Temos vindo a assistir nos últimos anos, no Reino Unido, ao crescimento dos movimentos nacionalistas. Na Irlanda do Norte, esse crescimento tem uma particularidade que não pode ser ignorada – a discussão sobre o futuro da província deixou há muito de ser uma questão meramente teórica. A possibilidade de uma Irlanda unida voltou ao centro do debate político. É neste contexto que importa olhar para os acontecimentos da última semana em Portadown.
Para quem não acompanha de perto a política da Irlanda do Norte, e para quem, em Portugal, dificilmente encontra este tema abordado com o detalhe que merece, o que tem estado a acontecer em Garvaghy Road não é apenas mais uma disputa sobre uma marcha. Estamos perante um dos lugares mais carregados de memória dos Troubles, período de intenso conflito político e sectário na Irlanda do Norte que se prolongou desde os anos 60 até ao final dos anos 90, com a assinatura do Acordo de Belfast, mais conhecido como Acordo de Good Friday, em 1998. O conflito envolveu, principalmente, republicanos nacionalistas irlandeses, maioritariamente católicos, contra os unionistas pró-Reino Unido. A violência desses anos foi enorme e os atos cometidos pelo IRA (Irish Republican Army), pelo Ulster Volunteer Force (força paramilitar terrorista – classificação do Governo de Londres), e pelas forças policiais do governo de Londres, maioritariamente em apoio às forças unionistas do Ulster Volunteer Force, levaram à morte de 3.352 pessoas, na sua maioria civis.
Ao fim de quase três décadas, os unionistas da Ordem de Orange, uma organização protestante e unionista com uma longa tradição de marchas, recebeu autorização para realizar uma marcha pela Garvaghy Road, zona predominantemente nacionalista e católica de Portadown. A autorização foi limitada a 35 homens, devendo a marcha ocorrer entre as oito e as nove e meia da manhã, sem bandas e sem apoiantes a acompanhar o cortejo. Pode parecer de pouca expressão. Mas não o é. A marcha de Drumcree é vista pela minoria católica de Portadown e pela maioria católica de Garvaghy Road como uma marcha sectária, triunfalista e supremacista, tendo alguns observadores comentado que fazer aquela marcha por Garvaghy Road é o mesmo que o Klu Klux Klan fazer uma marcha em Harlem.
Durante anos, principalmente entre 1995 e 2000, a marcha anual de Drumcree foi um dos grandes símbolos da divisão da Irlanda do Norte. A tentativa de fazer passar a marcha pela Garvaghy Road transformou-se, nos anos 1990, num dos grandes pontos de confronto entre unionistas e nacionalistas. Em 1998, a passagem da marcha foi proibida. No entanto, a sua memória continuou viva naquele lugar.
Em 1998, três crianças católicas, Richard, Mark e Jason Quinn, morreram depois de a casa onde viviam, em Ballymoney, ter sido incendiada num ataque sectário unionista. Um ano depois, Rosemary Nelson, advogada dos moradores da Garvaghy Road, foi assassinada com uma bomba colocada no seu carro. A responsabilidade do atentado foi reivindicada pelos Red Hand Defenders, um grupo paramilitar unionista. Nelson tinha sido alvo de ameaças sucessivas devido ao seu trabalho, nomeadamente a representação dos moradores que se opunham àquelas marchas, tendo inclusivamente, em 1997, quando em representação legal da Garvaghy Road Residents’ Coalition, sido agarrada, empurrada e ferida nas pernas e no ombro direito e cuspida por um oficial da Royal Ulster Constabulary (força policial da Irlanda do Norte) que a insultou chamando-a de “Rosemary you Fenian fucker“. Fenian é um insulto sectário usado contra católicos no Reino Unido.
É importante ressalvar, a bem do rigor, que a violência dos Troubles não pertence exclusivamente a um lado. Houve assassinatos, atentados e atrocidades cometidos quer por grupos unionistas quer por grupos republicanos. Houve vítimas protestantes e católicas. Houve famílias de ambos os lados destruídas pela violência. O reconhecimento dessa realidade, não pode, contudo, apagar a história concreta daquele lugar.
E a história concreta da Garvaghy Road é a de uma comunidade que viveu durante décadas sob a violência sectária, a violência dos confrontos e das ameaças. Muitos familiares das vitimas ainda moram em Garvaghy Road e convivem com essas memórias. É o caso de Marie-Therese Murray, mãe de Darren Murray, atropelado aos 12 anos por jovens protestantes que proferiram insultos racistas enquanto o matavam; e da mulher do filho de Rosemary Nelson, Catherine Nelson, que sempre acompanhou os protestos pacíficos dos moradores e que convenceu o marido a publicar um vídeo emocionante contando a historia de como em criança chorava pela mãe quando ela ia a Garvaghy Road, com o medo de nunca mais a voltar a ver. Medo que em 1999 se tornou realidade, medo que ele sente pela mulher desde os acontecimentos de sábado à noite, e que partilha com a sua filha.
