Há, enquanto escrevo, uma conversão em curso. Todas as conversões são bonitas, mesmo quando são duvidosas. Houve a de Saulo em Paulo, a de Cassius Clay em Muhammad Ali, a da Porcalhota em Amadora. Agora temos a de Chicão em Francisco. Santos, pugilistas, subúrbios e homens que querem ser amados: todos acabam por ter o seu lugar na comédia solene da transfiguração.
O nome nunca é um pormenor. Foi preciso Napoleão ser Napoleão. E Júlio tornar-se César. No caso de Chicão o nome foi o drama inteiro. Porque “Chicão” foi mais do que uma alcunha; foi a condenação que o prendeu à sua versão menor. E o mais cruel é ter-lhe sido imposto, alto e bom som, com pompa de baptismo político, por Paulo Portas, no congresso de Peniche de 2015, quando ascendeu à liderança da JP. O nome que o lançou foi também o nome que o apequenou. A partir daí ficou condenado a entrar em cena diminuído. Queria ser chefe, e davam-lhe uma palmadinha verbal nas costas. Queria ser um homem de ordem, e chamavam-no com o tom com que se chama o primo irrequieto para a mesa dos mais novos. Havia nele essa singularidade quase fatal: ser tratado pelo mesmo nome que o seu boneco teria no Contra-Informação.
Talvez esse complexo ajude a explicar o que se seguiu. Chicão foi um pequeno animal de combate. Rosnava, agitava-se, havia nele aquela fé de superfície que se confunde com o tom de voz, de quem, em vez de pensar, acredita em voz alta. Sonhava, no fundo, ser aquilo que Ventura viria a conseguir ser com mais instinto, mais selvajaria e mais vocação para o pântano. Defendeu com ardor os temas que a sua audiência queria ouvir, viu no VOX um exemplo, e, de desastre em desastre, estreitou o partido, deixando como legado um CDS reduzido à sua expressão mínima.
E um dia, acordou sozinho. É em dias assim que começam as conversões. Olhou para trás, viu ruínas, olhou para a direita, viu pontes a arder. Então fez o que fazem muitos homens quando já não podem ser temidos: tentou ser acolhido. Olhou para a esquerda e percebeu que era o único sítio onde ainda havia porta. Uma trajectória destas só podia acabar de duas maneiras: ou no endurecimento trágico, ou na liquidação de si próprio. Chicão escolheu a segunda.
E o resto é história: em poucas semanas, o Público ofereceu-lhe sucessivas peças de reintegração. Veja-se o perfil “A descida à Terra”, por exemplo. O título encerra todo um programa de canonização. Não se trata apenas de uma mudança de posição, mas de uma queda do cavalo em versão progressista. Francisco abandona o erro, liberta-se do fanatismo, aprende a ver pessoas onde antes via ideias. O próprio percebe depressa qual o idioma exigido para ser recebido: substitui verdade por “empatia”, fala de “maniqueísmo”, da necessidade da “dúvida”. É o acto de contrição completo. E quando finalmente cita Basílio Horta, dizendo que, hoje, o lugar dos democratas-cristãos “é no PS”, está a fazer o quê, senão a pedir para entrar?
No passado Domingo — haveria dia melhor? — Graça Castanheira, na sua coluna de opinião do P2, qual Paulo Portas ao contrário, chama-o, enfim, pelo nome: Francisco. Só Francisco. O novo nome chega-nos limpo, inteiro: uma manhã de Sophia. E, ao nomeá-lo assim, a cronista transforma a sua deslocação no eixo político numa prova de lucidez. É mesmo esse o termo que usa para o descrever: “lúcido”. Diz ainda que Francisco confrontou convicções com factos; que alguém capaz de crescer assim é, “no mínimo, um democrata”. É um texto revelador, não tanto sobre Francisco, mas sobre o comprazimento moral com que a esquerda acolhe as conversões dos outros.
O jovem que ajudou a devastar o CDS, que não deixou de ser ambicioso nem por um segundo, que reaparece no comentário televisivo exactamente quando a política lhe falhou, é agora apresentado como exemplo de humanidade recomposta. Graça Castanheira chama-lhe evolução. É uma hipótese. Eu chamaria outra coisa: mobilidade oportunista de um homem sem espinha dorsal suficiente para suportar a solidão do próprio campo depois de ter contribuído para o seu estado actual.
As conversões autênticas têm um custo. Implicam ruptura, mas também alguma espécie de permanência, alguma coisa nossa que se mantém, o ‘aulo’ que continua dentro de ‘Paulo’. Aqui vemos antes uma disponibilidade quase total para reconfigurar posições em função do espaço disponível. É bem possível que a questão seja menos ideológica do que biográfica. Não se tratou apenas de deixar de pensar como Chicão. A conversão serviu-lhe também para isso: matar Chicão.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.