Se o Governo fosse do PS e se estivesse a ser liderado por António Costa, a recente intervenção de Pedro Passos Coelho, no quadro do Congresso Internacional do Cooperativismo, em Lisboa, não teria sido mais dura. No final, declarou: “É uma crítica que aqui assumo.” Não podia ser mais claro.
O antigo líder do PSD e antigo primeiro-ministro, num longo discurso de 30 minutos, estabeleceu um programa de governo – do seu governo, se fosse ele que mandasse – que em (quase) tudo se demarca da filosofia seguida por Luís Montenegro. Mas mais do que uma linha de governo, Passos define uma matriz ideológica que está, expressa e explicitamente, nos antípodas da social-democracia. Foquemo-nos nesta frase: “Não devemos perder tempo com preocupações distributivas.” Não podia ser mais explícito na negação das ideias sociais-democratas que se destacam, precisamente, pelas “preocupações distributivas”. Preocupações sociais-democratas que começam no programa do seu próprio partido – mesmo que, volta e meia, não pratique muito.
Passos Coelho é um político direto, que diz ao que vem, sem dissimulações e sem enganar ninguém. Com candura, ou coragem inconsciente, volta a atingir, de forma agreste, um eleitorado que um partido grande precisa de acarinhar. Com efeito, noutro passo do seu discurso, critica o Governo, concretamente, pelo complemento extraordinário atribuído aos pensionistas: “Não chega distribuir um prémio aos reformados e fazer algumas habilidades orçamentais para salvar o ano”, diz o antigo primeiro-ministro. Uma afirmação que renega todas as preocupações de Montenegro acerca da “reconciliação” do PSD com os pensionistas, uma camada eleitoral que, em Portugal, país envelhecido, pode decidir eleições. Direto, como sempre, Passos Coelho põe aí o dedo na ferida: “Chegou o fim das margens de manobra para ir adiando decisões importantes” e são necessárias “mudanças sem ceder a cálculos eleitorais”. De facto, um dos problemas das nossas democracias modernas é o de que uma pequena clientela eleitoral de, suponhamos, 1,5 milhões de eleitores (em Portugal) pode determinar as escolhas e as políticas públicas que afetarão todos. Se os pensionistas são muitos e votam regularmente, os partidos tendem a falar para eles e a satisfazer as suas aspirações, canalizando para esse setor recursos financeiros que podiam ser empregues noutras opções, mais direcionadas para o bem comum. Com esta afirmação, Passos Coelho (que, pelos vistos, está longe de meter os papéis para a reforma…) é coerente na declaração de guerra ao que o passismo chegou a chamar “peste grisalha”, afastando uma massa de eleitorado que, perante este discurso, jamais voltará a dar-lhe o seu voto. Significa isso que uma candidatura presidencial, que necessita de 50% mais um, estaria sempre destinada ao fracasso – mas também significa que ficam diminuídas as hipóteses de sucesso, mesmo em legislativas, se Passos Coelho algum dia voltar à liderança do PSD.
Seja como for, as constantes intervenções de Passos, no espaço público, nas últimas semanas – e ele está a aceitar todos os convites para intervir –, depois de anos de silêncio, apenas interrompidos por aparições fugazes de toca-e-foge (como na campanha eleitoral de 2024, em que mais desajudou do que ajudou o PSD), significam que o antigo primeiro-ministro está a preparar o seu regresso à política ativa. Isso já é claríssimo. Não se vislumbrando, porém, por ser demasiado tarde, uma candidatura presidencial; e estando Luís Montenegro bem estribado na sua maioria clara. Assim, o timing do regresso é um mistério. Mas Passos, ainda assim, gere as suas intervenções à moda de Cavaco Silva: quando fala, o “comentariado” discute-o. Quando intervém, a agenda política estremece. Quando aparece, o País vira o pescoço na sua direção. Esse estatuto senatorial faz de Passos Coelho, tenha ele mais ou tenha ele menos hipóteses eleitorais, um potentado formidável, no panorama político português. Cavaco pode falar, mas já não regressa. Mas Passos permanece como “a reserva moral” da direita. A única reserva moral verdadeiramente ativa. E está a alimentar isso todos os dias, quer pelo silêncio, quer pela intervenção. De uma certa forma perversa, com este discurso, Pedro Passos Coelho tornou-se a principal figura da oposição, nem que fosse por breves momentos. Outra das suas vantagens é a de não ser, como dizem os brasileiros, “um político chuchu”, isto é, uma personalidade sem “sabor”. Tal como outros vultos antes dele – Mário Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva –, ou se ama ou se odeia.
Pelo caminho, Passos Coelho vai dizendo umas verdades de La Palisse: “Quando se evita tomar decisões tão importantes no tempo certo, está-se condenado a tomá-las fora de tempo”, sempre com “um resultado pior”. O problema, em Passos Coelho, é a natureza das “decisões” que devem ser tomadas no “tempo certo”. Já vimos que são decisões que não respeitam o ideário oficial do seu partido. Isso não tem nada de mal, mas o que “é importante decidir”, para Passos Coelho, pode ser uma decisão desastrosa, na perspetiva de quadrantes políticos diferentes do seu. É por isso que os conselhos do antigo primeiro-ministro, embora legítimos, precisariam de ser sufragados eleitoralmente, antes de serem aplicados pelo atual primeiro-ministro. A principal suspeita que podemos ter é a de que o seu ideário não foi sufragado nas últimas eleições. Se considerarmos apenas aquilo que, em 30 minutos, Passos Coelho deixa antever, do seu pensamento, verificamos que nada daquilo consta do programa eleitoral do PSD. Vamos supor que possa haver uma crise política inesperada. Com um Orçamento “dessalinizado” e praticamente aprovado, a única crise que poderia antever-se, a curto ou médio prazo (tendo em conta a legislatura de quatro anos) seria um desenvolvimento judicial, no caso Spinumviva, que deixasse a situação do primeiro-ministro insustentável. Ignoramos se Passos está a apostar nisso, mas um novo PSD liderado, de novo, por ele teria de se submeter a eleições, com um novo programa, suspeita-se, radicalmente diferente.
Passos alerta para o facto de “os governos, em Portugal e na Europa”, atribuírem uma urgência “ao curto prazo e uma importância demasiado relativa ao médio e ao longo prazo, por medo da reação das pessoas”. Bem-vindo à democracia: estamos a falar de ciclos eleitorais de quatro anos e estamos a falar de pessoas (cidadãos e eleitores) que, sim, reagem. “A política, ao contrário do que muitos pensarão, não acaba a cada eleição”, insiste o antigo chefe do governo. Mas sem eleições não há política. E não parece que Passos tenha uma fórmula para evitar que a “democracia seja o pior de todos os sistemas” (à exceção de todos os outros).