Então, continuo esta série de crónicas sobre a Fundação Calouste Gulbenkian. A inicial sobre a sua extraordinária ação ao longo do tempo, no número que a VISÃO lhe dedicou, no seu 70º aniversário; a segunda sobre os seus dois primeiros presidentes: José de Azeredo Perdigão (AP), vitalício, durante 37 anos, seu grande edificador, e António Ferrer Correia (FC – 1993/1998), também muito importante, assegurando uma transição pacífica na “casa”, mantendo tudo de bom feito pelo seu antecessor, e em simultâneo resolvendo alguns problemas surgidos na parte final do seu mandato e promovendo, onde necessária, uma certa modernização.
Acentuei também que FC teve a visão de convidar para administrador o então presidente da Caixa Geral dos Depósitos (CGD) – que em princípio se suporia não aceitar o convite, mas aceitou, presumo que por vir de quem veio (FC, reitor honorário da Universidade de Coimbra, foi seu prof.) e por antecipar o que de facto aconteceria poucos anos depois. Falo, claro, de…
EMÍLIO RUI VILAR – Quando entrou para a administração da Fundação, em 1996, era desde 1989 presidente da CGD, na qual criou a Culturgest, cujo auditório tem hoje o seu nome. E tinha já um riquíssimo currículo, simultaneamente nas áreas das artes, da cultura, da gestão cultural (Serralves, São Carlos, comissário-geral da Europália, Culturgest), da economia, da política nesse sector e adjacentes (ministro de três governos provisórios e do I Constitucional, presidente da Sedes, do banco Espírito Santo e da GALP, vice-governador do Banco de Portugal).
No entanto, não foi ele, Emílio Rui Vilar (ERV), que sucedeu logo a FC – que tinha 81 anos e, por sua própria proposta, deixou de poder ser eleito presidente ou administrador executivo com mais de 70 anos. E quem lhe sucedeu foi Victor Sá Machado, que entrou na Fundação pela sua mão, em 1961, passando a administrador em 1969. Era o mais antigo, e seguindo a “regra” da casa, foi o escolhido: tomou posse em final de 98, faleceu em abril de 2002.
A sua presidência, além de curta, em minha opinião não teve especial relevância. Numa nota da própria instituição, salienta-se apenas que “procurou humanizar o papel da Fundação na sociedade portuguesa e nos países de expressão portuguesa, tentando chegar aos desprotegidos, aos desfavorecidos e àqueles que não tinham voz”.
Segundo essa “regra” da antiguidade, para lhe suceder devia ser escolhido José Blanco, na Fundação desde 1961 e administrador desde 1974 – com, entre outros, o pelouro internacional e uma excelente ação, como já aqui assinalei. Mas aquela regra deixou de vigorar e o eleito foi ERV: era impossível ter alguém com um historial, um percurso e uma multiplicidade de competências maior do que ele para presidir a Fundação.
Cumpriu-se, pois, o que creio ter sido objetivo (nunca declarado…) do prof. Ferrer. E Vilar, depois do doutor Perdigão, foi quem mais tempo presidiu a Fundação, de 2002 e 2012 – não podendo ser reeleito porque outra alteração estatutária foi a limitação a dois mandatos no cargo; e, em meu juízo, foi também, depois de AP quem mais a marcou. Aliás, antes de ser presidente já era administrador, depois foi administrador não executivo e ainda hoje é “consultor sénior”.
Aquando dos 50 anos da Gulbenkian, dedicámos-lhe no JL, Jornal de Letras, um extenso e completo dossier, em que escrevi sobre o seu papel e o entrevistei. Parece-me mais adequado transcrever aqui a síntese de uma publicação da própria Fundação sobre os “eixos estratégicos” por ele definidos:
1. Valorização das pessoas e apoio à inclusão social; 2. Capacitação das organizações da sociedade civil; 3. Incremento do conhecimento, da sua difusão e acessibilidade; 4. Criação de centros de racionalidade e excelência. E, nesta linha, lançamento de novas áreas de intervenção através dos chamados Programas Gulbenkian – Criação e Criatividade Artística (2003), Estado do Mundo (2005), Ambiente (2008) e Próximo Futuro (2009) – e da plataforma educativa “Descobrir” (2008).
A síntese salienta ainda que foi lançada a renovação do Grande Auditório e adquirido o remanescente do jardim do Parque de Santa Gertrudes (local da sede da Fundação) para assegurar no futuro a união do conjunto do Parque e criar novas acessibilidades e condições expositivas ao Centro de Arte Moderna (já concretizado). E salienta que, no plano internacional, a Gulbenkian foi distinguida com a presidência do European Foundation Center, entre 2008 e 2011.
