No debate que todos sabem, levantou-se um conceito, trazido por ambos os debatentes, que foi este: o preso político. Estar preso, de modo geral, significa ser afastado da liberdade pessoal e, dessa forma, acabar privado do uso voluntário de si próprio a vários níveis. Ser preso político é, pois, justamente isto, contudo, em especial, desta vez, também quanto à liberdade coletiva em fazer uso da palavra e usá-la como ponto de partida para uma rutura do curso da vida comum em sociedade.
Sobre este tema, esgrimiram-se, pois, números, argumentos, contextos, relatórios, geografias, dados históricos, memórias pessoais e até adereços de tortura, porém, em momento algum, se conseguiu sair do charco ideológico que faz tudo-tudo parecer discutível, mas não permite que o discutido chegue, verdadeiramente, à fase das conclusões que todos, espectadores e não-espectadores até, esperam.
Entenda-se que, enquanto o boomerang ideológico circulava entre as bocas de Pacheco Pereira e Ventura, permanecia ausente um ângulo essencial, que poderia acrescentar, mesmo, substância ao espaço público e, sobretudo, à forma como cada um de nós se reconhece enquanto sujeito de liberdade.
Aliás, mais do que medir, à régua partida da História ou à régua torta do Direito, o dano que um determinado conceito infligiu a uma sociedade num concreto tempo e espaço, a urgência da discussão deveria ter sido a vigência do próprio conceito enquanto tal. Por outras palavras, não só encontrar, naturalmente, o número de presos políticos que houve, num sítio ou noutro, ontem ou mais-ontem-ainda, mas encontrar, isso sim, o número que há, aqui e agora: no Portugal Hoje, que, apesar de formalmente livre, permanece para sempre abeirado do que nunca conseguiu ser e podia ter sido.
A este propósito, imagino que o professor José Gil, ironicamente, pudesse sorrir ao ponto que agora se levanta, não por o negar, mas por saber há décadas, que o problema se situa num plano diferente: aquele em que uma sociedade, mesmo livre, pode nunca chegar a experimentar plenamente a sua própria liberdade ora porque não sabe o que fazer com ela, ora porque, quando quase desvenda este não-saber, foge do que esta realmente permite.
Por isto, o degrau a que o debate entre Pacheco Pereira e André Ventura não chegou, com grande certeza mas com ainda maior prejuízo cívico para o cidadão que vai tentando ser o que já nunca consegue, foi o de não refletirem sobre o facto da democracia portuguesa ter, sem dúvida, partido as grades de um governo indiscutivelmente ditatorial, mas não nos ter proporcionado o que ainda procuramos descobrir: sair delas! Foi este o crucial ângulo ausente do debate e que prometia, de facto, à luz ideológica de cada debatente, um rumo verdadeiramente progressista de um tema que os portugueses esperam há séculos e não se verifica nunca.
Em Portugal, tem-se falado muito de assuntos importantes, porém tendencialmente de um ponto de vista que, de forma nenhuma, nos irá, assim, desvendar o horizonte pleno da liberdade que herdámos várias vezes, mas nunca chegámos a habitar vez alguma. Por cá, mesmo que com as melhores leis, mesmo que com os melhores legisladores e mesmo, até, que com os melhores cidadãos, há uma prisão-política que subsiste ao infinito do tempo e nos tem escapado sempre: aquela que acontece em liberdade e, com uma força disfarçada de si mesma, adia o que, sem fazermos a menor ideia, somos realmente.
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