Quando Marilyn Monroe morreu, a 4 de agosto de 1962, eu tinha pouco mais de dois anos. Não a vi incendiar manchetes, não a ouvi cantar ao Presidente com aquele sopro entre o pecado e a paródia, não participei na histeria planetária, não pendurei posters no quarto nem a sonhei em technicolor como tantos homens do século XX, convencidos de que o cinema tinha sido inventado para lhes servir mulheres em travessa. Conheço Marilyn dos filmes, dos livros, das fotografias, da televisão, da cinefilia e dessa arqueologia sentimental que nos leva a descobrir certas figuras já depois de mortas e, ainda assim, a senti-las como família. E a verdade é esta: sempre olhei para Marilyn Monroe como uma “tia” que, quando era nova, devia ter sido uma brasa.
Sei que a frase parece pouco académica e um pouco politicamente incorreta, o que me deixa imediatamente feliz. Estou-me marimbando, porque Marilyn já sofreu com académicos, sociólogos, biógrafos, terapeutas póstumos e cineastas convencidos de que lhe podiam abrir o crânio para filmar traumas em grande plano. O que quero dizer é mais simples. Há figuras do cinema clássico que admiramos com reverência museológica, como quem olha para um vaso chinês muito caro e muito frágil. E depois há outras que entram na nossa vida como certas “tias de família” que já conhecemos velhas, penteadas, compostas, com cheiro a pó-de-arroz e um passado de pecadora bombástica que ninguém comenta à mesa mas toda a gente imagina. Marilyn, para mim, sempre teve qualquer coisa disso: um lado glorioso e doméstico, como se pudesse estar na sala a servir chá e, ao mesmo tempo, a arruinar mentalmente três gerações de homens só com a maneira de acender um cigarro.
Talvez por eu ter chegado tarde à festa, nunca a vi como a viu o século dela. Nunca a vi apenas como monumento erótico. Vi-a já em estado de memória, já filtrada pela melancolia, já transformada num nome tão grande que até a tragédia parecia fazer parte do marketing. E isso, curiosamente, pode ter sido uma vantagem. Porque quando se chega a Marilyn sem o ruído original da época, sem o salivar masculino de serviço e sem a indústria ainda a funcionar em tempo real, percebe-se mais depressa uma coisa que o mundo demorou décadas a admitir: aquela mulher não era um efeito especial com mamas. Era uma grande atriz. E mais do que isso: era provavelmente a pessoa mais inteligente da sala, o que em Hollywood costuma ser uma qualidade pouco recomendável numa mulher bonita.
O centenário do nascimento de Marilyn, celebrado neste 2026, está a fazer ao menos esse favor histórico: obrigar muita gente a fingir que percebeu finalmente que durante anos a tratou como acessório. Em Lisboa, o Cinema Medeia Nimas abriu, a 16 de abril uma retrospetiva com cópias restauradas de 15 filmes que continua até 13 de maio. Em Londres, o BFI-British Film Institut, dedica-lhe a temporada Marilyn Monroe: Self Made Star, enquanto a National Portrait Gallery apresenta Marilyn Monroe: A Portrait. Em Paris, a Cinémathèque française também a revisita. Em Los Angeles, o Academy Museum faz o mesmo. Em bom português: o mundo inteiro decidiu, ao mesmo tempo, fazer aquilo que já devia ter feito há muito tempo: rever os seus filmes e tentar perceber a mulher que estava por trás da imagem banal do eletrodoméstico erótico, que a rotularam.
O melhor é que as instituições, quando estão inspiradas, até acertam no diagnóstico. O BFI fala de Marilyn como self-made star, uma estrela feita por si, e sublinha a sua inteligência cómica, a sua ambição e o facto de ter desafiado o sistema de estúdios e criado a própria produtora. A National Portrait Gallery insiste no papel que ela teve na construção da sua imagem. E a Cinémathèque procura recentrar a atriz e não apenas o mito fotográfico. Pela primeira vez em muito tempo, o centenário não serve só para vender a velha boneca com batom. Serve também para discutir o cérebro que estava lá dentro.
Ora eu, que sempre a vi como essa espécie de “tia velhota boazona impossível”, sinto uma secreta satisfação em ver o mundo apanhar finalmente o comboio. Porque quando se cresce a ver Marilyn já morta, ela aparece-nos menos como explosão hormonal e mais como criatura trágico-cómica. Em Os Homens Preferem as Loiras, aquilo que muita gente tomou por frivolidade é inteligência cómica de altíssima precisão. Em Niagara, ela percebe perfeitamente o que o cinema está a fazer com a sua imagem e devolve isso ao espectador como ameaça. Em Quanto Mais Quente Melhor, o que parece espontaneidade é uma engenharia finíssima de ritmo, voz e fragilidade. E em Os Inadaptados já não há sequer margem para a palhaçada dos clichés: ali está uma mulher partida, vulnerável, moderna, triste, e ao mesmo tempo incrivelmente lúcida. O Nimas, ao pôr estes filmes de novo em circulação, faz mais pela verdade histórica de Marilyn do que cinquenta documentários com música triste de fundo.