Estas as grandes linhas. Como não podia deixar de ser, ERV também teve opções discutíveis, como a de acabar com o Conselho Geral, e fez outras coisas muito boas. Uma a que dou particular significado, até pela grande amizade que me ligava ao seu beneficiário: Eduardo Lourenço, convidado para administrador não executivo da Fundação. O Estado nunca o fez, como defendi, embaixador da cultura portuguesa, a Gulbenkian acolheu-o e apoiou-o, proporcionando-lhe condições, que de outra forma não teria, para prosseguir a sua rara e excecional obra. Por outro lado, penso que a sua posição pesou muito na escolha/eleição do sucessor,
ARTUR SANTOS SILVA – Com um perfil e um percurso muito semelhantes ao seu, que era administrador não executivo e pertencera ao Conselho Geral. A maior diferença entre os dois, na área económica/financeira, é que enquanto Vilar teve a liderança de diversas importantes instituições, Artur Santos Silva (ASS) concentrou-a: fundador e figura central da primeira instituição financeira privada criada após o 25 de Abril, a SPI, depois banco, BPI. De que foi presidente executivo e presidente do conselho de administração, hoje seu presidente honorário e membro do conselho de curadores da enorme Fundação La Caixa. Aliás, enquanto presidente da Gulbenkian, entre 2012 e 2017, ASS prescindiu de qualquer remuneração, pois manteve-se como presidente do BPI.
Como foi isso possível? Por ASS ser alguém com uma extraordinária capacidade de organização, formação de equipas, sabedoria prática – com uma atenção aos outros, vontade de ajudar e servir causas, absolutamente únicas.
Claro que na área económica ASS também foi assistente na Universidade de Coimbra – de que seria (primeiro) presidente do Conselho Geral, como o seria depois da Un. do Porto –, membro do II Governo Provisório, vice-governador do Banco de Portugal. Enquanto, na área cultural/cívica, ainda antes da Gulbenkian fora administrador da Fundação de Serralves, presidente da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, do Conselho de Fundadores da Casa da Música e da comissão nacional das Comemorações do Centenário da República.
Artur Santos Silva, na linha do prof. Ferrer, criou Conselhos Consultivos em todos os Programas e nas principais áreas de intervenção da Fundação; e, cito documento da Fundação, “promoveu a elaboração de planos a longo prazo para o Serviço de Música, o Museu Gulbenkian e o Instituto Gulbenkian de Ciência; lançou ou apoiou a realização de estudos e conferências sobre temáticas sociais, económicas e financeiras, bem como sobre políticas públicas europeias e nacionais; apoiou o projeto de renovação do Grande Auditório”.
Entre as grandes exposições realizadas no seu mandato, destaque para a retrospetiva de Almada Negreiros e sobretudo a de Amadeo de Souza-Cardoso no Grand Palais, em Paris. Aliás, ASS teve como objetivo dar uma mais ampla dimensão, não só portuguesa como lusófona, ao Centro Cultural Gulbenkian na capital francesa (e foi nessa perspetiva que integrei, com Francisco Seixas da Costa, o seu Conselho Consultivo), objetivo que não viria a ter seguimento. Mas isto, a “sucessão” de ASS, com uma efetiva ou aparente mudança de certas opções, terá de ficar para uma quarta e última crónica sobre a Fundação.
MARCELO CAETANO – AZEREDO PERDIGÃO Na minha crónica sobre os dois primeiros presidentes da Gulbenkian, escrevi a certo passo Azeredo Perdigão (AP) haver-me destacado “Salazar ter sido mais recetivo do que Marcelo Caetano à ideia de a apoiar (a criação da Fundação), dispensando certas exigências da ditadura e concedendo-lhe alguns benefícios fiscais. Marcelo não queria”. Acrescentando eu, de seguida, que “as relações de Perdigão com ele (Caetano) sempre foram más, do que me falou mais de espaço”.
A este propósito recebi de Miguel Caetano (MC), filho de Marcelo Caetano, um email, que agradeço, em que desmente essa tese, enviando-me um texto que em 1996 publicou no Diário de Notícias, em resposta ao que nesse jornal saíra de teor idêntico ao a mim dito por AP. Nesse texto MC defende que, pelo contrário, o pai até ajudou AP a resolver problemas, mormente redigindo projetos de cartas a enviar a Lord Radcliffe (representante dos que se opunham a que a Fundação ficasse em Portugal). E cita uma carta de AP a MC, de 25 de julho de 1956, “‘agradecendo a valiosíssima colaboração’, que termina com as seguintes palavras: “Apresso-me, por isso, a dizer-lhe, por escrito, quanto lhe estou grato pelo auxílio que me prestou e que espero que esse auxílio continue a manifestar-se.”
Obviamente não tenho elementos para saber se esta declaração de AP, nessa altura, correspondeu a algo que fosse por si sinceramente pensado ou se apenas visava manter uma boa relação com quem então era, e continuou a ser até 1958, ministro da Presidência e nº 2 do governo e do regime. Sei apenas que foi isso que Azeredo Perdigão me disse. Como disse, por exemplo, que tendo acompanhado Caetano, já presidente do Conselho, em 1969, na sua visita de Estado ao Brasil, não foi tratado por ele como, presidente da Gulbenkian, entendia dever sê-lo.