1. Só há praticamente uma certeza sobre o resultado do 1º turno da eleição presidencial do Brasil do próximo domingo, 4 de outubro: é que nesse dia não será eleito o novo Presidente. O que acontecerá apenas a 25, na segunda volta, não com 14 candidatos, como agora na primeira, mas só com dois, os nesta (de longe) seguramente mais votados: Lula da Silva, o atual Presidente, e Flávio Bolsonaro, o filho do anterior Presidente, Jair. Que o “indigitou” como candidato a seu sucessor – dado ele próprio não poder ser candidato, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que também o condenou a 23 anos de cadeia, por golpe de Estado contra a democracia.
Qual será o mais votado no 1º turno, Lula ou Bolsonaro? Todas as sondagens dão um empate técnico. Com Lula, na maioria delas, um pouco à frente. Pouco? Pouquíssimo: esteve mais e tem caído. Inclusive prejudicado pelo último grande “caso” da política brasileira: o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, preso desde março, acusado da maior fraude financeira da história do país, da ordem dos 50 bilhões de reais (1 euro cerca de 0,17 reais), e que está a pôr em causa, e a ferro e fogo, uma instituição que nos últimos tempos foi uma importante salvaguarda da defesa da legalidade democrático, o já referido STF.
Prejudicado, quando devia ser contrário… O “prejuízo” resulta de um dos juízes (“ministros”) do STF mais atingidos por aquele escândalo ser Alexandre Moraes, atingido sobretudo por haver um contrato milionário – de 131 milhões de reais – do escritório de advogados da sua mulher com o Master. Ora Moraes foi o relator do processo que condenou Bolsonaro, e era até, com Lula e o vice-presidente Alkmin, o terceiro alvo de assassínio do projeto golpista. Logo…
Só que Lula não tem nada a ver com Vorcaro ou com o caso: nem sequer foi ele, mas Michel Temer, que indicou Moraes para o STF, nem foi um governo seu que autorizou/viabilizou o Banco Master, foram os governos de Temer e de Jair Bolsonaro. Ao invés Flávio tem a ver com Vorcaro, que a seu pedido financiou com 134 milhões de reais a produção de um filme sobre o Bolsonaro pai, Dark Horse, enquanto o filho candidato lhe mandava mensagens solidárias quanto ele já era alvo de suspeitas…
2. Tem-se por certa, pois, uma 2ª volta das presidenciais, como há quatro anos de Lula com Bolsonaro, só que agora Flávio e não Jair. Em 2022 Lula ganhou de forma indiscutível, mas por pequena margem, sendo a primeira vez que um Presidente candidato não foi reeleito. Ver-se-á se a 25 de outubro isso acontece… pela segunda vez. Porque tal é bem possível, já lá irei, contra qualquer previsão que há tempos se pudesse fazer com base na lógica democrática, após a desgraça e descalabro que foi o mandato de Bolsonaro, em todos os aspetos, mesmo em relação ao covid; e, ainda pior, após Bolsonaro estar na base dos incríveis gravíssimos ataques/destruições em Brasília, a 8 de janeiro de 2023, e da tentativa de derrubar a democracia. Nada, aliás, que espantasse, vindo do então obscuro deputado que, aquando do “impeachment” da Presidente Dilma Roussef, acompanhou o seu voto de uma declaração ignóbil, evocando, “nesse dia de glória para o povo brasileiro”, “o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilmar Rousseff” – Ustram, um dos maiores criminosos da ditadura, que como a tantos outros que contra ela se baterem, torturou Dilma quando presa política.
Isso é bem possível, repito. É o que continuam a dizer todas sondagens, em geral apontando para um empate técnico. Mas creio que, com base em outras sondagens, sobre as opções dos eleitores dos outros principais candidatos que não passam ao 2º turno, o “favoritismo” é de Bolsonaro (B) e não de Lula (L). De facto, segundo estas sondagens, as transferências de votos seriam assim: dos dois candidatos com previsão de cerca de 4% dos votos: de Renato Caiado (PSD, governador de Goiás), 46% para B., 20% para L.; de Augusto Cury (escritor, Avante), 41% para B., 25% para L.; com 3% dos votos – Renan Santos (Partido Missão), 50% para B., 18% para L.; com 1% dos votos: Romeu Zema (Novo, governador de Minas Gerais), 32% para B. 38% para L..
Pelo contrário, nas eleições de 2022, o terceiro candidato mais votado, com 4,16% dos votos, foi a senadora Simone Tebet, centrista/liberal, então do MDB – que tomou posição na 2ª volta a favor de Lula. Aliás durante a campanha mostrou uma assinalável qualidade e foi nitidamente a melhor nos debates televisivos em que participaram todos os “protagonistas”, debates que, com Lula e Flávio, nestas eleições não existiram. E Simone foi depois ministra do Planeamento de Lula e é agora candidata a senadora em São Paulo, pelo PSB, com o apoio também do atual Presidente. O que mostra, como ainda mais o mostra o facto de Geraldo Alkmin ser o vice-presidente de Lula, e como tal se recandidatar, que hoje a posição e a candidatura de Lula vão muito além da esquerda e têm inúmeros apoios de democratas de vários quadrantes. Por saberem que com ele há a “certeza” de se manter a democracia e o respeito pela Constituição da República.
3. Entretanto, impõe-se lembrar que não há apenas eleições presidenciais – há também eleições para governadores, deputados federais e estaduais, parte do Senado. São mais de 158,7 milhões de brasileiros que irão às urnas e dezenas de milhares de candidatos – só a deputados estaduais são 11276. E a importância que têm as eleições: a) a nível nacional para o Congresso – Câmara de Deputados e Senado, onde estão representados respetivamente 20 e 12 partidos -, que naturalmente condiciona ou mesmo determina a governação, e, b) a nível estadual a eleição para governadores, pois os Estados têm bastante autonomia, e principalmente São Paulo, seguido do Rio de Janeiro e Minas Gerais, são verdadeiras potências, a importância que têm todas estas eleições, dizia, bem justificaria, ou mesmo exigiria, que falasse delas…
E era o que também tentava fazer, embora de forma necessariamente abreviada e incompleta, das várias vezes em que fui cobrir as eleições brasileiras – presidenciais, mas não só. Agora, como inevitável, não tenho sequer informação para isso. Aliás, nas minhas muitas décadas de jornalismo, costumo dizer que nunca tive coisa tão difícil de tentar noticiar, explicar, contar, como as eleições brasileiras. Só um pequeno exemplo: como é que o leitor de um país, como o nosso, em que os Presidentes mantêm uma certa postura de distanciamento nestas coisas, pode compreender que o respeitável Fernando Henrique Cardoso, Presidente, participe num tempo de antena da eleição para governador do Rio de Janeiro e fazendo apelo ao voto de um candidato de outro partido que não o seu?…
Em relação a Lula da Silva, que foi aquele político brasileiro que, designadamente, acompanhei em mais campanhas, recordo sobretudo a que marcou a transformação do “sapo barbudo” no “Lulinha paz e amor”. Mas isto tem de ficar para a 2ª volta…