No passado dia 18 de agosto, partiu Konstantinos Tsoukalas, aos 89 anos. O sociólogo grego que a imprensa francesa chamou, com inteira justiça, de “pensador do ‘nós todos'”. Deixa-nos uma obra que é, acima de tudo, um farol na névoa do nosso tempo.
“O desafio planetário atual já não opõe conservadores e reformistas, a direita e a esquerda, os pobres e os ricos, os racionalistas e os irracionais. O verdadeiro dilema das pessoas reflexivas, hoje em dia, resume-se à necessidade de escolher entre “nós todos” e ‘ninguém’.” — escreveu Konstantinos.
Li e reli estas palavras nos últimos dias, como quem segura uma brasa. Elas não são apenas um diagnóstico sociológico; são um ultimato ético. E chegam-nos agora, no preciso instante em que perdemos o homem que as escreveu, como se Tsoukalas quisesse deixar-nos, antes de partir, a bússola para atravessar a tormenta.
Durante décadas, o sociólogo grego ensinou-nos a olhar para as estruturas invisíveis que moldam a nossa vida coletiva. Com um bisturi analítico herdado, em parte, do seu diálogo com Pierre Bourdieu, desmontou a erosão do espaço público, a dependência estrutural das sociedades periféricas, a ascensão daquilo a que chamou, sem eufemismos, “kakistocracia”, o governo dos piores. Mas não se ficou pela anatomia da decadência. Onde outros viam apenas ruína, ele insistia em procurar o fio invisível que ainda nos liga uns aos outros.
Esse fio é o “nós todos”. E é aqui que a sua obra ganha uma dimensão que transcende a sociologia e se aproxima da filosofia moral. Num tempo em que a aceleração digital, a manipulação algorítmica e a fragmentação identitária nos empurram silenciosamente para o abismo do “ninguém”, Tsoukalas convoca-nos para a coragem do coletivo. Não um coletivo retórico, de bandeiras e slogans, mas uma teia invisível feita de escuta, de solidariedade concreta e de cidadana ativa. A única coisa, diria ele, que nos torna verdadeiramente humanos.
O “ninguém” é o reino da indiferença. É o indivíduo isolado diante do ecrã, convencido de que a sua dor não interessa a ninguém e a dos outros ainda menos. É o espaço público esvaziado, transformado em arena de ruídos. É a democracia reduzida a procedimento, sem corpo nem alma. Hannah Arendt avisou-nos, há mais de meio século, de que o totalitarismo se alimenta desta solidão em massa. Tsoukalas, com a lucidez de quem viu passar o século XX e entrar, sem fôlego, pelo XXI, acrescenta: o “ninguém” não é apenas uma ameaça política. É uma escolha moral que fazemos todos os dias, em pequenos gestos de desistência.
O “nós todos”, pelo contrário, exige esforço. Exige a pensée lente, o pensamento lento, de quem recusa a vertigem do imediato. Exige a paciência de quem escuta antes de responder, a humildade de quem reconhece que a verdade nunca é propriedade de um só e a coragem de quem se recusa a olhar para o lado quando o outro cai. É, no fundo, a ética da potência coletiva de que falava Espinosa: a ideia de que somos mais fortes quando pensamos e agimos em comum.
O legado de Tsoukalas não é, portanto, de desespero. É de responsabilidade. Ele sabia, melhor do que ninguém, que as estruturas que nos oprimem foram construídas por mãos humanas e que, por isso, podem ser desmontadas por outras mãos humanas. Mas para isso é preciso, primeiro, acreditar que vale a pena. Acreditar que o “nós todos” é possível. Acreditar, em suma, uns nos outros.
Obrigado, Tsoukalas. A tua voz continuará a ecoar nos corredores da nossa consciência coletiva, como um lembrete discreto e urgente: em cada encruzilhada do tempo, a escolha é sempre a mesma. Entre o “nós todos” e o “ninguém”, sejamos dignos da primeira palavra.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.