“Não deveria ser preciso dizer, mas deixem-me fazê-lo: os jornalistas são civis. Atacá-los deliberadamente é um crime de guerra. Corremos riscos para lançar luz sobre a injustiça e trazer à tona as histórias daqueles que não podem defender-se. Não estamos a dizer que devemos ser especiais, apenas tratados como os civis que somos, e devem deixar-nos fazer o nosso trabalho”, lembrou Christina Lamb, correspondente do The Sunday Times, em abril deste ano, na reunião anual da Rede para a Investigação e Acusação de Genocídio, Crimes Contra a Humanidade e Crimes de Guerra, em Haia, nos Países Baixos.
Não deveria ser preciso dizer que os jornalistas não são o inimigo, mas a repórter britânica sentiu essa necessidade porque, poucos dias antes, a libanesa Amal Khalil fora morta num ataque aéreo israelita, enquanto se abrigava de um ataque anterior. A palavra “Press” no colete à prova de bala que envergava não a protegeu.
Em Haia, Christina Lamb apelou à criação de uma task force internacional para investigar crimes contra jornalistas. Um mês antes, na conferência anual que homenageia o legado de James Cameron, um conhecido correspondente de guerra britânico, a diretora executiva do Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), Jodie Ginsberg, fizera o mesmo apelo.
“Matar jornalistas é a forma máxima de censura”, sublinhou, então, a antiga correspondente da Reuters. “E ignorar que assistimos atualmente ao maior ataque letal contra jornalistas desde a fundação do CPJ [em 1981].”
Só em 2025 foram mortos 129 jornalistas e profissionais dos média, sobretudo no âmbito de conflitos. Mas a violência contra o direito de informar é constante e não apenas nos ditos cenários de guerra.
Mesmo aqui ao lado, em Espanha, durante os protestos por causa da crise em Ceuta, equipas da RTVE e de outros órgãos de comunicação social foram atacadas em frente ao Congresso, alertou o infoLibre.
“Houve cuspidelas, intimidação e transmissões em direto foram interrompidas pela pressão da multidão, e o mesmo aconteceu em Ceuta, com os jornalistas a serem assediados nas ruas, na praia”, descreveu-se nesse jornal digital espanhol, lembrando: “Os jornalistas não são o inimigo; são civis exercendo um direito fundamental. Defendê-los não é um gesto partidário: é uma condição mínima para a continuidade da democracia.”
Vem isto a propósito da absolvição do empresário Yorgen Fenech, herdeiro de um dos maiores impérios de Malta, por muitos considerada chocante. Fenech estava acusado de conspiração no homicídio da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia, que se dedicava a desvendar casos de corrupção. A repórter foi morta por uma bomba colocada debaixo do banco do condutor do seu Peugeot 108, quando saía de casa a caminho do banco, a 16 de outubro de 2017.
Num comunicado divulgado após a sentença ser conhecida, a Fundação Daphne Caruana Galizia, que pertence à Rede Global de Jornalistas Investigativos (GIJN na sigla em inglês), sublinhou que “a justiça duradoura significa que nunca ninguém deveria voltar a enfrentar os mesmos riscos que Daphne”. Uma condenação neste julgamento teria sido um marco contra a impunidade pelos assassinatos de jornalistas em todo o mundo.