Durante décadas, a extrema-direita europeia ocupou um lugar relativamente marginal no sistema político. Os seus temas existiam, os seus eleitores também, mas havia um limite social claro: certas posições eram consideradas politicamente inaceitáveis. Esse limite − mais cultural do que institucional − funcionava como uma barreira simbólica à normalização dessas ideias.
É precisamente essa barreira que, segundo o cientista político Vicente Valentim, tem vindo a desaparecer. No seu livro O Fim da Vergonha (Gradiva, 2024), Valentim defende que o crescimento recente da direita radical na Europa não resulta apenas de crises económicas, da imigração ou do descontentamento social. Resulta sobretudo de uma transformação nas normas sociais que regulam o que é aceitável dizer e defender no espaço público. Quando a vergonha desaparece, certas ideias deixam de exigir justificação.
Esta mudança tem implicações profundas para a política democrática. Mas talvez em nenhum domínio elas sejam tão visíveis − e tão estratégicas − como na educação.
A escola é sempre um campo privilegiado de disputa cultural e política. Não apenas porque forma cidadãos, mas porque define narrativas coletivas: sobre a História, a identidade nacional, os valores sociais e o lugar do indivíduo na comunidade. Quem governa a educação intervém, inevitavelmente, na forma como uma sociedade se pensa a si própria.
Nos países onde forças da direita radical chegaram ao poder ou ganharam forte influência política − da Hungria à Polónia, de Itália aos países nórdicos −, observa-se um padrão relativamente consistente de intervenção educativa. Não se trata de um modelo único, mas de uma gramática política reconhecível.
Um primeiro eixo consiste na renacionalização do currículo. A História nacional, os símbolos patrióticos e a ideia de continuidade cultural passam a ocupar um lugar central nos programas escolares. O objetivo não é apenas reforçar o conhecimento histórico, mas reconfigurar a narrativa nacional em torno de uma identidade mais homogénea e menos aberta ao pluralismo cultural.
Um segundo eixo incide sobre a contestação da educação para a cidadania crítica. Temas como igualdade de género, diversidade cultural ou direitos das minorias são frequentemente apresentados como expressão de uma suposta “ideologia” imposta pela escola. Sob o argumento da neutralidade educativa, procura-se limitar precisamente as áreas onde a escola tradicionalmente promove reflexão crítica sobre a sociedade.
Um terceiro eixo traduz-se em formas diversas de controlo cultural da instituição escolar. A família, a religião e a tradição são mobilizadas como referências normativas que devem orientar a ação educativa. Em alguns casos, isso traduz-se em reformas curriculares; noutros, em campanhas políticas contra professores, manuais escolares ou programas educativos considerados desviantes.
Importa sublinhar que estas políticas raramente se apresentam como antidemocráticas. Pelo contrário, são frequentemente justificadas em nome da liberdade, da soberania nacional ou da defesa da maioria silenciosa. O que está em causa não é a rejeição aberta da democracia, mas a redefinição das suas fronteiras culturais.
É aqui que a tese de Valentim se torna particularmente esclarecedora. Quando determinadas posições deixam de ser socialmente estigmatizadas, tornam-se politicamente mobilizáveis. A transformação das normas sociais precede e legitima a transformação das políticas públicas.
A educação torna-se então um espaço central dessa disputa. Ao reformular currículos, redefinir prioridades educativas ou questionar certos saberes, as políticas educativas contribuem para consolidar novas normas culturais. O que antes era considerado inaceitável torna-se progressivamente banal.
A História europeia mostra que a escola sempre foi um instrumento de construção nacional. Mas nas democracias contemporâneas essa função foi progressivamente equilibrada por outras dimensões: pluralismo cultural, autonomia científica, liberdade pedagógica e debate público. O risco das atuais derivações políticas não reside na valorização da identidade nacional em si mesma, mas na sua transformação em critério exclusivo de legitimidade educativa.
Há, portanto, um paradoxo importante. Políticas que se apresentam como defesa da identidade ou da liberdade podem, na prática, conduzir a uma redução do pluralismo educativo. Ao restringirem o espaço de debate sobre temas controversos, acabam por empobrecer precisamente a dimensão democrática da educação.
A questão central não é saber se a escola deve transmitir valores. Todas as escolas o fazem. A questão é saber quais valores e através de que processos. Numa sociedade democrática, esses valores não podem resultar de imposição política unilateral, mas de debate público, conhecimento científico e participação dos atores educativos.
A reflexão de Vicente Valentim ajuda-nos assim a compreender um fenómeno mais amplo: a transformação das normas sociais que estruturam o espaço político europeu. Quando a vergonha desaparece, certas ideias tornam-se politicamente disponíveis. E quando isso acontece, a escola − inevitavelmente − torna-se um dos primeiros territórios onde essa mudança se inscreve.
É por isso que as políticas educativas merecem ser observadas com particular atenção. Porque nelas se decide não apenas o que os alunos aprendem, mas também que tipo de democracia uma sociedade está disposta a ensinar às gerações futuras.
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