Os grupos de vizinhos nas redes sociais possibilitam a alegre partilha de informação sobre o bairro, o que é por vezes útil. Infelizmente, também dão palco ao flagelo de uma sociedade onde a cultura cívica ainda é pouca: o queixume.
Quando mudei de bairro, juntei-me a vários grupos locais no Facebook com a ingénua expectativa de encontrar pequenas ágoras digitais: sugestões culturais, novidades do comércio, debates sobre espaços comuns, ações de cidadania ativa. Com o tempo, acabei sentado em lugar cativo nas Olimpíadas da Lamúria – uma arena onde quem nunca mexeu uma palha para melhorar o seu bairro se alonga diariamente sobre as suas frustrações.
Não falo de crítica, atenção, nem de ideias que podem gerar ação e mudança. Falo do mero queixume, vazio e inconsequente. Os temas variam pouco: estacionamento, estado do pavimento, erva nos passeios, cães sem trela e, mais recentemente, “perceções” e crime. Assuntos importantes na vida de bairro, que mereceriam atenção cidadã, ou não fosse Portugal um dos países da OCDE com menor taxa de participação. Por aqui, a cultura associativa é fraca, organizamo-nos pouco em ações coletivas e participamos pouco em reuniões ou fóruns de órgãos locais. Preferimos, cantava o grande José Mário Branco, “o faduncho choradinho de tabernas e salões”.
Ao princípio tem graça apreciar a arte do queixume. Ler os tratados acalentados sobre a carrinha do pão, que todos os dias estaciona ali com os quatro piscas, só que “a polícia fecha os olhos”. Constatar o rigor arqueológico com que a vizinha documenta cada pedra solta na calçada e a junta “não vê”, “está sujeito a uma pessoa torcer ali um pé” e “continuem a votar nos mesmos”. Vibrar com o “estado lamentável” da erva a crescer no passeio, como se caminhássemos pela cidade a abrir mato à catanada.
Porém, a cadência torna-se infernal. O bom espírito com que estes grupos se criam e muita gente se vai juntando, acredito, perde força no coro de frustraçõezinhas de uns poucos, elevadas à tragédia. E torna-se evidente o aproveitamento político, com a presença de bots e infiltrados do bota-abaixo sempre a gritar “VergÔNHa!!!”. Pouca gente terá paciência. É pena, mas não tinha de ser assim.
Precisamos de mais cidadania, de mais mobilização. Os órgãos do poder local devem trabalhar a proximidade, incitar mais à participação, e esse espírito deve estar plasmado nos programas educativos nas escolas – desde a pré-primária. Educar para participar. Precisamos de associações com mais força, de iniciativa privada e cidadã, respaldada por incentivos públicos. Precisamos de mais debate, debate a sério, sobre visões para o espaço público, vivido e participado pela vizinhança.
Enquanto não o tivermos, conservaremos estas montras de fazer chorar as pedras da calçada. As pedras que restarem na calçada, diria o vizinho de baixo. A junta ninguém a vê. E está para ali um matagal que quase não se pode andar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.