Setembro chega com cara de recomeço, mas o corpo não recomeça coisa nenhuma. Estamos a correr antes de aquecer. A agenda já está cheia, os pedidos acumulam-se, o cansaço também. Queremos fazer tudo. Estar em todo o lado. Voltar à rotina com energia, foco, produtividade. Mas, na verdade, só queremos… parar.
Não parar de vez. Só o suficiente para respirar com calma e voltar a sentir que estamos mesmo a viver e não apenas a cumprir.
Este é o mês dos recomeços escolares, familiares, profissionais. Mas é também o mês das cobranças silenciosas: o que ainda não fizemos este ano, o que ficou por cumprir, o que “deveríamos” estar a fazer.
Entre o planeamento dos lanches das crianças, os relatórios por fechar, as compras, as reuniões, os jantares e a tentativa (falhada) de responder a e-mails e mensagens, o dia acaba. E no fim … como é que podemos sentir que falhámos, quando não parámos um segundo?
Vivemos numa rotina onde estar ocupado é confundido com estar presente. O piloto automático pode até ajudar a sobreviver… mas impede-nos de viver!
Há sinais que o corpo e a mente vão deixando. A sensação constante de pressa, mesmo quando não há razão objetiva. Dificuldade em concentrar-se (começar uma tarefa e já estar a pensar noutra). Cansaço ao acordar. Frustração. Culpa. Dores de cabeça, irritabilidade, tensão muscular, esquecimento…
O cérebro não foi feito para a sobrecarga constante. Quando passamos os dias em alerta, a nossa amígdala (a região ligada à deteção de ameaças) fica hiperativa. Isso gera mais ansiedade, menor capacidade de foco e uma perceção distorcida do tempo: sentimos que o dia nunca chega para tudo, mesmo quando objetivamente fizemos imenso.
Além disso, a multitarefa fragmenta a atenção e impede o cérebro de entrar em modo restaurativo. A zona pré-frontal (que gere planeamento, tomada de decisão e organização) entra em fadiga. É aí que sentimos que “a cabeça já não dá para mais”.
A memória recente falha, as emoções ficam à flor da pele e o corpo reage. Não é fraqueza. É o cérebro a pedir ajuda.
Não somos máquinas. Mas às vezes exigimos de nós um desempenho ininterrupto, como se parar fosse preguiça, e não necessidade. Vivemos a tentar encaixar uma vida inteira em dias demasiado curtos. No fim, ficamos com a sensação de que não estamos em lado nenhum.
Não é preciso mudar tudo. Mas é urgente mudar alguma coisa.
– Comece por nomear o que pesa. Nem tudo o que está na agenda é essencial;
– Estabeleça limites realistas. Dizer “não” pode ser um ato de saúde mental;
– Defina o seu “mínimo viável” diário. Um dia bom não precisa de ser um dia perfeito;
– Agende pausa. Mesmo curtas. Sem culpa. Elas serão a sua base de funcionamento;
– Partilhe o que precisa. Organizar por fora ajuda a acalmar por dentro;
– Reveja o seu conceito de produtividade. Ser produtivo também é saber parar;
– E sobretudo: respire. Ninguém dá conta de tudo. E tudo bem com isso.
Setembro pode ser um recomeço. Mas que comece com menos peso e mais verdade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.