Não sabemos de que manhãs de gelo ou de sol se lembraram. As últimas palavras dos quatro enforcados foram caladas a meio. E conta-se que – mesmo antes do fim – os quatro cantaram A Marselhesa, o hino do
movimento revolucionário. Poderia ser uma boa cena de filme – mas terá acontecido assim, com mais ou menos pinceladas expectáveis em qualquer cena mítica.
Quatro dos chamados “mártires de Chicago” foram executados por enforcamento, um ano depois do atentado na Praça Haymarket, na metrópole do Midewest. Um dos condenados só não foi levado à forca porque já se tinha suicidado na véspera, dentro da cela, com uma bomba disfarçada de cachimbo.
Tudo começara com outra bomba. Aliás, tudo mudara com a bomba arremessada contra a polícia na Praça Haymarket, em Chicago, na noite de 4 de maio de 1886. Interrompendo o último discurso, a força policial tentou dispersar a multidão no final de uma manifestação de protesto contra a violência policial do dia anterior. E a resposta foi uma bomba artesanal atirada por alguém contra a polícia, matando logo ali um dos agentes. No tiroteio que se seguiu, terão morrido pelo menos mais sete polícias – possivelmente alvejados por outros polícias, no meio da confusão. Entre os manifestantes, os mortos terão sido quatro. Os feridos
contaram-se por dezenas.

Nos dias a seguir houve centenas de detenções – incluindo de oito militantes anarquistas que viriam a ser condenados à morte, num processo muito mediático e que terá sido mais baseado em política do que em provas apresentadas em tribunal. Entre eles estavam Albert Parsons, August Spies e Samuel Fielden, figuras do movimento. Quatro dos condenados acabaram mesmo por ser enforcados.
As oito horas
Mas vamos ao contexto. Acabada a Guerra Civil americana, vivia-se um crescimento rápido em Chicago – um centro industrial importante, com muitos operários não qualificados e muita imigração. Com a mão-de-obra importada chegaram ideais políticos, sobretudo da Alemanha.
O dia de trabalho de oito horas era a grande reivindicação laboral já desde 1840. E muitos anos antes de a revolução bolchevique de 1917 ter virado as atenções para a Rússia, os EUA eram um dos centros mundiais das lutas laborais.
Em 1869 foi fundado o sindicato Knights of Labour, que começou por ser uma organização secreta, ligada a rituais maçónicos. Sendo operários qualificados, os Knights of Labour eram hostis aos operários não qualificados – muitos deles imigrantes – que aceitavam salários mais baixos. Mas em junho de 1877 houve uma greve de ferroviários que terminou com a morte de dezenas de trabalhadores, às mãos da polícia. A violência sofrida acabou por ajudar à união de trabalhadores qualificados com trabalhadores não qualificados, nascendo em 1881 a Federation of Organised Trades and Labour Unions. O objetivo comum imediato era o dia de trabalho de oito horas. E por todo o país foram nascendo as chamadas “ligas das oito horas”, que reuniam os trabalhadores à volta dessa reivindicação.
Em Chicago, a liga das oito horas era presidida por Albert Parsons, militante político e sindical, responsável local de organizações socialistas e dos Knights of Labor – conta o professor de Ciência Política Pap Ndiaye, na revista L’Histoire nº 404, de outubro de 2014. “Essa reivindicação [pelas oito horas de trabalho] satisfazia todos os operários, qualificados e não qualificados: os mais moderados achavam que um tempo de descanso
mais longo poderia apaziguar a raiva e a frustração dos trabalhadores, permitindo-lhes americanizarem-se graças a uma vida familiar mais satisfatória; os radicais viam nas oito horas uma forma de haver mais tempo disponível para a educação das massas e para as reuniões políticas.” A mobilização era grande. Só os Knights of Labor teriam já mais de 700 mil membros em 1886. É fácil perceber a força destes trabalhadores
organizados, nesses dias de 1886. E as reivindicações dos operários estavam já a dar lugar a algumas tedências, sobretudo graças ao poder argumentativo da greve.
Ficou marcado um grande dia de mobilização – o dia combinado era 1 de maio e nesse sábado houve manifestações mais pequenas em Nova Iorque e Detroit e uma grande manifestação em Chicago, encabeçada por Albert Parsons e pela mulher, a ativista afro-americana Lucy Parsons.
A ideia era então mobilizar os trabalhadores do país para a luta pelas oito horas de trabalho, nesse dia e nos dias seguintes. Mas além de fazerem greve e de se manifestarem, os grevistas andavam de fábrica em fábrica a incitar os trabalhadores a aderirem à greve. E a 3 de maio – em frente à fábrica de máquinas agrícolas McCormick, em Chicago – a polícia disparou sobre os manifestantes, matando dois operários.
Datas importantes
1840 Começa a luta pelas oito horas de trabalho diário
1869 É fundado, nos EUA, o sindicato Knights of Labour
1870 Uma greve de ferroviários nos EUA leva à morte de dezenas de trabalhadores pela polícia
1886 O massacre de Chicago origina a comemoração da data do 1.º de Maio pelos trabalhadores
1890 O 1.º de Maio é assinalado pela primeira vez em Portugal, por meio de comícios realizados em
Lisboa e no Porto
1974 O 1.º de Maio é comemorado em Portugal pela primeira vez em liberdade ao fim de 48 anos
No dia seguinte, 4 de maio, houve uma manifestação contra a violência policial que só terminou à noite em Haymarket, com a bomba atirada sobre a polícia – a tal bomba que veio mudar tudo. Seguiu-se mais violência policial, as prisões, o julgamento, as execuções.
