No segundo trimestre de 2026, os preços das casas, em Portugal, aumentaram 16%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística. Os valores estão já tão “esticados”, como diz o próprio Fundo Monetário Internacional, que estas notícias de subidas em cima de subidas, aumentos e crescimentos, já praticamente só interessam aos investidores imobiliários. Os restantes, todos nós, continuamos a ser os “burros a olhar para o palácio”.
Quem ainda se lembra que a economia é a ciência da gestão dos recursos comuns? Comuns a quem? Nesta dignidade perdida, quando nos retiram o direito a poder pagar um teto (Deixem-nos pagar!), só mesmo um símbolo como Maricarmen para fazer explodir a bolha. Não a bolha especulativa imobiliária, mas a bolha cheia de névoa do nosso conformismo com o estado das coisas.
Maricarmen Abascal é uma espanhola de 87 anos, de mobilidade reduzida, que pagava cerca de 500 euros de renda em Madrid. O facto de o contrato não estar no nome dela, mas em nome dos seus pais – foi assinado em 1956 – deu ao senhorio os instrumentos legais para lhe aumentar a renda para os 2650 euros mensais. E a polícia foi lá a casa, despejar a idosa.
Não é uma imigrante que divide o quarto em beliches, não pertence a uma minoria étnica remetida para um bairro de lata… Quando vamos tirar da cabeça o mito de que o problema da habitação só atinge certas franjas da sociedade, fechando os olhos, minimizando-o de forma preconceituosa? Não é uma mãe solteira pobre à espera de habitação social, não é uma professora deslocada ou uma estudante, é uma idosa com uma reforma digna (cerca de 1400 euros), mas ainda assim incapaz e suportar a ganância do senhorio, um fundo de investimento.
Madrid saiu à rua em grandes manifestações de apoio a Maricarmen. As Nações Unidas dizem que Espanha violou as suas obrigações internacionais quando o tribunal ordenou o despejo da idosa. Perante a indignação geral, o fundo de investimento, sem pingo de vergonha, propôs o regresso de Maricarmen ao apartamento, mas se este fosse inserido num programa municipal de rendas acessíveis, ou seja, para que os dinheiros públicos suportassem o aumento, ou parte dele. O primeiro-ministro Pedro Sánchez falou em “tragédia inaceitável” e prometeu acelerar a reforma de proteção dos inquilinos.
E que povo foi este que se plantou na rua a defender Maricarmen? Estavam lá os partidos “antissistema”? O Vox falou, sim, mas não de políticas de arrendamento ou da desregulação dos fundos imobiliários, preferindo criticar… a imigração.
Por cá, os “antissistema” também não beliscam o sistema. Sobre políticas de habitação, o Chega propõe dar prioridade “aos portugueses comuns” na habitação social ou apoiar a classe média através de dinheiros públicos, pelo Orçamento do Estado, além de se facilitarem os despejos. Controlar preços de venda ou arrendamento nem pensar, já que isso afasta o investimento privado. O sistema é intocável.
Na semana passada, a Câmara Municipal de Lisboa aprovou uma alteração à composição do Conselho Municipal de Habitação. Foram retirados os grupos de moradores e associações de inquilinos e incluídos representantes de promotores imobiliários e proprietários. Votaram a favor PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega. O sistema é sagrado.