John Irvin morreu a 11 de agosto, em casa, rodeado pela família. A confirmação pública veio apenas agora através da sua produtora, Claire Evans, e até nisso parece haver um último toque de coerência britânica: nada de fanfarra, apenas uma saída pela porta lateral. Durante anos correu o rumor de que pertencera ao MI5. Ele negava. Admitia, isso sim, ter sido interrogado pelo MI6 depois de regressar de uma reportagem sobre a guerra no Iémen. Dizia que era demasiado de esquerda, anti-apartheid, anti-guerra e anti-nuclear para ser agente secreto. Convenhamos: é exatamente o tipo de resposta que um bom agente secreto daria.
Antes de Hollywood, houve os documentários, a London Film School, o jornalismo filmado e a televisão britânica. Depois veio, em 1979, A Toupeira, sete episódios de John le Carré que continuam a ensinar muita coisa às séries modernas: o suspense não precisa de grande alarde. Alec Guinness quase não mexia uma sobrancelha e, mesmo assim, parecia saber onde estavam enterrados todos os cadáveres do Império. Parte da série foi rodada em Lisboa e na Arrábida, com uma cidade ainda marcada pelos sinais recentes de Abril ou seja um pedaço de Portugal transformado em território moral da Guerra Fria.
O sucesso abriu-lhe as portas da América. Vieram Cães de Guerra, com Christopher Walken, Fantasma do Passado, com Fred Astaire, Os Campeões, com John Hurt, Ele, Ela e a Tartaruga, escrito por Harold Pinter, e depois a musculatura industrial de O Massacre, com Schwarzenegger. Em 1987 fez A Colina dos Heróis, talvez o seu filme mais duro: Vietname sem perfume de heroísmo, homens transformados em carne por uma colina que ninguém saberia explicar porque tinha de ser conquistada. Seguiram-se A Vingança do Clã, Robin dos Bosques, com Patrick Bergin e uma muito jovem Uma Thurman, A Colina das Viúvas, Amor à Beira do Lago e O Quarto Anjo.
Nunca teve uma assinatura berrante, e talvez por isso tenha sido subestimado. Irvin pertencia a uma espécie hoje quase extinta: o realizador que sabia fazer um filme, fosse qual fosse o filme. Podia atravessar a BBC, Frederick Forsyth, Peter Straub, Pinter, Vietname, Schwarzenegger, le Carré ou Hemingway sem transformar tudo numa demonstração narcísica de autor. A sua autoria estava precisamente aí: na inteligência de não se pôr sempre à frente da história.
Fez mais de trinta filmes e séries em cinco décadas e terminou com Mandela’s Gun, em 2016. Morreu discretamente, como viveu profissionalmente: à margem do ruído, mas dentro de muitas imagens que ficaram. Se foi espião, levou o segredo com ele. Se não foi, deixou-nos coisa melhor: a prova de que um grande realizador também pode passar quase invisível.