Querida Patrícia,
Deves lembrar-te de que, há uns anos, costumava dizer-se “não batam mais no ceguinho” quando as pessoas insistiam em criticar, castigar e ruminar alguma coisa ou alguém cujo erro não tivesse sido assim tão grave ou que, entretanto, já tivesse assumido a falha e pedido sinceras desculpas. A semana passada, depois de ter recebido uma catrefada de insultos por causa de um texto ficcional, tornei a pensar que linguagem tem uma força enorme, sobretudo a que não é literal, ilustrativa, mas parece que, nesta época da iconoclastia, estamos a perder a capacidade de usar a imaginação. Talvez essa expressão tenha caído em desuso porque corremos o risco de alguém acreditar que se anda mesmo a bater num cego. Lembrei-me disto a propósito das redes sociais e das caixas de comentários dos jornais, sobretudo por causa da quantidade de impropérios que lemos diariamente. Não há um único dia em que não passe os olhos por alguma ofensa. Como se a linguagem escrita não atingisse os visados, como se fosse diferente escrever “filho da puta” ou dizê-lo. De repente, tudo é uma ofensa, uma indignação, e parece que estamos cada vez mais incapazes de distinguir o que é um deslize de um “ceguinho” de uma colisão propositada de alguém que vê exatamente o que está a fazer. Não distinguimos burrice de maldade, acidente de ataque. Estamos tão literais que até faz dó — e não falo em dó musical, convém esclarecer, para não causar dúvidas. Por exemplo, quando escrevi o título deste texto, pensei: será que vou ser atacada por alguma associação de pessoas invisuais? E não, não estou a querer dizer: “Ai, mas então agora já não se pode dizer nada?” Não é nada disto. Claro que, nos últimos anos, ganhámos noção e consciência de que algumas coisas estão erradas e não devemos dizê-las, até porque se pode ofender alguém que já está numa situação fragilizada do ponto de vista social ou emocional. Mas daí a atacar-se a torto e a direito, sem distinguir o que é importante e grave daquilo que é acessório, parece-me, sinceramente, assustador. Como se toda a gente fosse dona da verdade e quem quer que a contrarie faça parte de uma seita que deve ser exterminada o mais rapidamente possível.
A falta de noção de algumas figuras públicas não deveria ter mais atenção mediática do que certos atos de líderes políticos. Parece que tudo vale o mesmo, que a vida se tornou uma salada russa difícil de destrinçar da maionese. Claro que devemos estar atentos e ter um olhar crítico sobre as coisas, e, para usar outras expressões populares, é preciso ter calma nos cavalinhos e não pôr a carroça à frente dos bois. Ou, como disse o escritor Valério Romão há uns tempos numa entrevista: “A grande radicalidade deste tempo é ser-se sensato.” E é. E também acho que um dos poucos gestos punks que nos sobram é a leitura de um livro. Ainda é um lugar onde ninguém mete o bedelho, nem se bate no ceguinho.
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela