1. A organização dos exames nacionais, em qualquer ciclo de ensino, é sempre uma operação complexa, exigente e ao mesmo tempo delicada, que exige um extremo cuidado. Mas é também uma operação que, ao fim destes anos todos de democratização da escola pública, devia ser considerada quase rotineira – graças às regras, à experiência e a procedimentos que, obrigatoriamente, foram sendo apurados, ano após ano. Organizar os exames nacionais não pode ser nunca uma operação que, de repente, entre nos domínios do excecional ou da emergência súbita, obrigando à improvisação em cima do desastre e, com isso, criando um clima de incerteza que só faz aumentar a sensação de caos em toda a sociedade – contribuindo para o crescimento da desconfiança nas instituições.
Os exames nacionais fazem parte de um calendário escolar que, com uma variante de pormenor ou outra, se repete todos os anos. Com grande antecedência, sabe-se exatamente em que dias se iniciam e quando terminam. Muitos meses antes, sabe-se também, com grande rigor, exatamente quantos alunos vão a exame a cada disciplina. E com anos de treino e de experiência, já se tem também uma noção nítida e definida de quantos professores são necessários para corrigir as dezenas de milhares de provas, em todo o País.
Os exames nacionais, como a entrega das declarações do IRS ou a organização de um ato eleitoral, são uma operação que exige o envolvimento de milhares de cidadãos e que mexe com a vida da sociedade. E, como tal, representam um espelho perfeito do bom ou mau funcionamento do Estado.
Pelo que se viu até agora, tudo o que ocorreu em redor dos exames nacionais deste ano é o perfeito exemplo do que não pode nem deve ser feito. Não é em cima dos exames que se fazem experiências de digitalização que, como o País testemunhou, não foram testadas antes de forma conveniente. Não é aceitável que, por causa de mau planeamento e de uma deficiente organização, num processo que já devia estar mais do que otimizado, tenha sido preciso recorrer à mobilização de milhares de professores, fora de horas, como se o País tivesse sido atacado por uma emergência inesperada. E muito menos é admissível que, durante todo o tempo, as informações fossem sendo dadas de modo deficiente, aos soluços e, tantas vezes, de forma contraditória.
O facto de este processo ter ocorrido no mesmo período temporal em que vieram a público algumas questões menos claras e, porventura melindrosas, acerca do ministro da Administração Interna acabou por adensar as nuvens sobre o Governo. Até porque os casos atingiram dois dos ministros considerados, até aqui, mais competentes e populares deste Executivo.
Os casos, no entanto, não são comparáveis. Com a falta de explicações, prontas e claras, acerca das suas ligações com um empreiteiro, Luís Neves deixou a sua credibilidade pessoal ser posta em causa. Mas Fernando Alexandre permitiu um golpe profundo na credibilidade do Estado. O primeiro caso resolve-se com uma mudança de ministro. O segundo, mesmo com demissão ou não, vai deixar marcas profundas na confiança dos cidadãos nas instituições.
2. Num tempo em que se saliva tanto por homens providenciais, a vitória de Espanha no Mundial de Futebol, tal como a do PSG na Liga dos Campeões, deve ser erguida como um exemplo: a prova de que, como em tudo na vida, os bons resultados alcançam-se com boas equipas, unidas, solidárias, compostas por elementos de diferentes origens, mas que, com inteligência, esforço, técnica e arte, conseguem superiorizar-se aos adversários. Quando se hipervalorizam tanto as superestrelas e os milhões de seguidores que cada jogador tem nas redes sociais, ainda bem que há quem continue a demonstrar que o futebol é um desporto de equipa. Ninguém ganha sozinho.
3. Em mais uma das suas intervenções explosivas, Donald Trump lançou dúvidas sobre o processo eleitoral nos EUA, a poucos meses das decisivas eleições intercalares, que podem alterar, de forma profunda, a composição do Congresso e a liderança de muitos estados. Sem apresentar provas concludentes, acusou a China de uma vasta conspiração para “roubar” os votos dos eleitores americanos e, dessa forma, procurar alterar os resultados das eleições. O ataque foi tão violento quanto inesperado. Mas algumas horas depois, percebeu-se parte dos motivos: uma empresa chinesa anunciou ter concebido o maior modelo de Inteligência Artificial de código aberto do mundo, capaz de superar alguns dos modelos de referência das gigantes tecnológicas americanas. A supremacia dos EUA em IA está cada vez mais ameaçada. Por isso, a tensão entre Washington e Pequim vai agora aumentar. Os próximos capítulos merecem ser seguidos com redobrada atenção.