Em julho do ano passado, os professores que fizeram a correção do exame nacional de Filosofia do 11º ano, o primeiro do Secundário a ser corrigido em formato digital, avaliaram negativamente o processo e queixaram-se de que o IAVE (o instituto que regula a realização das provas) não lhes respondera atempadamente aos pedidos de esclarecimento.
Nesse teste à nova forma de correção introduzida pelo Governo, os professores corretores depararam-se com folhas de resposta completamente brancas, respostas cortadas a meio ou até trocadas (um problema grave porque cada corretor ficara encarregado de corrigir um item concreto de uma prova e não o exame todo do princípio ao fim).
Nalguns casos, deixaram de poder rever as correções antes de darem o OK final, porque os exames tinham entretanto “desaparecido” da plataforma.
No final da 2ª fase, apesar de os erros e as queixas dos professores corretores se terem repetido, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação considerou todo o processo “muito positivo”, admitindo, ainda assim, que no ano seguinte seriam introduzidas “as melhorias qualitativas consideradas necessárias”.
Este ano, portanto. Mas, aqui chegados, parece que estamos a assistir à comédia O Feitiço do Tempo (Groundhog Day, de 1993) e não há nada que nos faça rir.
Alargado o novo sistema de avaliação a todos os exames nacionais do 11º e do 12º anos, surgiram logo relatos de professores a queixarem-se de atrasos na receção dos itens para corrigir, de não conseguirem aceder à plataforma onde estão as provas ou de faltarem folhas de resposta.
“Estou sem saber o que fazer” é a frase, dita ao Público por um professor do Secundário num colégio em Loures, que resume bem o caos.
O ministro da Educação, Fernando Alexandre, começou por sacudir a água do capote, dando exemplos práticos como o facto de algumas escolas terem agrafado as folhas em cima do QR code que identifica o exame ou o aluno – o que supostamente dificultaria ou mesmo impediria a digitalização dos exames. “Nenhum aluno será prejudicado”, assegurou então.
Até que, na sexta-feira, 3, o ministro anunciou o adiamento da divulgação dos resultados para 17 de julho, para “garantir que os professores têm tempo” para as correções, bem como o adiamento da 2ª fase dos exames para os dias 20 e 24 de julho, em vez de começar a 16 e terminar a 22. Sobre eventuais novas mudanças do calendário, admitiu que “existe sempre alguma incerteza”.
O atraso na afixação das notas nas pautas diminui a margem de tempo para um eventual pedido de reapreciação de provas e para se decidir avançar com a inscrição na 2ª fase de exames. Terminar a 22 pode estragar as férias de muito boa gente.
“Quem é pai sabe que, nesta fase, não sabendo os resultados, marcar férias para este período é imprudente”, disse, a esse propósito, Fernando Alexandre.
Mas uma mãe que esteja minimamente informada ouve isto e não enfia o barrete. Imprudência é avançar com algo que não foi devidamente testado – e ainda na segunda-feira, 6, a plataforma usada para a correção de exames esteve várias horas em manutenção.