Margarida Davim
O trabalho está morto. Viva o trabalho! Crónica de Margarida Davim
Se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!
O 25 de Abril e o país do “cada um é para o que nasce”
Está na altura de sermos claros. O 25 de Abril não é consensual. As revoluções não são consensuais. Como poderiam sê-lo? Se uma ditadura garante que o poder se concentra na mão de muito poucos, como poderiam esses muito poucos ver de bom grado fugir-lhes o poder para a mão de tantos?
A revolução será analógica
Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra
Vamos matar os pobres?
Os mesmos que os mandam para a terra deles ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis
Estamos todos cansados e não é por acaso
O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados
Quem é o outro?
O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil
Jovens cheios de mofo
Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu?
Já não conseguimos ver este filme
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece
Não há cantiga de intervenção que embale a formiga no carreiro
O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado
É preciso força e fôlego para evitar este naufrágio
Foi só nesse momento que a reação deles me surpreendeu. A minha frase lançou um burburinho na sala. Um explicou em voz alta porquê: “O Homem não foi à Lua.” Perante o meu ar de espanto, ergueu-se um coro de rapazes (todos rapazes) que garantiam que nunca um ser humano pisou a face lunar
O País real, a bolha e o “vem aí o socialismo”
Quando o fogo arrasa as terras, quando a água inunda as casas, quando o vento leva tudo à frente, percebemos que o que nos faz renascer das cinzas, o que nos enxuga as inundações, o que nos prende ao chão e nos dá teto são as soluções coletivas que formos capazes de construir. Não é o cada um por si
Todos os que fingem não ver são culpados
O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda
Eu não sou vítima, mas já fui vítima
Aprendemos a não andar com determinadas roupas em determinados sítios. Aprendemos a usar as chaves nas mãos entre os dedos, quando andamos sozinhas à noite. Aprendemos a pedir a alguém que nos acompanhe quando o caminho é escuro. Aprendemos a baixar os olhos quando apanhamos um transporte de noite
A história do leão e da vaca
Sendo o mundo animal o reino da lei do mais forte, não deixa de haver algumas regras não escritas que todos cumprem: os que comem e os que são comidos
Abram os olhos. Vamos juntos
O jornalismo resgata-nos o olhar e as perguntas. Leva-nos a ver o outro. E, sobretudo ,a construir um pensamento partilhado. Precisamos desse chão para que o mundo não se parta em grupos irreconciliáveis
"A vida dos pobrezinhos é um mistério"
A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas não veio para ali. Ficou no hospital porque as assistentes sociais acharam que não havia estrutura familiar naquela casa para a receber. A mulher levou-me a um dos quartos e abriu as gavetas onde tinha dobradas as roupinhas que o filho nunca chegou a vestir
Uma ideia subversiva: o ar é de todos
Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?
Conservador trans: o pobre que se identifica como rico
Não sei como qualificar aquilo de que padece o Gonzalo neste seu problema identitário. O melhor será deixar Marx em paz que, por esta altura, o autor de O Capital já deve estar às voltas na campa com a ideia de que o jovem trabalhador de classe baixa acredita piamente que faz parte da aristocracia
"Ainda acreditas no Pai Natal?"
É capaz de ser por tudo isto que embirro tanto com quem atira, com altivez e desdém, um “ainda acreditas no Pai Natal?”, quando a intenção é esmagar a suposta inocência do interlocutor. O cinismo é uma coisa triste
A verdade não é minha
A empatia é o início da construçãode um dos mais importantes tijolos da civilização: a comunidade. Termos a disponibilidade de reconhecer o outro como igual é o ingrediente que faz de nós verdadeiramente humanos
O Estado a que chegámos
Estes dois bancários não são rentistas e será até excessivo chamar-lhes capitalistas. São só assalariados em negação. Estão endoutrinados na ideia de que devem pagar por tudo aquilo que já pagam nos impostos