Donald Trump terá sido maoista quando era jovem? Ou está apenas a iniciar-se na cultura popular chinesa, preparando a visita que deverá efetuar à China em maio? Há duas semanas, para qualificar a NATO, recorreu a uma metáfora popularizada nos anos 60 por Mao Tsé-Tung: a Aliança Atlântica é “um tigre de papel”. A expressão “tigre de papel” (zhi lao hu, em chinês) é retirada de uma máxima inscrita no Livro Vermelho das Citações de Mao. Diz assim: “Todos os reacionários são tigres de papel. Na aparência são assustadores, mas na realidade não são assim tão poderosos. Numa perspetiva de longo prazo, é o povo − e não os reacionários − que é poderoso.” Já não estamos nesse tempo.
Apesar de a China ser hoje muito mais próspera e mais forte, a sua liderança abandonou a retórica panfletária da década da “Grande Revolução Cultural Proletária” (1966-76). “Os EUA mantêm, de facto, uma força económica considerável e possuem um poder militar global sem paralelo”, disse o professor Zheng Yongnian a propósito da guerra contra o Irão. Segundo este conselheiro do governo chinês, o velho G-7 já foi suplantado por uma nova entidade: o G-2, constituído apenas pelos EUA e a China. “Embora os EUA estejam a avançar a sua própria visão da ordem mundial, o papel da China permanece crucial (…) A interação entre os dois é de vital importância.”
Outro influente académico, o professor Da Wei, da Universidade Tsinghua, sustenta que “a China não procura nem tenciona substituir os EUA, nem se deve esperar que desempenhe um papel idêntico”. Numa entrevista a um jornal de Xangai, Da Wei definiu a China como “uma das grandes nações do mundo”, defensora da “multipolaridade” e da resolução das questões internacionais “através da consulta e da participação de todos os países”. “Não é uma potência hegemónica e não aspira tornar-se uma superpotência no sentido tradicional”, acrescentou.
Para os chineses com mais de 40 anos, a NATO está associada à intervenção na antiga Jugoslávia. Em maio de 1999, um B-2 da Força Aérea dos EUA bombardeou a Embaixada da China em Belgrado, matando três pessoas e ferindo 20. Os EUA lamentaram o “trágico erro”, alegando que o alvo não era aquele, mas poucos chineses acreditaram que a tão “avançada” tecnologia americana se tenha enganado… Os jornais acusavam os EUA de quererem “dominar o mundo” – primeiro iriam “conter a Europa” e “neutralizar a Rússia” e, a seguir, “atacar a China e destruir o seu poder nuclear”.
Durante quatro dias consecutivos, milhares de pessoas apedrejaram a Embaixada dos EUA em Pequim, ao som de uma palavra de ordem repetida por todo o país: “Da Dao Mei Di! Da Dao Bei Yue!” (Abaixo o imperialismo americano! Abaixo a NATO!). Foram as maiores “manifestações anti-imperialistas” desde a Revolução Cultural. Em Chengdu, os manifestantes pegaram fogo à residência do cônsul americano, no primeiro incidente do género desde que os guardas vermelhos de Mao incendiaram a embaixada britânica, em 1969. Foi também a primeira vez que os estudantes se manifestaram nas ruas de Pequim depois do movimento pró-democracia na Praça Tiananmen, esmagado pelo Exército em junho de 1989. Mas desta vez alinhados com o governo e, em muitos casos, transportados por autocarros postos à sua disposição pelas respetivas escolas. “A NATO deu aos estudantes uma lição prática sobre a verdadeira natureza do imperialismo”, disse o presidente de uma universidade.
Além de ter desvalorizado a força da NATO, Trump admitiu retirar-se da organização. “A crise atual é a consequência de uma lenta erosão estrutural que está em andamento há décadas” e “deve-se também à incapacidade da NATO de acompanhar o mundo multipolar em rápido desenvolvimento”, comentou o Global Times, tabloide nacionalista do grupo Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês. Durante a Guerra Fria − refere o jornal −, a “União Soviética representava um perigo claro” e “a Europa Ocidental precisava de proteção americana”. A “ameaça soviética” desapareceu em 1991, mas em vez de se dissolver, como fez o Pacto de Varsóvia, a aliança militar dominada por Moscovo, a NATO “começou a expandir-se para leste e depois globalmente”.
Desde 2022, a NATO passou a apontar a China como “um desafio sistémico aos interesses, segurança e valores” dos países membros. Dois ricos vizinhos da China − Coreia do Sul e Japão – são agora denominados “parceiros da NATO na Ásia-Pacífico”. As dezenas de bases militares e as cerca de 80 000 tropas que os EUA mantêm naqueles países não são propriamente um “tigre de papel”. O secretário da Guerra de Trump, Peter Hegseth, que no início do ataque ao Irão prometeu “morte e destruição o dia inteiro”, também não.
O referido conselheiro do governo chinês, Zheng Yongnian, é considerado “um assertivo neonacionalista”. Assertivo e realista: “Apesar de numerosas questões existentes nas suas esferas políticas e sociais − disse o académico sobre os EUA −, não devemos de modo nenhum subestimar as capacidades da América.”