Avançamos pelo passadiço de madeira com sacos, guarda-sóis e toalhas. A manhã ainda desperta, mas o sol já queima. No areal, um bando de gaivotas junto à água, um ou outro guarda-sol já montado e uma criança que brinca. Estendo a toalha no lugar que me parece melhor e sento-me a ver o mar, antes de sair para um passeio. Pouco tempo depois chega um grupo de senhoras mais velhas, mais duas famílias e um casal de adolescentes. Enquanto o dia avança, a praia vai enchendo-se de gente que chega e assenta arraiais. Há os que trazem tendas ou toldos, os que ficam apenas com uma toalha, os que montam cadeiras, os que arrastam pufes, os que estendem panos enormes e os que se limitam a deixar uns chinelos e umas chaves no chão antes de partirem para uma caminhada ou um mergulho.
A praia é o lugar onde cabem todos. Os novos e os velhos. Os que gostam de ocupar espaço e os que preferem trazer pouca coisa. Os que comem sandes e saladas trazidas em tupperwares, os que se enchem de fritos de pacote e os que saem à hora de almoço para a esplanada ou para comer em casa. Os desportistas e os que só trabalham para o bronze. Os que andam pela areia a recolher plástico e os que deixam um rasto de lixo. Os que adoram ouvir música aos berros ou falar ao telefone em alta voz e os que meditam em silêncio em frente às ondas. Os esculturais e os obesos. Os que não largam o livro e os que não deixam o telefone. Os que discutem e os que namoram. Os que mergulham e os que torram. Os que vêm em bandos de amigos e os solitários. Os que têm casa com piscina a poucos metros dali e os que vieram de autocarro para regressar no fim do dia.
Há poucos sítios assim. Vivemos num mundo de uma desigualdade galopante, com tribos e classes que poucas vezes se cruzam. Uns não saem dos condomínios privados e dos restaurantes da moda, outros só passeiam em centros comerciais e outros ainda trabalham invisíveis todo o dia, nas limpezas, nas copas e nas entregas e cruzam a cidade em transportes lotados. Há os bairros das construções de luxo, os subúrbios baratos que são cada vez mais caros e as periferias escondidas dos bairros de autoconstrução. Há as escolas onde todos os meninos passam férias no estrangeiro duas a três vezes por ano, os colégios a que a classe média acede a custo, pagando pelo que pensa ser um bilhete para o privilégio, e as escolas onde o Estado cada vez gasta menos, com professores que passam mais de metade do tempo a ser assistentes sociais, psicólogos e tradutores.
O código postal tornou-se uma fronteira, que marca a distância social. Nunca nascemos iguais, mas agora nem sequer nascemos nos mesmos sítios. Pior: mal nos vemos uns aos outros. Vivemos enfiados numa bolha de classe, que distorce a nossa própria ideia do mundo. A bolha não está só no algoritmo. É formada pelos sítios que frequentamos, higienicamente divididos por rendimentos. Não nos vemos. E, se por um acaso, nos cruzamos nas ruas, ignoramo-nos. Distraídos com as solicitações dos telefones, andamos de pescoços curvados e cabeças enfiadas no umbigo. Os outros não existem. Ou são personagens vagas de notícias que nos indignam, ora merecedores de medo e raiva, ora de pena.
A praia é talvez um último reduto de espaço público onde nos encontramos todos. Claro que sempre houve e haverá as estâncias balneares preferidas dos abastados e aquelas a que vão os remediados. Mas, ainda assim, nada nos impede de, pelo menos por um dia, estender a toalha entre um banqueiro e uma empregada das limpezas. E é este “nada” que está agora em risco.
Desabituados desta convivência próxima com quem não se assemelha a eles, habituados ao luxo da exclusividade, os ricos não querem esta proximidade com a plebe. E, claro, estão dispostos a pagar por isso. Há quem reclame a propriedade privada de praias, quem torne o acesso penoso ou mesmo impossível a areais que ficam em frente a resorts e quem faça do preço uma barreira, enchendo a areia de camas, cadeiras e toldos pagos ao preço de um rim.
A ideia é deixarmos mesmo de nos ver uns aos outros. De percebermos como somos diferentes nos gostos, no aspeto e na fala. De entendermos o que, para lá de todas as diferenças, nos torna humanos e próximos. Porque este capitalismo selvagem e desenfreado precisa de categorizar a Humanidade por graus, definidos pelo número de zeros da conta bancária. Para que uns poucos vivam a exclusividade do luxo, é preciso que muitos trabalhem por quase nada. E esses terão de ser infra-humanos, para que se justifique toda a exploração como natural, para que não lhes passe pela cabeça exigir dignidade e direitos que teriam de ser subtraídos aos monopólios dos senhores do mundo.
Tornar praias privadas, transformar bairros em zonas de luxo e escolas e hospitais públicos em guetos não é só o produto da especulação e da austeridade avara no investimento do Estado. É mesmo um projeto político. É garantir um sistema de castas, que concentra o poder e a riqueza num punhado pequeno de gente, ao mesmo tempo que produz hordas de espoliados, prontos a ser explorados ou dizimados sem culpa, de acordo com as necessidades do mercado. Porque tudo é mercadoria. O trabalho não é um ofício e uma arte, mas uma troca precária. A saúde e a educação não são direitos, são privilégios que se pagam. A própria inteligência pode ser alugada. Sim, alugada, porque a propriedade passou a ser temporária, feita de licenças renováveis.
A mensagem é clara: estamos permanentemente em risco e temos de lutar uns contra os outros. Enquanto nos dividimos, perdemos a força que já tivemos por sermos muitos. Tornamo-nos dóceis e frágeis, medrosos. Somos máquinas de sobrevivência e competição, despojados de empatia e humanidade. Sim, porque a humanidade é perigosa: é aquela centelha que nos faz sonhar, ser solidários, partilhar o que temos sabendo que isso nos tornará mais ricos, imaginar um mundo para lá das impossibilidades que nos decretam.
Pode parecer um gesto banal este de estender uma toalha na areia, mas há um dia em que as coisas que nos parecem banais e garantidas desaparecem, se não lhes percebemos a importância, se não traçamos os limites do aceitável. Um dia privatizam o ar que respiramos, se deixarmos, se nos habituarmos a aceitar tudo o que nos tiram e a pagar por cima.
Agora, vou ali estender a minha toalha em frente ao mar.