Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, e desde que Trump retomou o poder nos EUA, o assunto das despesas em defesa nos países europeus ganhou um novo vigor.
Uns, porque estão muito perto desse conflito no extremo oriental da Europa e temem que a Rússia retome as suas ambições territoriais imperiais. Outros, porque sendo membros da NATO, se veem na contingência de aumentar a percentagem do seu PIB alocado à defesa, seja para acudir ao esforço de guerra ucraniano, seja para cumprir com as novas metas de despesa em defesa impostas por Trump.
Importa, antes de mais, fazer o seguinte enquadramento: primeiro, os níveis médios de percentagem do PIB alocado à despesa à escala mundial têm estado em mínimos históricos, nomeadamente na Europa, um continente que passou uma boa parte da sua existência em guerra; segundo, quando se fala de percentagem do PIB alocado à defesa, falamos de um jogo de soma nula – o que esta dimensão ganha, outras têm de perder.
É por isso, aliás, que se fala do dividendo da paz. Os anos pós segunda guerra mundial, caracterizados pela construção da União Europeia e pela paz entre as suas nações, permitiu alocar uma parte cada vez menor do PIB à defesa, alocando cada vez mais a outros sectores.
E a pergunta é: esse dividendo traz felicidade? A resposta é clara: sim, quanto mais paz existir, mais felizes tendem a ser as pessoas. Primeiro, porque poucas são as experiências mais negativas e traumatizantes do que a guerra – matar e morrer é o contrário da prosperidade. Depois, porque os gastos da guerra não têm efeitos líquidos e globais positivos: o que se faz serve para destruir ou ser destruído.
Ao contrário, quando se alocam os recursos à educação, à saúde, à segurança social ou à inovação e à ciência, está-se a gerar um efeito multiplicador que faz com o presente e o futuro tenham cada vez mais hipóteses de prosperidade.
É evidente que não há nenhuma sociedade que não gaste em defesa. Seja interna, externa, pública ou privada, ainda não foi descoberta nenhuma sociedade que garanta a paz sem um mínimo de despesas defensivas. E há, também, efeitos positivos que vão emergindo da investigação nas áreas da defesa que, depois, transbordam para aplicações civis.
Mas o que está em cima da mesa não é a redução das despesas em defesa, antes o seu aumento. Aceitar que esse aumento possa ser uma necessidade contingente, por causa de uma guerra que deflagrou na Europa, é uma coisa. Um mal menor. Imaginar que aumentar, de forma permanente, os gastos em defesa seja uma coisa boa, é outra.
Os estudos na área da felicidade são claros: as sociedades que alocam muitos dos seus recursos à defesa (seja interna, seja externa) não estão a maximizar a felicidade. Já para não falar dos países em guerra, que vivenciam fortes quebras na felicidade.
O raciocínio deve ser: alocar o mínimo possível que garganta a paz. Quando há mais ameaças, rever em alta para dissuadir. Quando as ameaças se dissipam, rever em baixa e aproveitar o dividendo da paz.
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