Imunidade: Como armar o nosso exército

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Imunidade: Como armar o nosso exército

Só nos lembramos dele quando o corpo se queixa, se sente fraco. Pouca atenção se dá ao sistema imunitário, até por não ser um órgão palpável, vital como o coração, ou um membro sempre visível, funcional como um braço.

Apesar de o sistema de defesa contra os agentes patogénicos, como as bactérias e os vírus, os parasitas e os fungos e outras substâncias perigosas, ser composto por células, tecidos e moléculas, bem como por alguns órgãos (medula óssea, timo, baço, gânglios linfáticos, amígdalas), não recebe o cuidado necessário. E não faz mal, está tudo certo assim. Até certo ponto.

“O organismo foi moldado pela evolução e por aquilo que tem um impacto negativo na nossa sobrevivência, na nossa capacidade de transmitir genes. Houve uma grande pressão evolutiva para que esses problemas fossem solucionados. Isto para dizer que o sistema imunitário é absolutamente robusto. Se não fosse, iríamos sucumbir a infeções sem conseguir passar os genes para a descendência”, garante Luís Graça, investigador do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

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Valerá então a pena adultos saudáveis, que se alimentam bem e dormem melhor, pensarem em reforçar as suas defesas naturais? “As diferenças individuais entre pessoas não têm muito significado na proteção contra infeções. O estilo de vida, de exposição a agentes infeciosos, é que tem muito mais impacto”, acrescenta o investigador e docente.

Esta barreira defensiva, invisível a olho nu, constrói-se desde a nascença, atingindo a sua máxima eficácia por volta dos 30 a 35 anos, quando começa a perder força. O timo funciona em pleno até à puberdade. Com o declínio da produção da hormona do crescimento, a composição do timo muda e o amadurecimento de linfócitos T, glóbulos brancos responsáveis por identificar e destruir células infetadas no corpo, também se reduz.

Embora os linfócitos T e B (anticorpos produzidos na medula óssea) sejam produzidos durante a gestação, só amadurecem completamente após o nascimento, quando expostos a antigénios estranhos. São precisos cerca de seis meses para que o corpo do recém-nascido assuma o controlo e volte a ser capaz de produzir de forma autónoma imunoglobulina G (IgG), o anticorpo mais prevalente no sangue, e dois anos para repor a normalidade.

“À nascença, o sistema imunitário é imaturo. Não é competente ainda o suficiente para lidar de forma capaz com alguns tipos de infeções. Só se desenvolve em contacto com micro-organismos e partículas estranhas, apesar de a mãe durante a gravidez passar anticorpos ao filho, que duram mais ou menos seis meses”, explica Hugo Rodrigues, pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo, e docente na Escola de Medicina da Universidade do Minho e na Escola Superior de Saúde de Viana do Castelo.

Nos bebés amamentados, o leite materno, desde o colostro, também tem anticorpos e outros fatores de proteção, um tipo de imunidade passiva, o que serve para ganhar tempo. Mas quem não for amamentado virá a ser um adulto com o sistema imunitário fraco? Não é exatamente na idade adulta que se vai notar a maior diferença, esclarece Hugo Rodrigues. “O leite materno não é só um alimento, é também um regulador de algumas funções, nomeadamente do sistema imunitário, que tem a dupla função de reconhecer o que é potencialmente nocivo e tentar eliminar; e reconhecer o que é estranho, mas não é nocivo, e aprende a tolerar. O leite materno fornece anticorpos ao bebé para este ser mais competente a gerir as adversidades que possam surgir.”

Higiene, mas menos

É também desde os primeiros anos de vida que a microbiota intestinal (revestimento interno onde vivem milhares de milhões de “boas bactérias”) ganha um papel crucial no desenvolvimento da imunidade.

