Margarida Davim
O povo ainda cabe na Democracia? Crónica de Margarida Davim
Após 40 anos a sermos esmagados pela ideia da impossibilidade e da escassez, precisamos de voltar a acreditar que somos tão capazes de construir um país melhor como o foram os nossos pais e avós naqueles anos depois de Abril
A liberdade é não ter medo, ser precário é temer
Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o arda igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros
A imaginação é subversiva. Imaginem!
As políticas de flexibilização, desregulação dos mercados (amparados pela mão salvadora dos contribuintes) e concorrência perfeita (cada vez mais transformada em oligopólios) não resultam. Ou melhor, resultam para um pequeno punhado de pessoas e deixam todas as outras a viver cada vez pior
A estupidez artificial
Todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar
É preciso parar de rir e começar a falar a sério
É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis
Os ricos também choram
A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce
A vida é feita de opções, mas só para quem pode
Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás são os falhados que fizeram más opções na vida
O sistema que nos obriga a negligenciar os filhos
A desigualdade, que já é grande no acesso à alimentação saudável e a cuidados de saúde, vai cada vez mais revelar-se em termos cognitivos, à medida que vários indicadores mostram que crianças mais expostas a ecrãs têm menor capacidade de concentração
O trabalho está morto. Viva o trabalho! Crónica de Margarida Davim
Se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!
O 25 de Abril e o país do “cada um é para o que nasce”
Está na altura de sermos claros. O 25 de Abril não é consensual. As revoluções não são consensuais. Como poderiam sê-lo? Se uma ditadura garante que o poder se concentra na mão de muito poucos, como poderiam esses muito poucos ver de bom grado fugir-lhes o poder para a mão de tantos?
A revolução será analógica
Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra
Vamos matar os pobres?
Os mesmos que os mandam para a terra deles ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis
Estamos todos cansados e não é por acaso
O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados
Quem é o outro?
O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil
Jovens cheios de mofo
Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu?
Já não conseguimos ver este filme
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece
Não há cantiga de intervenção que embale a formiga no carreiro
O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado
É preciso força e fôlego para evitar este naufrágio
Foi só nesse momento que a reação deles me surpreendeu. A minha frase lançou um burburinho na sala. Um explicou em voz alta porquê: “O Homem não foi à Lua.” Perante o meu ar de espanto, ergueu-se um coro de rapazes (todos rapazes) que garantiam que nunca um ser humano pisou a face lunar
O País real, a bolha e o “vem aí o socialismo”
Quando o fogo arrasa as terras, quando a água inunda as casas, quando o vento leva tudo à frente, percebemos que o que nos faz renascer das cinzas, o que nos enxuga as inundações, o que nos prende ao chão e nos dá teto são as soluções coletivas que formos capazes de construir. Não é o cada um por si
Todos os que fingem não ver são culpados
O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda
Eu não sou vítima, mas já fui vítima
Aprendemos a não andar com determinadas roupas em determinados sítios. Aprendemos a usar as chaves nas mãos entre os dedos, quando andamos sozinhas à noite. Aprendemos a pedir a alguém que nos acompanhe quando o caminho é escuro. Aprendemos a baixar os olhos quando apanhamos um transporte de noite