Esta marcha, ao contrário do que se afirma, não é apenas uma questão de liberdade religiosa ou de tradição cultural. Essa é uma afirmação redutora que deixa de fora a verdadeira razão. A questão nunca foi simplesmente a religião. O problema é a demonstração de poder, e de superioridade, a alegada supremacia. É essa a questão da Garvaghy Road.
Os unionistas têm o direito de defender a sua identidade britânica. Os nacionalistas têm o direito de defender uma Irlanda unida. Os protestantes têm o direito ao exercício da sua expressão religiosa. Os católicos têm exatamente os mesmos direitos. Mas os direitos de uns não podem coexistir desligados dos direitos e da memória de outros. É precisamente por isso que a decisão da Parades Commission, de deixar a marcha prosseguir, provocou tamanha reação.
A Comissão decidiu permitir a marcha depois de uma sucessão de decisões judiciais, ao fim de 28 anos sem a mesma se realizar. O que estava inicialmente proibido acabou por ser autorizado, embora sob condições restritivas. E, durante o fim de semana, a disputa jurídica terminou praticamente às portas da marcha: uma decisão judicial de última hora, às duas da manhã, abriu caminho para que os 35 homens da Ordem de Orange pudessem avançar. Contudo, não avançaram. Quando chegou a manhã de domingo, milhares de pessoas encontravam-se na Garvaghy Road. A comunidade tinha-se mobilizado. Entre os manifestantes estavam dirigentes políticos nacionalistas, incluindo a primeira-ministra da Irlanda do Norte e vice-líder do Sinn Feín, Michelle O’Neill, a líder do Sinn Féin, Mary Lou McDonald, Claire Hanna, a líder do SDLP na Irlanda do Norte, Richard Boyd Barrett, líder do People Before Profit, entre inúmeros outros políticos e não políticos.
A questão tornou-se então ainda mais delicada. De um lado estava uma marcha autorizada pelas instituições. Do outro, uma comunidade que dizia que aquela autorização não podia ser separada da história do lugar. A polícia no meio. Necessário reconhecer que, no momento mais delicado, a atuação da PSNI (Serviço de Polícia da Irlanda do Norte, que substituiu a Royal Ulster Constabulary em 2001) evitou aquilo que todos temiam. A polícia não abriu caminho à força. Não se repetiram as imagens de décadas passadas. A operação policial não transformou uma disputa política e comunitária num novo confronto generalizado. E isto é importante. Depois de tudo o que se tem vivido na Irlanda do Norte, impedir que uma disputa sobre uma marcha se transforme num confronto de violência física é, por si só, uma vitória da paz.
Mas há questões a colocar à PSNI.
A principal questão é saber por que razão se chegou a este ponto. Por que razão uma marcha com uma história tão carregada de violência foi autorizada? Por que razão a PSNI informou a Parades Commission que não haveria protestos contra a marcha? Por que razão a PSNI não insistiu na rota alternativa que não passaria por Garvathy Road? Como é que se decidiu autorizar a marcha durante a madrugada, depois de horas antes se ter confirmado que a mesma não se realizaria, tendo a Garvaghy Road Residents’ Coalition inclusivamente celebrado essa decisão? Como se chega à situação em que milhares de pessoas acabam numa estrada, frente a frente com uma força policial, enquanto 35 homens aguardavam para iniciar uma marcha?
São perguntas legítimas. E não desaparecem apenas porque, felizmente, não houve violência.
Também a questão política não pode ser ignorada. A presença de Michelle O’Neill no protesto provocou uma reação imediata dos unionistas. O DUP (Democratic Unionist Party – o maior dos partidos unionistas na Irlanda do Norte) acusou a primeira-ministra de desafiar o Estado de Direito e de participar num protesto considerado ilegal. Os dirigentes unionistas exigiram consequências políticas. Poderá ser especulativo, mas esta posição tão forte do DUP não será também uma forma de escapar ao escrutínio devido ao caso de Jeffrey Donaldson (ex-líder do partido e da Ordem de Orange, condenado por abusos sexuais a menores, praticados entre 1985 e 2026) desviando assim as atenções, e tentando evitar a diminuição das intenções de votos no DUP? A esta redução acresce a falta de confiança no novo líder Gavin Robinson, que poderá estar a ser controlado por Carla Lockhart, que se juntou a protestantes de extrema direita num contraprotesto, em Scarva, e por Jamie Bryson, conhecido extremista-unionista defensor da Ulster Volunteer Force.
