedro Proença, mas com o facto de se falar tanto sobre o assunto. Como pode um país ocupar-se disto? Não há problemas mais importantes? Problemas a sério? Não haverá crises, inflações, hospitais, pobreza suficiente para nos dispensarem de discutir a posição corporal que um homem de quarenta e um anos deve assumir durante uma partida de futebol?
Haver há. E era aqui que queria chegar: talvez se possa considerar a hipótese de um assunto ser muito falado, precisamente, por ser um assunto importante. E este é um assunto importante. Tem a ver com histórias, mitos fundacionais, mecanismos de projecção, essas coisas.
Ajuda se formos ao princípio: à privação, ao rapaz que deixou muito cedo a sua ilha e ao talento que, em vez de se desperdiçar, foi tutelado por uma disciplina imponderável. E que depois, não necessariamente por esta ordem, passou por Lisboa, descobriu em Manchester um mestre, marcou muitos golos, venceu provas, conquistou cidades, acumulou inimigos, ergueram-lhe estátuas, conheceu a glória e aquela extraordinária impressão de que os obstáculos existiam apenas para que Cristiano Ronaldo tivesse alguma coisa que superar. Mas também ajuda recordar que, durante três semanas, ninguém se calou com a adaptação da Odisseia do Nolan.
Se parece haver qualquer coisa de heróico nisto tudo, é porque há. E é possível dizê-lo sem distância irónica: a história de Cristiano Ronaldo é uma epopeia. Até o nome é nome de herói. Até o mau cabelo é o mau cabelo de um herói da Antiguidade. Até as irmãs! Até elas são gregas na função dramática de informar o povo de que os deuses voltaram a conspirar contra o herói.
Mas lá está. De que servem os feitos, o culto, os antagonistas, a húbris, o povo, a sucessão, a decadência, a memória dos tempos, se o narrador é Nuno Luz e Vítor Pinto o exegeta?
É a forma possível. Ou, como disse o meu amigo Pedro Adão e Silva, que já foi ministro da Cultura e ouve Style Council: “bons tempos para se estar vivo.”
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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