Desce a rua em direção ao Rato e para um, dois, dez segundos. Retoma a marcha. A entrada do metro ali ao lado e, distraída, segue como se fosse para o Príncipe Real. Para em frente à montra da livraria. Um, dois, dez segundos. Luana, a funcionária, vem à porta e cumprimenta-a, mas ela não se lembra de que a rapariga de cabelo ruivo e franja pequenina se chama Luana, nem que fala com o mel do Brasil, nem que se conhecem por terem passado dias e dias a conversar sobre o Rio de Janeiro, cidade natal de uma, cidade fetiche de outra. Fixa os olhos no chão, como que à procura de algo que lhe permita romper aquele silêncio, levanta o rosto sem que tenha encontrado nada, esboça meio sorriso, dá meia-volta e regressa a caminho do metro. Desce as escadas e, quando chega às portas de controlo, não sabe onde tem o passe. Chega-se para o lado, deixa avançar a fila que se forma rapidamente atrás de si, hora de ponta para toda a gente, o passe, onde será que guardei o passe? Volta a subir as escadas e vê-se de novo em direção à livraria, talvez refazer o percurso lhe refaça a memória. Mete a mão ao bolso e ali está ele, o passe perdido que nunca se perdera. Roda nos calcanhares e repete para dentro sobes as escadas, passas o passe, segues para o lado de Odivelas, sais no Senhor Roubado, Senhor Roubado, Senhor Roubado, de onde raio terá aparecido este nome, Senhor Roubado? Faz como pensou, não se engana no percurso, planta-se na plataforma atrás da linha amarela, pessoas e mais pessoas ao seu lado e, atrás de si, um miúdo de auscultadores nos ouvidos dança chegando-se para lá da linha amarela, e ela assusta-se com o perigo da beira da linha e o barulho do metro que está a chegar e que entra demasiado depressa na plataforma, como se voasse.
Faz este percurso diariamente há oito anos, cinco meses e dezassete dias e nem sempre percebe que se esquece de detalhes. Antes, quando trabalhava na empresa que vendia café a empresas que não produziam a não ser que houvesse café, apanhava um autocarro que a levava até Sete Rios e daí subia uma rua cujo nome já não recorda e que agora lhe parece demasiado comprida e íngreme, mas talvez não fosse. É como se a sua memória fosse um desenho que foi perdendo os contornos com o passar dos anos e estivesse cada vez mais esbatido, as sombras cada vez menos sombras e mais mescladas com o resto. Tem quarenta e sete anos e a memória de um velhinho de noventa e sete, menos a da avó que, aos noventa e sete, se lembra de tudo e mais um bocadinho porque tem no rosto cada um desses noventa e sete anos, mas a memória continua intacta.
Há uns anos, dois?, três?, já não sabe, deu por si num parque de estacionamento de um centro comercial sem saber onde tinha deixado o carro. Subiu e desceu os três pisos do parque, pediu ajuda aos seguranças, sim, sim, tenho a certeza de que subi por este lado e de que fui dar ali, à entrada do supermercado, é o caminho que faço sempre precisamente para não me perder. Resistiu o mais que pôde, mas acabou por ligar ao marido, que lhe disse que o carro estava parado à porta de casa, no exato lugar onde ela o tinha estacionado no dia anterior e que, se estava no centro comercial, era porque tinha ido de transportes. Desligou a chamada sem dizer mais nada e chorou, os seguranças sem perceberem nada do que se estava a passar, ela igualmente ou pior, porque afinal fora a sua memória que a abandonara ali. Chamou um táxi e foi para casa, onde chegou desorientada e triste, muito triste, como se tivesse perdido um bocado de si que não sabia como poderia recuperar. O marido, compreensivo, abraçou-a e disse que não fazia mal, era certamente do cansaço que ela trazia acumulado no corpo. Era ele quem devolvia aos sítios as coisas que ela se esquecia de arrumar, era ele quem lhe punha os compromissos no calendário do telemóvel porque ela, antes tremendamente ágil na forma como dispensava o uso de agendas – porque, sim, houve uma época em que a sua memória era um músculo rápido, forte e ágil, e em que não precisava de apontar nada, sabia tudo na ponta da língua, não trocava um horário, uma marcação, nada –, se esquecia agora das coisas mais elementares, até das que eram repetidas diariamente. O marido olhava para ela e temia pelo dia em que se perdesse a caminho de casa e andasse desaparecida durante dias, até ser encontrada desorientada e depois fosse encaminhada para um hospital onde lhe diagnosticariam a pior das doenças dos que ainda têm o corpo capaz.
Chega a casa suada, o calor de agosto a entranhar-se em cada poro, o cabelo colado à testa, uma vontade enorme de se deitar no chão de azulejo da cozinha e ficar ali até se sentir capaz de retomar a rotina. Abre a porta e para, um pé dentro, outro fora. Silêncio do outro lado. O gato que se chega a ela e ela dá um salto, não se lembra de gostar de gatos, que dirá de ter um. Procura por um vislumbre, algo que lhe diga que está na casa certa, apesar de não reconhecer o vestíbulo nem o móvel onde há várias coisas pousadas, e, claro, nem o gato. A chave. A chave abriu a porta, portanto está no sítio certo, mas esta casa já não é sua, este corpo já não é seu, não se reconhece, não reconhece nada e começa a tremer apesar do calor.
Chora porque não se lembra, mas lembra-se de ter a memória de um arquivo, informação a rodos à distância de um pensamento, as respostas todas na ponta da língua, nenhuma dúvida, nenhuma hesitação. Chora porque guarda consigo o passado distante como se fosse uma parede acabada de pintar, mas do que aconteceu ontem não tem a mais pequena ideia. Lembra-se, claro, do marido, mas talvez um dia se esqueça e, quem sabe, talvez se apaixone por ele de novo ou, pior, talvez o rejeite com veemência. Não confia em nada do que faz agora, e precisaria de ter algo que lhe garantisse que há coisas que nunca irá perder, como a sensação de estar em casa cada vez que ele a abraça e, com um carinho imensurável, lhe beija o cimo da cabeça, ou as festas que ele lhe faz à noite nas costas quando estão os dois no limbo estreito que separa o sono da consciência. Sente-se velha, como se tivesse vivido muitos anos e guardado muitas histórias e o seu arquivo já não tivesse espaço para mais, armazenamento cheio como nos computadores. Chora porque tem quarenta e sete anos e é como se um eclipse lhe tivesse roubado a vida, o futuro, como se se tivesse instalado em si uma escuridão imensa que perdurará até que tudo acabe por se esfumar, não lhe deixando na língua o doce sabor das recordações.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