Nada seria igual, a partir daí. “Nos Estados Unidos da América, os anarquistas conseguiram estabelecer uma base importante entre os imigrantes em Chicago, no final do século XIX”, escreve o especialista em História do Trabalho Ralph Darlington no livro Syndicalism and the Transition to Communism: An International Comparative Analysis, de 2008. Mas a bomba lançada em Haymarket e a repressão que se seguiu reduziu muito a influência anarquista, segundo Darlington.
A própria repressão – e em particular a morte dos “mártires de Chicago”, como passaram a ser conhecidos – foi matéria para muita propaganda política. Acabou por oferecer à luta dos trabalhadores em geral (e não apenas ao anarquismo em particular) símbolos poderosos de coragem e de injustiça, justificando a revolta e reforçando a importância da reivindicação pelas oito horas de trabalho.
Logo em 1889, no Congresso da II Internacional, em Paris, o 1º de Maio foi declarado um dia de manifestação internacional pelas oito horas diárias de trabalho. “A partir de 1890, a manifestação do 1º de Maio tornou-se um acontecimento anual, associado às reivindicações do mundo do trabalho e em homenagem aos que tinham morrido por elas”. Já o anarcossindicalismo alemão de Chicago, tão vivo até aí, tinha sido destruído, escreve Pap Ndiaye na revista L’Histoire. Mas a força dos trabalhadores organizados não desapareceu com aquela noite de sangue em Haymarket, nem com a repressão que se seguiu. Até à revolução bolchevique de
1917, os EUA continuaram a ser “uma das chamas acesas do anarquismo socialista e da contestação ao capitalismo”.
A partir de 1890, a data foi adotada como dia de luta internacional, também em Portugal. O País conta-se entre os que celebram o 1º de Maio desde 1890, “não obstante o clima adverso criado pela crise político-financeira já patente no princípio do ano”, escreve Carlos da Fonseca em O 1º de Maio em Portugal – 1890-1990 – Crónica de um Século, Antígona, 1990. “Desta vez, a classe operária portuguesa entrava sem atraso num movimento de caráter internacionalista.”
A História das palavras
Patrão
A palavra “patrão”, que no campo semântico do mundo laboral significa “empregador”, deriva do latim pater (pai). A forma mais erudita, “patrono”», usada no âmbito religioso, designa um santo intercessor (o patrono de uma profissão, por exemplo). No mundo laico, pode utilizar-se para nomear um mecenas ou o autor de determinada iniciativa. Sem dúvida, transmite sempre uma ideia de poder.
Apesar de ter começado sem atrasos em relação a outros países, desde o início houve disputas em Lisboa sobre quem organizaria o 1º de Maio, sobre quem discursaria, sobre onde seriam os comícios ou as manifestações.
Em Lisboa, o comício deste 1º de Maio inaugural estava previsto para o Príncipe Real. Mas “seria sorrateiramente transferido para a Rua Nova da Piedade, na intenção de afastar a presença de elementos menos dóceis”, escreve Carlos da Fonseca. A Rua Nova da Piedade é estreita, fazendo sentido apenas para um comício com pouca afluência.
Ao contrário do fiasco lisboeta, no Porto o 1º de Maio de 1890 foi um dia importante da vida da cidade e da indústria. Terão participado entre 20 e 30 mil pessoas no comício do Monte Aventino. “Grande número de fábricas e oficinas fecharam as suas portas por falta de operários. A Companhia Aurifícia, a Real e Imperial Chapelaria a vapor e outros estabelecimentos importantes, concederam voluntariamente a folga aos seus trabalhadores”, escreve Carlos da Fonseca.

Mas não seria a primeira nem a última greve em Portugal. Por exemplo em 1849, a greve dos serralheiros em Lisboa teve uma participação assinalável. “No dia 10 a questão das horas de trabalho declarou-se nas fábricas da Boa Vista. Começou pelos ferreiros, aos quais se ligaram os serralheiros e torneiros. (…) No dia 10, ao cerrar da noite, uns 30 homens, saídos da fábrica Vulcano, se dirigiram para a fábrica Phenix, da qual os operários estavam saindo (…) Depois o grupo, aumentado, caminhou para a fábrica do Sr. Collares, e daí saíram também os operários”, relata a Revista Universal Lisbonense em artigo de 20 de setembro de 1849, citada por Fernando António Almeida no livro Operários de Lisboa – na Vida e no Teatro (1845-1870). Nesse artigo da revista é defendido que será pior – tanto para os operários como para os proprietários das fábricas – se não chegarem a acordo em relação às horas de trabalho. Porque no fim de contas todos sairão rejudicados, incluindo a economia do País. Mas apesar de o artigo ser assumidamente contra a greve, é fácil identificar algum fascínio pela forma como foi organizada. “No dia 11 compareceram em algumas oficinas, mas na fábrica Phenix, ao acender as luzes para o serão, todos saíram sem proferir palavra, e como se fossem um só homem. Em todos esses factos é para admirar não só o segredo que anteriormente houve a
seu respeito, mas também a união com que se efetuaram. Em quase todas as serralharias de Lisboa se praticou o mesmo.”
Chegado o 1º de Maio inaugural de 1890 em Lisboa e no Porto, as reivindicações operárias faziam então já parte da vida política portuguesa. E continuariam a gerar reações, quer fossem de apoio ou de crítica. Mas não indiferença. Os chamados “mártires de Chicago” foram ficando cada vez mais para trás na História – sem que ficassem esquecidos – passando a data a ser conhecida como o Dia Internacional do Trabalhador. As últimas palavras dos enforcados foram caladas a meio, o eco continuou.
Artigo publicado originalmente na VISÃO História n° 34