Comprei dois cravos e ofereci um à florista. Ficou surpreendida, Nunca me tinham oferecido assim uma flor, disse.
Há sempre uma primeira vez para tudo, respondi. Uma verdade universal que nem nos tempos atuais alguém terá coragem de desdizer. Ela pôs o cravo atrás da orelha e sorriu. O cabelo encaracolado fechou-se à volta da flor como se a tivesse esperado.
Oferecer uma flor é um gesto de amor. Pode ser um amor apaixonado. Pode ser um amor pela liberdade. Pode ser simplesmente não saber mais o que fazer com as mãos. Seja um amor apaixonado ou um amor por estes pequenos acontecimentos da vida.
Cinquenta e dois anos atrás, os cravos tinham entrado nos canos das espingardas. Ninguém sabe bem como acontece uma coisa dessas. Como é que uma flor entra num cano de espingarda? Como é que alguém tem coragem de oferecer uma flor a um soldado? Como é que um soldado aceita? Olho para o telemóvel naquele vício não pensado e penso, Como se ama em tempo de guerra? Desconseguir o amor é uma tarefa violenta. Não é como desaprender. Desaprender dá-se com o tempo, com o cansaço, com o esquecimento. Desconseguir é imediato, brusco. É uma amputação. Desconseguir o amor é uma tarefa violenta, que desintegra pequenos pedaços do que somos, dividindo partes de um ser completo que se completa com o outro.
Como se amava quando os filhos embarcavam para África e as mães ficavam à espera de cartas que às vezes não chegavam? Às vezes não chegavam. Às vezes chegavam outras notícias.
Como se ama em tempo de guerra? Como se ama num tempo assim, em que nenhum amor parece possível de ser sonhado? O amor aparece por acaso. Nem a guerra lhe escapa. Há quem tenha essa sorte, a de o encontrar antes de a guerra levar tudo. Havia cartas de amor que percorriam oceanos para chegar a soldados destacados em terras estranhas e distantes. Eram cartas de amor em tempo de guerra. Havia guerra. Havia amor. Havia quem achasse que as duas coisas podiam existir ao mesmo tempo. Podiam.
Maria Teresa Horta nunca deixou de amar. Mesmo quando a PIDE lhe bateu à porta. Mesmo quando lhe confiscaram os livros. Mesmo quando a agrediram na rua, é para aprenderes a não escreveres como escreves, disseram-lhe. Ela continuou. Escreveu amor quando amar era um ato político. Escreveu o corpo quando o corpo era proibido. Escreveu desejo numa ditadura que não suportava o desejo. Quando me proíbem, dizia ela, incandesço.
Desconseguir o amor é desincandescer quando a luta pede que se arda.
Mas há vidas e vidas. Mundos e mundos.
Em Moçambique, as crianças-soldado aprenderam a desconseguir o amor. Não por vontade, mas porque o mundo lhes ensinou que amar pode ser um perigo. Essas crianças eram obrigadas a beber água usando o crânio dos seus pais. Beber água pelo crânio dos próprios pais não é só uma imagem de horror. É a morte simbólica de tudo o que poderia ter sido terno e meigo.
Amar em tempo de guerra parece possível mas não deixa de ser estranho, tanto como uma florista receber uma flor de presente. Tanto como um soldado aceitar um cravo no cano da espingarda.
No dia seguinte voltei à banca. Ela tinha separado uma camélia para mim. Noutros cantos do mundo também se fez a liberdade com flores.
Nunca me tinham oferecido assim uma flor, disse eu.
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