Dou aulas numa pós-graduação em Inteligência Artificial e sou dono de uma agência. Quer dizer que ensino pessoas a fazer bem um conjunto de tarefas que, na minha própria empresa, deixei de precisar de contratar alguém para fazer. Ainda não encontrei uma forma confortável de dizer isto a um aluno no fim de uma aula.
O debate português sobre Inteligência Artificial e emprego tem andado preso a uma pergunta grande e vaga: quantos postos de trabalho vão desaparecer. É a pergunta errada, ou pelo menos é cedo demais para ela. O que está a acontecer agora, à frente de quem está no terreno, é mais estreito e mais grave do que isso.
Não são os empregos que estão a desaparecer primeiro. É o primeiro degrau.
A tecnologia não faz o trabalho do diretor
Pense no que uma ferramenta destas faz mesmo bem hoje. Lê duzentas candidaturas e separa as vinte que interessam. Transcreve e resume uma reunião. Copia números de um sistema para uma folha de cálculo. Escreve uma primeira versão de um texto que alguém depois corrige. Organiza, classifica, tria, redige um rascunho.
Isto não é o trabalho de quem decide. É o trabalho de quem está a começar.
As últimas vagas que abri na minha empresa foram para funções de entrada: gestão de redes sociais, redação, apoio a campanhas. São exatamente as funções que hoje eu conseguiria cobrir, com qualidade suficiente, sem contratar ninguém. Não digo isto com orgulho. Digo porque é verdade e porque desconfio que a maioria dos empregadores portugueses está a fazer a mesma conta em silêncio.
Portugal é um país de empresas pequenas, e isso torna tudo pior
Noventa e nove por cento das empresas portuguesas são pequenas ou médias, e a esmagadora maioria tem menos de cinquenta pessoas. A margem de lucro média numa empresa industrial ou de serviços anda entre os 4 e os 12 por cento. O custo do trabalho subiu cerca de 18% em três anos.
Uma grande empresa consegue aguentar um júnior durante seis meses enquanto ele aprende. Tem estrutura, tem quem o acompanhe, tem massa suficiente para diluir o custo de alguém que ainda não produz. Uma empresa de nove pessoas a operar com 8% de margem não tem nada disso.
Para essa empresa, a decisão deixou de ser entre contratar alguém ou não contratar ninguém. Passou a ser entre pagar um salário durante meio ano a quem ainda está a aprender, ou pagar vinte euros por mês por uma ferramenta que entrega um trabalho aceitável na primeira tarde. Num tecido empresarial como o nosso, essa conta só tem um resultado possível, e não é preciso ser cínico para chegar lá.
O que se perde não aparece em lado nenhum
Aqui está a parte que me preocupa mais, e que quase não se discute porque não dá números.
Ninguém aprende uma profissão a ler sobre ela. Aprende-se a fazer mal o trabalho pequeno, a ser corrigido por alguém com mais anos, e a fazer outra vez. O relatório mal feito, o texto que o chefe devolve todo riscado, a apresentação que se refaz três vezes. É um processo lento, ineficiente e irritante para toda a gente. É também a única forma conhecida de “fabricar” alguém com critério.
Quando a ferramenta entrega o trabalho já razoável, o erro desaparece. E sem erro não há aprendizagem. Estamos a produzir uma geração que vai chegar aos trinta anos com um currículo cheio de ferramentas e vazio de cicatrizes, sem nunca ter tido onde se enganar a sério.
No último ano, fiz 45 diagnósticos a negócios portugueses. O que separa os que funcionam dos que não funcionam quase nunca é a tecnologia que usam. É haver lá dentro alguém que sabe olhar para um resultado e perceber se aquilo presta. Esse julgamento não se descarrega. Constrói-se em anos de trabalho medíocre supervisionado por alguém melhor.
Estamos a poupar as horas e a gastar a geração seguinte.
O que ainda se pode fazer, e que não passa por travar nada
Não defendo que se trave o que quer que seja, nem acredito que fosse possível. Defendo que se olhe para a conta toda, e não só para a metade que dá jeito.
Uma empresa portuguesa de 10 a 30 pessoas que faça este trabalho a sério liberta entre 15 e 25 horas por semana de tarefas repetitivas. Isso é dinheiro real que aparece na conta ao fim do ano. Uma parte dessas horas é exatamente o custo de ter alguém a aprender ao lado de quem sabe. A escolha de não o fazer é uma escolha, não é uma fatalidade tecnológica, e as empresas que a fizerem vão dar por si daqui a cinco anos sem ninguém a quem entregar a casa.
Muda também o que se procura em quem entra. Durante décadas contratou-se quem sabia produzir. O que passa a valer é quem sabe avaliar: ler o que saiu, perceber que está errado, e saber porquê. É uma competência diferente, mais difícil de ensinar e quase impossível de avaliar numa entrevista de quarenta minutos.
E muda o que eu próprio tenho de fazer à frente de uma turma. Ensinar a usar a ferramenta já não chega, porque isso aprende-se num fim de semana. O que faz falta ensinar é a desconfiar do resultado.
Quando um aluno me pergunta se vale a pena, a resposta honesta é que vale, mas não pela razão que ele pensa. Não vai ser contratado por saber fazer aquilo. Vai ser contratado, se for, por ser a pessoa na sala capaz de dizer que aquilo está mal.
O problema é que essa pessoa costumava demorar dez anos a formar-se, e nós acabámos de fechar a porta por onde ela entrava.
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