Em “A vida e a morte dos nossos bancos – Como os banqueiros usaram o nosso dinheiro e ele desapareceu” (ed. Contraponto), Helena Garrido, licenciada em economia e jornalista com uma longa carreira na área de economia e finanças, descreve ao pormenor, no extrato que abaixo publicamos, um facto até agora pouco conhecido: a Caixa Geral de Depósitos (CGD) chegou a deter, durante largos meses do ano 2000, mais de 20% do capital do BCP.
Foi durante a venda da sua participação no Banco Pinto & Sotto Mayor ao banco então liderado por Jorge Jardim Gonçalves que a CGD aceitou ficar com um quinto do capital do BCP, até que a administração encontrasse comprador para essa posição. Mas o banco já nessa altura não tinha como disfarçar a falta de capital, e só viria a honrar esse compromisso no verão do ano 2000, pouco depois da criação das 17 offshores para a movimentação de ações próprias que, anos depois, estiveram no centro das acusações à anterior administração.
Ao abrigo de uma estratégia fortemente expansionista, o BCP comprou, entre 1995 e 2000, três bancos, uma seguradora e envolveu-se num projeto internacional de seguros – a Eureko. No início do novo milénio, teve de começar a vender parte do que comprou, fazendo com que os destinos dos dois bancos se cruzassem pela segunda vez. Em julho de 2004, a CGD adquiriu ao BCP, por 343 milhões de euros, as seguradoras Bonança e Império, contribuindo para o reforço da solidez do banco ainda liderado por Jardim Gonçalves.
No final de 2007, durante a guerra pelo controlo acionista do BCP, quase fatal para o banco fundado por Jardim Gonçalves, a CGD entra pela terceira vez na vida do BCP. Dessa vez, “cedendo” o gestor Carlos Santos Ferreira que, com Armando Vara como número dois, vai presidir ao conselho de administração do maior banco privado, depois de Paulo Teixeira Pinto ter renunciado ao mandato e da candidatura de Filipe Pinhal ter sido “chumbada” pelo Banco de Portugal. Ao mesmo tempo, a CGD concedeu crédito aos protagonistas da batalha pelo poder no banco – entre eles, Berardo. O “assalto” ao BCP, com a “ajuda “ do banco público, estava definitivamente em marcha, como assinala a autora. Helena Garrido foi diretora do Jornal de Negócios e é atualmente comentadora da RTP e da RDP.
Eis um extrato do segundo capítulo do livro:
A ascenção de Jardim Gonçalves
“(…) O banco liderado por Jorge Jardim Gonçalves foi o único que se disponibilizou a adquirir o Sotto Mayor depois de vários desafios aos outros bancos, designadamente ao BPI e ao BES, feitos pela CGD, ainda com a liderança de João Salgueiro. O BPI estava, neste início do ano 2000, envolvido num projecto de fusão com o BES, que acabou por fracassar em Março. Todos pareciam considerar o preço pedido pela CGD como demasiado elevado.
Apesar de o seu banco enfrentar ainda problemas de digestão depois da compra do BPA e da integração do Banco Mello, assim que Jardim Gonçalves soube do plano de venda de Champalimaud abalançou-se na oferta de compra de todo o grupo. A 18 de Junho de 1999, no dia em que o então ministro das Finanças revela a sua frontal e furiosa oposição ao negócio, congelando os direitos de voto de Champalimaud na Mundial Confiança, e 11 dias após Champalimaud ter anunciado o acordo com o Santander, o BCP oferece 2,4 mil milhões de euros pela Mundial Confiança, mais 80% do que valia em Bolsa. Uma oferta que será depois revista em Novembro.
Assim, o BCP passa quase um ano com uma oferta no mercado sem se saber se vai ou não comprar o banco, o que tem inevitáveis efeitos nas cotações, quer do banco liderado por Jorge Jardim Gonçalves, quer no Sotto Mayor, também cotado em Bolsa.
É desta altura, entre 1999 e 2000, que datam as sociedades em offshores que estarão no centro das acusações à administração do fundador do BCP. E que acabam por determinar, em 2007, a queda de Jardim Gonçalves e do seu modelo para o banco.
A 31 de Março de 2000, completa-se o negócio que desfez o Grupo Champalimaud. A CGD vende a sua parte no Sotto Mayor (53%) ao BCP nas condições da oferta original, a 23,15 euros por acção, preço que receberão também os pequenos accionistas. Estes, se não quiserem o dinheiro, podem trocar 27 acções do BPSM por 125 acções do BCP.
O BCP paga o Sotto Mayor à CGD com acções próprias, comprometendo-se a vendê-las até que a posição do banco público na instituição de Jardim Gonçalves fique nos 6% a 7%. Houve um momento em que a Caixa chegou a deter mais de 20% do BCP, revela quem esteve envolvido no negócio. Nos termos do acordo, cabia ao BCP arranjar compradores para essas ações – o que aconteceu entre Junho e Agosto de 2000. Não foi fácil para o BCP colocar nos investidores todas aquelas acções, o que gerou momentos de tensão com o banco público.
Quando em 2007 rebenta o caso das 17 offshores do BCP (sociedades no paraíso fiscal Cayman que beneficiaram de financiamento do banco para comprarem as suas acções), fica a saber-se que foram constituídas entre 10 de Setembro de 1999 e 30 de Março de 2000 e apenas transaccionaram títulos do próprio banco. Factos que permitiram fundamentar a tese de que o BCP não tinha fôlego financeiro para aguentar a compra do Sotto Mayor, que culminou uma fase de cinco anos de aquisições e precedeu a crise económica e financeira dos anos de 2000 a 2003. E que apoiaram a tese da acusação: a de que o BCP usou na altura essas sociedades para, com dinheiro do próprio banco, disfarçar a falta de capital.”