É assim que a Irlanda do Norte volta a mostrar a sua preocupante fragilidade. Porque o que deveria ser uma discussão sobre como duas “comunidades” podem coexistir transforma-se rapidamente numa discussão sobre quem tem o direito de existir politicamente. E essa é uma discussão perigosa. Os unionistas não desapareceram. Os nacionalistas também não. Nenhum deles vai desaparecer por decreto, por uma marcha ou por uma eleição.
O que mudou foi outro aspeto: a relação de forças políticas está a transformar-se.
O Sinn Féin, a principal força política nacionalista passou a ser maior força política na Irlanda do Norte, tendo a vice-líder do partido o cargo de primeira-ministra. Ao mesmo tempo, também o unionismo atravessa dificuldades políticas e internas, com o DUP a tentar responder a uma realidade eleitoral e social bem diferente daquela que existia há vinte ou trinta anos. Por todas estas razões, o que aconteceu na Garvaghy Road não pode ser visto como um episódio isolado. É o sintoma de um país que continua dividido sobre a sua própria identidade. E talvez seja essa a maior ironia de tudo isto.
A Ordem de Orange quer demonstrar que a sua tradição continua viva, os residentes da Garvaghy Road que a sua comunidade não aceitará voltar ao passado, os nacionalistas que não estão dispostos a aceitar decisões tomadas sem serem ouvidos, os unionistas que não podem ser tratados como uma comunidade cuja identidade está destinada a desaparecer. Mas o que o mundo viu foi uma estrada cheia de pessoas, música, comida, voluntários e famílias determinadas a permanecer ali durante horas para impedir que a marcha avançasse, para impedir o regresso a um passado de violência e sofrimento.
É difícil não reconhecer a dimensão simbólica dessas imagens. Durante os Troubles, uma multidão numa estrada da Irlanda do Norte significava, muitas vezes, barricadas, pedras, bombas, incêndios e sangue. Hoje, apesar da tensão, vimos e continuamos a ver pessoas sentadas, a conversar, a comer, a cantar, a ouvir música tradicional irlandesa e a esperar em comunidade. Não é pouco. É talvez uma das maiores diferenças entre a Irlanda do Norte de hoje e a Irlanda do Norte de há trinta anos.
Mas não nos enganemos com estas imagens. O problema não desapareceu. A paz não significa que as divisões deixaram de existir. Significa apenas que as divisões deixaram, em grande medida, de ser resolvidas pela violência. E é precisamente por isso que decisões como esta que foi tomada têm de ser analisadas com enorme cuidado. Uma sociedade que passou por décadas de conflito não pode tratar símbolos políticos e religiosos como se fossem apenas detalhes administrativos. Não se pode olhar para a Garvaghy Road como se fosse uma rua qualquer. Não é.
É uma rua onde a memória dos Troubles continua presente. É uma rua onde uma disputa sobre uma marcha se transformou, no passado, num conflito de enormes proporções. É uma rua onde famílias ainda vivem com as consequências desse passado. Mas é também uma rua onde, desta vez, centenas, quase mil pessoas conseguiram fazer aquilo que durante muito tempo parecia impossível, permanecer juntas sem transformar a revolta em violência. É essa imagem que eu prefiro guardar destes últimos dias.
Não a dos homens de laranja parados diante da polícia. Não a dos políticos a trocarem acusações. Não a das ameaças de processos ou de colapsos institucionais. Mas a das pessoas da Garvaghy Road juntas. Porque, no fundo, talvez seja esse o verdadeiro desafio da Irlanda do Norte. Não decidir qual das duas comunidades vai vencer. Mas perceber se é possível construir um país onde nenhuma das duas precise de vencer para poder existir.
A Irlanda do Norte nasceu de uma divisão, a Irlanda do Norte permanece uma colónia do Império Britânico. Durante séculos, os irlandeses, foram mortos, as suas terras roubadas e sua língua apagada. Desta ocupação nasceu a violência sistémica. O Acordo de Good Friday demonstrou que a divisão podia deixar de ser resolvida pela força. O próximo capítulo tem de responder a uma pergunta ainda mais difícil: se, e quando, chegar o momento de se constituir uma Irlanda unida, será possível fazê-lo sem que uma comunidade sinta que está a perder o seu país.
É aí que estará o verdadeiro teste. Não numa marcha. Não numa bandeira. Não numa igreja. Não numa estrada. Mas na capacidade de duas comunidades que carregam décadas de desconfiança e de dor conseguirem olhar uma para a outra e perceber que o futuro não pode ser simplesmente uma repetição do passado.
Por isso, continuarei a acompanhar o que acontece na Garvaghy Road com a atenção de quem sabe que, naquela estrada em Portadown, num dos seis Condados ocupados, se pode estar a discutir algo muito maior do que uma marcha.
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