As razões que levaram Ventura a não viabilizar o pacote laboral estão longe de assentar em qualquer convicção ou preocupação com o bem comum. O próprio processo negocial é prova disso: o líder do Chega disse tudo e o seu contrário sobre a proposta, chegando ao extremo de, na véspera da votação, anunciar de forma veemente as razões pelas quais a aprovaria.
Como aqui escrevi, tinha poucas dúvidas de que Ventura viabilizaria o retrocesso civilizacional em forma de leis sobre o trabalho proposto pelo Governo. Os seus financiadores apreciam leis que retirem poder aos trabalhadores; os seus eleitores não se identificam com o Chega por este tipo de questões; e nada agradaria mais a Ventura do que demonstrar à máquina do PSD que é ele o verdadeiro arauto da direita.
Engana-se quem pensa que foram as sondagens − que mostravam uma ampla maioria dos portugueses contra este pacote laboral − a motivar o chumbo, ou que as redes sociais tiveram um papel determinante, ou ainda que a descida da idade da reforma teve alguma relevância. Nada disso.
Continuo a acreditar que, em circunstâncias normais, o Chega aprovaria sem grandes sobressaltos esta contrarreforma laboral. Simplesmente, o processo arrastou-se durante tanto tempo que foi dando protagonismo a quem a propunha e retirando-o a quem a viabilizaria. No fundo, ao aprová-la, Ventura seria apenas uma muleta, um ator secundário nesta farsa de mil atos.
Depois, Hugo Soares, o novo Dono Disto Tudo, não encontrou melhor forma de intervir do que através de uma proclamação em tom de bravata adolescente: “Por muito que vos custe, amanhã esta proposta vai ser aprovada.” O deslumbramento raramente é bom conselheiro.
Seria uma vitória exclusiva do Governo e isso Ventura não podia admitir.
Importa recordar que a aliança PSD/Chega se manifestou sempre em dossiers que constituíam bandeiras da extrema-direita. Causas que repugnam qualquer eleitor tradicional do PSD, como as alterações às leis da imigração e da nacionalidade, a patetice das bandeiras ou a tentativa de consagrar legalmente a confusão entre liberdade de expressão e o direito de difamar ou propagar o ódio.
Como cereja no topo do bolo, surgiu a verdadeira consagração da cheganização do PSD: os critérios para a atribuição da PSU, uma espécie de reprodução institucional das conversas de taberna sobre “os que vivem com Mercedes à porta, andam com telemóveis de última geração e vivem à custa de subsídios”. A inefável ministra do Trabalho, incapaz de passar um dia sem repetir um slogan retirado da propaganda do Chega ou de dizer uma mentira despudorada, deu o seu contributo com a falsa narrativa dos 159 milhões de euros em pagamentos indevidos e com o discurso sobre a subsidiodependência.
Para todos os efeitos, a aprovação destes dossiers representou e continuará a representar vitórias para o Chega. Foi o partido que trouxe estes temas para a praça pública e fez deles o alfa e o ómega do seu discurso político. O PSD limitou-se a segui-lo, convencido de que poderia conquistar alguns eleitores por essa via. Passos Coelho diria que o original suplanta sempre a imitação.
Já com o pacote laboral aconteceu − e acontecerá com as alterações ao funcionamento do Tribunal de Contas, à Lei da Contratação Pública ou a qualquer iniciativa que possa sugerir que o PSD consegue governar sem a aprovação de Ventura − exatamente o contrário. Não são bandeiras do Chega, logo não passam. Quer lá o Ventura saber dum melhor funcionamento do Estado se isso não o aproximar do poder.
Tudo o que fizer parte da agenda do Chega será viabilizado pelo PSD. Tudo o que o PSD pretender aprovar do seu arremedo de programa será bloqueado pelo Chega. Ou seja, só passa aquilo que Ventura quer. A mensagem para o eleitorado de direita é clara: mais vale votar no Chega. É essa a estratégia.
O duo dinâmico Montenegro/Hugo Soares pode queixar-se de muitas coisas, mas há duas que, só por serem enunciadas, constituem um insulto à inteligência das pessoas.
A primeira é a ideia de que Ventura faltou à palavra. O ex-comentador desportivo pode ter dado o dito por não dito, mas as duas pessoas que menos autoridade têm para falar de incumprimento da palavra dada são precisamente Montenegro e Hugo Soares. Aliás, a situação chega a ser caricata. Foram eles que garantiram ao eleitorado que não existiria qualquer hipótese de convergência com o Chega para, poucos dias depois, estabelecerem alianças em matérias que marcam a fronteira entre a direita tradicional e a extrema-direita.
A segunda é prima da primeira. Quem escolheu o Chega como interlocutor preferencial foi precisamente este duo dinâmico. E isso, por muito que custe a alguns dos últimos sociais-democratas do PSD, como Carlos Eduardo Reis e André Coelho Lima, corresponde ao caminho definido pelos militantes do partido. Foi na radicalização do partido que votaram quando escolheram Montenegro e Hugo Soares. Neste momento − e em linha com uma evolução que já vinha dos tempos de Passos Coelho e Durão Barroso − o PSD está mais próximo da extrema-direita do que da social-democracia. Trata-se de um facto incontornável que representa uma transformação estrutural do panorama político-partidário português.
Daqui resulta que nunca seria viável ao Partido Socialista estabelecer qualquer acordo político com este Governo. Mas, mesmo que isso não bastasse, bastaria recordar o que foi dito sobre os socialistas no Congresso do PSD do último fim de semana. Não é possível pretender qualquer entendimento com o PS enquanto se o coloca no mesmo saco do Chega. Por mais extraordinário que pareça − até à luz dos acontecimentos recentes −, os ataques dirigidos ao PS foram mais intensos do que aqueles dirigidos ao Chega. Aliás, em vários aspetos, o PS foi mais longe na aprovação de propostas do Governo − incluindo em matérias de regime, como a aceitação de juízes para o Tribunal Constitucional indicados pelo Chega − do que seria politicamente aconselhável.
O bloco da extrema-direita tem eleitores, mas não consegue entender-se por razões táticas. O centro-direita tem eleitores, mas não tem líderes nem partido. O centro-esquerda tem eleitores, mas não os suficientes para governar. A esquerda à esquerda do PS é quase inexistente.
Chamar a isto um pântano seria, na verdade, muito simpático.
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