Há uma ironia quase poética a desenrolar-se, nestes dias, no centro da Europa. No domingo, 14, os eleitores suíços vão pronunciar-se em referendo sobre se aceitam que a população do país deva ficar restringida a um máximo de dez milhões de habitantes, até ao ano 2050. A iniciativa é do principal partido de extrema-direita helvético que conseguiu reunir as 100 mil assinaturas necessárias. E, caso a sua proposta ganhe, o país entrará numa espécie de contagem decrescente para um choque que, além de demográfico, será também social e económico: mal a população alcance os 9,5 milhões, diversas leis terão de ser alteradas para restringir fortemente a imigração; e se, mesmo assim, atingir os dez milhões, então o governo helvético será obrigado a retirar o país de alguns dos mais importantes acordos que mantém com a União Europeia – para desespero das grandes companhias que escolheram o país alpino para sede.
Percebe-se a tensão que rodeia a decisão dos eleitores. A população suíça alcançou, no final de 2025, os 9,1 milhões de habitantes, um salto importante face aos 7,3 milhões de residentes que existiam em 2002, quando entrou em vigor a livre circulação com os países da União Europeia. Neste momento, os estrangeiros representam cerca de 28% da população.
Parece muito? É aí que está a ironia. Os helvéticos vão às urnas precisamente depois de terem estado a assistir, na véspera, ao jogo de estreia da Suíça no Mundial de Futebol. Ou seja, a torcer por uma seleção em que mais de dois terços dos jogadores têm origem estrangeira direta ou são filhos de imigrantes.
O futebol e os grandes acontecimentos desportivos têm esta facilidade de exacerbar paixões, mas também de pôr a nu as mais incríveis contradições. Este é uma delas: as sondagens indicam que os eleitores estão profundamente divididos na escolha que devem tomar no dia do referendo (aliás, o “sim” à proibição de entrada de mais imigrantes chegou a liderar os estudos durante várias semanas…), mas todos os observadores também são unânimes em considerar que existe uma crescente onda de apoio a uma seleção que tem vindo a ganhar protagonismo no futebol internacional.
Esta esquizofrenia identitária não é nova nem exclusiva da Suíça. Mas a seleção helvética contém em si uma espécie de mapa geopolítico das últimas décadas. Treinada por um filho de emigrantes turcos, nela estão presentes os traumas e as fugas das guerras dos Balcãs, com uma forte presença de jogadores com origem no Kosovo (como Granit Xhaka, o icónico capitão), na Albânia e na Macedónia do Norte, mas também a memória das histórias de superação de famílias chegadas dos Camarões, da Nigéria, do Senegal e da República Democrática do Congo. Isto, claro, além do cruzamento discreto de passaportes europeus e latino-americanos.
No relvado, a Suíça é uma equipa integradora, multicultural e agregadora de paixões. Fora do terreno de jogo, muitos dos que a aplaudem − indiferentes às características étnicas ou culturais dos intervenientes, mas apenas interessados em ver se a bola entra ou não na baliza adversária − alinham com os discursos isolacionistas, que exploram a ansiedade em relação à imigração, culpando-a de todos os males no acesso à habitação ou aos serviços públicos.
A Suíça que vai a votos e a Suíça que vai a jogo são o mesmo espelho deste nosso tempo. Ao festejar cada golo marcado neste Mundial, o adepto helvético é confrontado com uma verdade inquestionável: o fecho de fronteiras que se discute agora nas urnas teria, há três décadas, condenado a sua seleção de futebol à irrelevância desportiva – como é, aliás, observável nos países onde a integração de imigrantes é social e economicamente mais dificultada.
O desporto não serve para mudar o mundo, mas ajuda, em certos casos, a explicar a realidade em que vivemos. As melhores equipas de futebol são, cada vez mais, exemplos perfeitos de integração multicultural, onde cada jogador sabe desempenhar o seu papel para um objetivo comum. Mas a sua principal riqueza reside na variedade de soluções e de características que coexistem no seu seio. É assim nas melhores equipas, como nas melhores universidades ou nas empresas mais inovadoras. Os populistas isolacionistas sabem jogar com as palavras, mas na verdade não percebem nada do jogo que importa: o do desenvolvimento e do progresso, com oportunidades para todos. Esperemos que ao menos durante um mês, com o Mundial, possamos receber essa lição nos relvados da América do Norte.