Não é só consigo. Pensar demais, sobretudo à noite, tornou-se quase o novo normal. E não é por falta de cansaço, mas sim por excesso de ruído.
Quando o cérebro não sabe desligar
Do ponto de vista neurológico, há uma explicação simples e poderosa: O nosso cérebro tem uma rede chamada Default Mode Network (DMN), que se ativa quando estamos em repouso físico, mas a mente continua a trabalhar – revendo o passado, antecipando o futuro, analisando tudo. À noite, quando o estímulo externo baixa, esta rede entra em força. Se houver ansiedade ou stress acumulado, ela transforma-se num loop difícil de travar.
Além disso, o cortisol – hormona do stress, pode manter-se elevado mesmo em momentos de descanso, sabotando a produção de melatonina, a hormona do sono.
Resultado? O corpo quer dormir, mas o cérebro insiste em falar.
O que podemos fazer com isto?
1. Criar um ritual de desaceleração
Antes de dormir, em vez de só “desligar luzes”, precisamos de desligar estímulos internos e fazer aquilo a que chamamos uma boa higiene do sono.
- Ouça sons repetitivos e suaves (como chuva ou batidas ritmadas).
- Evite ecrãs e luz forte pelo menos 30 minutos antes de deitar.
- Respire fundo e alongue para ajudar a sinalizar o corpo que é hora de parar.
2. Nomear o pensamento em vez de lutar com ele
Quando um pensamento intrusivo surgir, não tente bloqueá-lo. Dê-lhe um nome: “preocupação com o trabalho”, “medo do futuro”, “revisão do dia”. Só esta ação de nomear ativa o córtex pré-frontal e reduz a reatividade emocional.
3. Treinar o foco no corpo
Técnicas como o body scan (percorrer mentalmente o corpo dos pés à cabeça) ou a respiração diafragmática ajudam a ancorar a atenção no presente e a reduzir a ativação do sistema nervoso simpático (o da “luta ou fuga”).
4. Cuidar do ritmo do dia, não só da noite
Mentes que não param à noite são muitas vezes mentes que não têm pausas reais durante o dia. Parar 2 minutos entre tarefas, respirar fundo antes de entrar numa reunião, apanhar alguns minutos de sol sem telemóvel – tudo isto é treino.
No fundo, não é sobre dormir melhor. É sobre viver melhor.
E talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer antes de dormir:
Hoje, permiti-me descansar?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.