Cerca de 12,7 milhões de novos licenciados – mais do que toda a população de Portugal! – saem este ano das universidades chinesas, aumentando a pressão sobre o mercado de trabalho. A situação não é propriamente animadora: excluindo os estudantes, em maio, a taxa de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 15,6%, anunciou o Gabinete Nacional de Estatísticas da China. É uma descida de 0,7 pontos percentuais em relação ao mês anterior, mas continua a ser o triplo da média nacional (5,2%). Pior ainda, a melhoria não eliminará a disposição de muitos jovens para “ficarem deitados” (“tang ping”, em chinês), rejeitando a pressão social para se empenharem numa carreira profissional de sucesso.
Em vez de se dedicarem totalmente ao trabalho, o que em alguns casos significa sujeitarem-se ao regime “996” (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana), os que optam por “ficar deitados” defendem um estilo de vida com mais tempo livre e maior satisfação pessoal. “Não comprem casa, não comprem automóvel, não se casem, não tenham filhos, não consumam”, proclama uma das mensagens mais conhecidas do movimento.
Para as autoridades, trata-se de uma atitude que “interpreta de forma maliciosa os fenómenos sociais, exagera seletivamente os casos negativos e utiliza-os como uma oportunidade para promover visões do mundo niilistas ou negativas”. No outono passado, durante uma campanha para “limpar e retificar” a internet, a Administração Estatal do Ciberespaço bloqueou várias contas, algumas das quais com mais de dez milhões de seguidores, e apagou milhares de mensagens.
Lançada nas redes sociais em 2021, a ideia de “ficar deitado” ganhou nova atualidade há dois meses, quando o Ministério da Segurança do Estado alertou que “forças estrangeiras” estavam a “tentar ampliar a ansiedade social promovendo noções negativas acerca do trabalho”, com o objetivo de “minar o espírito de perseverança entre os jovens da China e até mesmo comprometer os valores fundamentais da nossa sociedade”.
“Os jovens de hoje são totalmente epicuristas, dando prioridade a benefícios tangíveis e ao valor emocional das suas escolhas”, diz o historiador liberal Xu Jilin. A maioria são filhos únicos, nascidos sob a drástica política de controlo da natalidade, que durante três décadas e meia proibiu os casais urbanos de ter mais do que um filho. Cresceram como “pequenos imperadores”, centro das atenções de dois pais e de quatro avós. No centro das atenções e das poupanças familiares, que na China são das mais elevadas do mundo. E agora que já podem ter até três filhos, muitos casais preferem não ter nenhum! A pressão sobre o emprego é “considerável” e a demografia “coloca novos desafios ao desenvolvimento económico e à governação social”, reconheceu o último plenário do comité central do Partido Comunista.
Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, a disposição de “ficar deitado” não se reduz aos jovens à procura do primeiro emprego: “isto aplica-se a um leque mais alargado da sociedade – desde profissionais de sucesso e empresários de meia-idade até funcionários avessos ao risco –, uma vez que evitam trabalho extra para sobreviver numa era de concorrência intensa com rendimentos decrescentes”. Um estudo feito por investigadores de Singapura sugere que “não se trata apenas de uma reação de curto prazo, mas de uma enraizada mudança geracional nas atitudes acerca do trabalho e do sucesso”.
Dias depois de a Segurança do Estado ter alertado para a “lavagem ao cérebro” promovida por “forças anti-China”, um veterano antropólogo de Cambridge, Alan Macfarlane, com 2,3 milhões de seguidores na rede social Xiaohongshu, elogiou a atitude de “ficar deitado”, associando-a ao bambu. “Quando surge uma forte rajada de vento… o bambu inclina-se, absorve o impacto, fica quase deitado no chão e, depois, quando a rajada passa, volta a endireitar-se.” A mensagem “recebeu mais de 100 000 likes e circulou largamente em múltiplas plataformas”, assinalou o South China Morning Post. “O Estado diz que fomos infiltrados por forças estrangeiras; o professor diz que somos bambu. Finalmente, alguém reconhece que neste momento o ‘vento’ é simplesmente demasiado forte”, comentou um internauta chinês. “Ficar deitado não significa render-se”, afirmou outro. “Estamos apenas momentaneamente abatidos – mais cedo ou mais tarde, vamos recuperar.”
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