A microbiota intestinal é inicialmente moldada pelos componentes do leite, materno ou não, mas também quando a criança inicia o seu próprio contacto com o exterior. “Numa primeira fase, o bebé explora tudo com a boca e com a pele, os dois grandes órgãos imunitários e, por isso, quanto mais equilibrados forem os estímulos a nível do intestino, mais adequada será também a resposta do sistema imunitário”, clarifica o pediatra.

Aproximadamente 80% das células imunológicas do corpo encontram-se no sistema gastrointestinal. O microbioma, conjunto de triliões de microrganismos (bactérias, fungos e vírus) que convive naturalmente no organismo, tornou-se um verdadeiro barómetro da saúde, capaz de decompor os alimentos para que consigamos extrair os seus nutrientes, de fabricar vitaminas necessárias ao corpo humano, de ensinar o sistema imunitário a reconhecer agentes invasores e de produzir substâncias anti-inflamatórias que ajudam a manter-nos saudáveis.

De acordo com a Hipótese da Higiene, definição criada pelo epidemiologista David Strachan, em 1989, um estilo de vida excessivamente higienizado durante a primeira infância impede o desenvolvimento adequado do sistema imunológico e aumenta o risco de alergias. Depois de analisar mais de 17 mil crianças, David Strachan concluiu que a maior proteção das crianças contra a rinite alérgica era simplesmente ter irmãos mais velhos. “Ao longo do século XX, a redução do tamanho das famílias, o aumento das comodidades no lar e a elevação dos padrões de higiene pessoal reduziram as possibilidades de as infeções serem transmitidas na família. Isso pode ter propiciado o aumento das manifestações clínicas das alergias”, escreveu, na altura, David Strachan. “Diversificar estímulos pode ser a melhor forma de estimular o sistema imunitário”, corrobora, hoje, o pediatra Hugo Rodrigues.

O leite materno não é só um alimento, é também um regulador de algumas funções, nomeadamente do sistema imunitário

Hugo Rodrigues, Pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho

Mais do que abordar se existe uma fórmula certa ou uma época ideal para reforçar o sistema imunitário, Hugo Rodrigues prefere falar de como o estimular. “Naturalmente, na maior parte das pessoas está bem, está forte. As vacinas acabam por ser uma espécie de reforço do sistema imunitário, porque vão dar-lhe uma competência que não tinha”, sublinha.

“Da mesma maneira que não se recomenda a vacinação da gripe para uma pessoa de 30 anos saudável, mas é a única forma eficaz, demonstrada, robusta, de fazer com que uma pessoa com 80 anos tenha menor risco de internamento e outras consequências graves da infeção”, defende Luís Graça, que também coordena a Comissão Técnica de Vacinação da Direção-Geral da Saúde.

“Muitas vezes contactamos com agentes infeciosos sem saber, resultando em doenças assintomáticas. É importante as pessoas saudáveis terem uma preocupação especial contra a disseminação da infeção, evitando transmiti-la aos mais vulneráveis.”

Com o passar das décadas, a medula óssea, responsável pela formação do sangue, torna-se mais gordurosa e menos eficiente, resultando na diminuição da capacidade hematopoética (formação de sangue). As células envelhecidas funcionam pior e, em certos órgãos, como o fígado e os rins, morrem sem serem repostas. Por isso, nas pessoas mais velhas, as infeções podem ser mais graves e requerer mais cuidado.

Se, ao envelhecimento da medula óssea, se juntar a sarcopenia – a partir dos 50 anos, perde-se 1% a 2% de massa muscular, daí para a frente 1,5% por ano e 3% dos 60 em diante –, o aparecimento de osteoporose, doenças crónicas, às vezes acompanhadas por ganho excessivo de peso, é o panorama perfeito para se instalar uma inflamação crónica de baixo nível em todo o corpo. Eis o inflamm’aging, termo cunhado em 2000 por Claudio Franceschi, professor de Imunologia da Universidade de Bolonha, em Itália, fenómeno que a revista Time, em 2004, apelidou de “O assassino secreto”.