Talvez por isso me meta tanto nojo a velha conversa da “loira burra”. Não apenas por ser sexista, que é, mas porque é preguiçosa. É a forma mais barata que a cultura encontrou para resolver uma contradição que a incomodava: como aceitar que uma mulher tão desejada pudesse, além disso, ser cómica, disciplinada, ambiciosa, culta, insegura, feroz e consciente do seu valor? A solução foi fácil: transformar tudo isso em névoa. Chamar-lhe instável, tardia, difícil, problemática, excessiva. Em suma, fazer o que o sistema faz sempre às mulheres que se recusam a ser apenas o produto acabado da fantasia masculina.
Marilyn não cabia nesse molde. Lia muito, estudou no Actors Studio, quis papéis melhores, recusou ser só embalagem de luxo, bateu o pé aos estúdios, montou a Marilyn Monroe Productions e tentou gerir a própria carreira numa época em que uma atriz que quisesse mandar no próprio destino era vista como uma espécie de terrorista administrativa de soutien. Hoje chamar-lhe-iam empreendedora, visionária, criadora de marca, produtora inteligente. Nos anos 50 chamavam-lhe neurótica. O mundo adora mulheres modernas, desde que elas cheguem tarde o suficiente para não assustarem os homens do seu tempo.
Há ainda outro aspeto que me diverte neste centenário: o comércio. Porque claro que Marilyn continua a ser um grande negócio. Em Nova Iorque, apareceram os objetos pessoais raros, os cheques, as peças privadas, a colecção-icon, como se a santidade americana exigisse sempre uma mistura de museu, leilão e romaria para voyeurs cultos. Em Los Angeles, prepara-se uma grande exposição com vestidos, cartas e documentos. Tudo isto é tocante, claro. E tudo isto é também deliciosamente canibal. A cultura americana consegue fazer em simultâneo duas coisas notáveis: transformar uma pessoa em relíquia e a relíquia em bilhete com hora marcada. Marilyn, suspeito, acharia a operação perfeitamente lógica. E talvez exigisse percentagem.
Mas por muito cheque, vestido, catálogo, exposição e quinquilharia autorizada que se produza, nada substitui o confronto direto com os filmes. E é aí que a minha tia velhota volta sempre a ganhar à boneca oficial. Porque quando a vemos no ecrã, o mito complica-se. Ela deixa de ser só a loura absoluta, o batom, a anedota, a saia levantada pelo metro, o suspiro masculino transformado em logótipo. Passa a ser uma pessoa. Uma pessoa com timing, com inteligência de composição, com noção exata do efeito que provoca. É a diferença entre ser imagem e ser criadora de imagem.
Talvez o que mais me enterneça em Marilyn seja o facto de ela parecer sempre um bocadinho deslocada do papel que lhe foi distribuído. Mesmo quando está perfeita dentro do mecanismo, há nela qualquer coisa que escapa: uma tristeza, uma ironia, uma hesitação, uma sensação de que aquela mulher sabe sempre mais do que o filme em que está. Hollywood adorou isso enquanto pôde vendê-lo, mas nunca soube realmente lidar com ele. Porque o sistema gosta de ícones desde que eles não tenham interior. Marilyn tinha interior a mais. Tinha pensamento, nervo, ambição, fome de reconhecimento e fome de ser outra coisa além do corpo mais reproduzido do século. E um corpo destes, quando traz alma e ideias agarradas, torna-se logo muito mais difícil de administrar.
Eu, que a descobri já depois da morte, talvez tenha escapado à armadilha principal. Não precisei de a desaprender como símbolo sexual porque nunca a aprendi assim de raiz. Aprendi-a como ruína luminosa, como criatura ao mesmo tempo próxima e inalcançável, como uma tia de outro tempo que viveu depressa demais, brilhou demais, foi desejada demais e provavelmente ouvida de menos. Isso permitiu-me olhar para ela com uma mistura muito portuguesa de ternura, desconfiança e respeito. Ternura pela fragilidade evidente. Desconfiança perante o mito fabricado. E respeito pelo trabalho, que continua ali, intacto, à espera que deixemos de ser parvos.
No fundo, talvez seja isso que este centenário tenha de melhor. Não o perfume da nostalgia, não o verniz das instituições, não o desfile de objetos pessoais, mas a possibilidade de olhar para Marilyn e dizer finalmente uma coisa simples: desculpa, afinal não eras a caricatura que nos venderam. Eras mais complicada, mais engraçada, mais dura, mais triste, mais esperta e mais moderna do que quase toda a gente à tua volta. Eras, no fundo, daquelas mulheres que uma cultura inteira prefere chamar mito porque “trabalhadora genial” soaria demasiado real, demasiado incómodo e demasiado pouco sexy para os idiotas que mandavam.
E é talvez por isso que continuo a vê-la como vejo certas tias velhotas de família, dessas que já perderam a carne triunfante da juventude mas conservam uma autoridade moral sobre a sala inteira. Mulheres que já viram tudo, sofreram tudo, ouviram disparates sem fim, e que ainda assim, quando levantam os olhos, deixam toda a gente em sentido. Marilyn, mesmo morta desde 1962, continua a fazer isso. Continua a entrar na sala antes dos outros. Continua a expor a vulgaridade de quem a simplifica. E continua a parecer-me uma tia que em tempos foi uma brasa e que, pelos vistos, continua a queimar muita gente cem anos depois.
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