Vacinar sem resistência

Na infância, com o sistema imunitário ainda em desenvolvimento, e na terceira e na quarta idades, com o aumento das células senescentes (envelhecidas, em estado pró-inflamatório), as vacinas são o melhor escudo. “Muitas das doenças contra as quais que as vacinas protegem têm um potencial de gravidade muito elevado. A ideia é criar defesas sem ter de correr o risco de contactar com os micro-organismos, porque se se contactar, há doenças em que a probabilidade de ter um mau desfecho é muito elevada”, lembra o pediatra.

A difteria e o tétano são doenças que, neste momento, praticamente não existem em Portugal. As meningites bacterianas, mantendo um bom esquema vacinal, são muito pouco frequentes. Esta inflamação grave das meninges, membranas protetoras do cérebro e da medula espinhal, têm taxas de mortalidade na ordem dos 30% e sequelas em 20%: um em cada três doentes morre, um em cada cinco sobreviventes fica com sequelas que podem ser défices cognitivos, epilepsia, amputações, surdez, cegueira. “As meningites que vão surgindo, na sua maior parte, são víricas, com um risco de complicações baixíssimo, comparado com as bacterianas”, assegura o médico.

Apesar de, em 2015, a Organização Mundial da Saúde ter declarado o sarampo erradicado em Portugal, o regresso da doença com a circulação do vírus pela Europa e pelo continente americano acontece sobretudo devido à quebra do esquema vacinal. “O sarampo é uma doença ligeira, na maior parte das vezes, mesmo não se sendo vacinado. Mas pode ter complicações a curto prazo, respiratórias e, as mais temidas, cerebrais, que podem surgir uns anos depois, sendo fatal em quase 100% dos casos”, faz notar o pediatra.

“Os factos são absolutamente unânimes em relação à segurança, à eficácia e ao benefício das vacinas. O Programa Nacional de Vacinação tem sido muito judicioso na utilização de vacinas. Todos os anos, sobram vacinas e não são recomendadas mais faixas etárias para vacinação”, Luís Graça.

Para o investigador, com formação em Medicina, existem duas áreas muito importantes a desenvolver na imunização: criar vacinas mais eficazes contra infeções que têm resistido, como a malária ou a dengue, e vacinas específicas para quem tem uma diminuição da resposta imunitária, nomeadamente, as pessoas mais velhas e/ou as portadoras de doenças que têm impacto direto no sistema imunitário.

Hugo Rodrigues não tem dúvidas: “As vacinas, a melhoria das condições de higiene sanitárias e o desenvolvimento de técnicas neonatais mudaram radicalmente o panorama da mortalidade infantil e da saúde infantil como um todo.” 

O fiel da balança

Sendo a imunologia a ciência que estuda a função do sistema imunitário, esmiuçá-lo permitiu descobrir um novo capítulo, possibilitando o desenvolvimento de mecanismos terapêuticos cada vez mais eficazes no combate ao cancro.

A imunoterapia surgiu quase de uma curiosidade: por que razão ou de que forma o sistema imunitário evita que as células saudáveis sejam atacadas pelas próprias células do sistema imunitário (o que acontece nas doenças autoimunes)?

Mais do que a imunoterapia ser o avanço mais inovador para tratar o cancro, Luís Graça prefere destacar o avanço mais significativo na prevenção de alguns tipos de tumores através da vacinação. Dois exemplos: a vacina contra o vírus do papiloma humano, o agente que causa o cancro do colo do útero, um tipo de tumor muito frequente em mulheres jovens; e as vacinas contra o vírus da hepatite B também evitam um dos agentes mais frequentes do cancro do fígado.

Ao nível da investigação científica, o sistema imunitário sempre despertou a curiosidade, estando atualmente em mudança o paradigma de que é apenas um exército cuja função é defender-nos quanto àquilo que é estranho ao organismo, como explica Luís Graça. “Começamos a ver o sistema imunitário como um sistema que mantém a homeostasia do organismo, o equilíbrio, e pode influenciar muitos sistemas, além do seu papel importante na defesa contra agentes infeciosos.”

Além do cancro, de alergias, da diabetes, a microbiota está intimamente ligada ao cérebro, podendo ter influência em doenças psiquiátricas e distúrbios neurológicos

O sistema imunitário tem de ativamente preservar as células da própria ação do sistema imunitário, evitando a autoimunidade. Um avanço muito importante que permitiu desenvolver tratamentos melhores para doenças autoimunes, atuando em mecanismos que causam inflamação, não nas drogas anti-inflamatórias, mas em medicamentos que surgiram já neste século, há cerca de 25 anos, que utilizam anticorpos para bloquear moléculas que são agentes da inflamação. “Doentes com artrite reumatoide que não conseguiam andar passaram a andar, parecia quase um milagre”, exemplifica o investigador.

Em 2018, o Prémio Nobel da Medicina foi atribuído a James P. Allison e Tasuku Honjo por abrirem mais a porta da imunoterapia do cancro. O norte-americano James P. Allison, do Centro para o Cancro MD Anderson da Universidade do Texas, em Houston, estudou uma proteína, a CTLA-4, um travão no sistema imunitário, cuja função principal é evitar que surja a autoimunidade, que as células do sistema imunitário causem lesões no próprio organismo. Conseguindo desligar este mecanismo, matam-se essas células tumorais. O japonês Tasuku Honjo descobriu outra proteína, a PD-1, que também funciona como um travão nos linfócitos T (imunidade celular).

Dormir como Morfeu

Quantas vezes nos sentimos adoentados, sem energia, como se o próprio corpo pedisse para irmos dormir, descansar, no fundo, repor os níveis das defesas naturais? Muitas e em todas as fases da vida.

Já passou uma década desde a publicação na revista Sleep do estudo que revelou que quem dorme menos de seis horas por noite tem 4,2 vezes mais risco de ter uma constipação do que quem dorme mais de sete horas. Em 2023, na publicação eBioMedicine, da The Lancet, saiu um ensaio feito com 600 mil pessoas que sofriam de insónia e a conclusão dá que pensar: o risco de desenvolver uma infeção respiratória multiplica-se por seis em quem não dorme profundamente.

Uma publicação na revista Sleep revelou que quem dorme menos de seis horas por noite tem 4,2 vezes mais risco de ter uma constipação do que quem dorme mais de sete horas

Uma meta-análise também de 2023 confirmou que as pessoas com menos de seis horas de sono por noite desenvolvem menos anticorpos seguindo a vacinação antigripal. Uma equipa liderada por Luciana Besedovsky, professora do Instituto de Psicologia Médica, em Munique, na Alemanha, divulgado na revista Nature, em novembro de 2024, estudou a concentração no sangue de diferentes subpopulações de células imunitárias em voluntários sãos, após duas sessões. Na primeira noite, os participantes dormiram durante oito horas; na segunda, só descansaram deitados na cama, sem chegar a adormecer. Um cateter colocado no antebraço permitiu retirar as amostras de sangue.

As análises demonstraram que o sono melhorou o potencial migratório das células T, onde reencontram os antigénios e aprendem a reconhecer os agentes patogénicos, bem como a capacidade das células T para se ligarem aos seus alvos, como células infetadas por um vírus, graças a uma proteína, a integrina, ativada durante o sono. Ao invés, em quem teve um sono perturbado ou insuficiente, o sistema imunitário trava porque a secreção de noradrenalina e adrenalina impede que as células T ativem a integrina.

O sono de má qualidade crónico é um fator de risco causal para contrair infeções respiratórias e contribui igualmente para a gravidade dessas infeções. Cuidemos então do sistema imunitário, para que ele cuide bem da nossa saúde.

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