Ser o país do mundo que mais testes fez desde o início da pandemia, conseguir uma alta taxa de vacinação e impor novas restrições de circulação parecem não ser medidas suficientes para um país rico como a Dinamarca fazer frente a Ómicron, variante surgida em novembro e da qual tanto está ainda por conhecer.
“O próximo mês será o período mais difícil da pandemia”, alerta Tyra Grove Krause, epidemiologista chefe do Statens Serum Institut, um campus do governo dinamarquês dedicado às ciências. No laboratório onde são analisados os testes positivos de Covid-19 foi recentemente adicionado um turno noturno, contratados cem novos trabalhadores e compradas mais 20 máquinas de testes PCR.
Como sempre, e em todos os países, a grande preocupação é a sobrecarga de doentes internados nos hospitais. A variante Ómicron – da qual ainda muito está por descobrir, nomeadamente se causa mesmo doença menos grave, apesar de ser muito mais contagiosa – representa um volte-face na luta contra a pandemia. Ao jornal The Washington Post, Tyra Grove Krause comparou o vírus a uma inundação e descreveu como as vacinas, em variantes anteriores, agiram como duas barreiras protegendo o sistema de saúde: a capacidade de reduzir a probabilidade de infeção, mantendo a disseminação baixa; diminuindo a probabilidade de doença grave e morte. Ambas as barreiras tinham alguns buracos, mas juntas garantiam que a enchente de água nunca subisse muito.
O que se passa agora é que as pessoas com duas doses são tão vulneráveis à infeção por Ómicron quanto as não vacinadas. E, só aqueles que receberam o reforço vacinal têm melhor proteção, mas, enquanto isso, cerca de três em cada quatro dinamarqueses ainda não receberam uma terceira dose, tornando a maioria do país vulnerável.
Com 78% da população dinamarquesa totalmente vacinada, mais 3,4% vacinados só com uma dose, a Dinamarca com quase seis milhões de habitantes tem atualmente 111 mil casos ativos e um número baixo de mortes, contabilizando um total de 3 084 mortes desde o início da pandemia, em 2020.
As mais recentes projeções dos especialistas mostram hospitalizações diárias iguais ao pico do ano passado, com a variante Delta – mas, isso no melhor cenário. De resto, os números poderão ascender à estratosfera. Os hospitais dinamarqueses nunca tiveram mais de mil pacientes infetados com SARS-CoV-2 durante o pico do inverno passado. Mas, no início de janeiro de 2021, num cenário moderado, os hospitais poderiam receber 500 novos pacientes com Covid-19, a chegarem todos os dias. Se a transmissibilidade da Ómicron ultrapassar o limite, e demonstrar ser tão grave quanto a variante Delta, com uma forte capacidade de fintar as vacinas, as admissões diárias podem chegar às 800.
No que às infeções diz respeito, a Dinamarca também nunca tinha registado mais de cinco mil novos casos diários. Nos últimos dias tem oscilado entre os 11 mil e dez mil novos casos por dia. Numa semana, num cenário moderado, o número de casos poderia chegar a 27 mil. Para Tyra Grove Krause, nem um novo confinamento total impedirá que a situação se descontrole.
No início de setembro, enquanto Portugal se aproximava dos 85% da população totalmente vacinada (taxa atualmente nos 89%), a Dinamarca com 75% de imunizados levantava todas as restrições e a Covid-19 deixava de ser considerada uma “ameaça crítica” no país. Daí a três meses voltaram as restrições com o fecho de escolas, limitações da vida noturna e teletrabalho generalizado. Na altura, o plano não era seguir-se um longo confinamento, mas a situação já era “extremamente séria”. Há três dias, foram anunciadas novas velhas limitações, com teatros, cinemas e salas de espetáculos a fecharem portas.
Todo o sistema de prevenção e controlo dinamarquês da doença assenta na forte capacidade de testagem com mais de 102 milhões de testes, para uma população de 5,8 milhões de pessoas – um ritmo per capita sete vezes superior ao dos Estados Unidos da América (786 milhões de testes para 333 milhões de pessoas).
Com testes gratuitos e resultados em 24 horas, no laboratório sabem qual a variante responsável por cada caso. Uma parte dos positivos é totalmente sequenciada geneticamente, proporcionando uma camada extra de perceção – permitindo aos investigadores não só ver as mutações, mas também entender quem infetou quem.
Por exemplo: Numa festa de Natal onde estiveram cerca de 150 pessoas, e estando a maioria vacinada, mesmo assim, 71 testaram positivo para a Ómicron.
Até agora, o que os dados têm mostrado é que a taxa de hospitalização é ligeiramente menor para a Ómicron do que para a Delta – embora como os internamentos são posteriores às infeções, os especialistas sabem que os resultados serão mais significativos daqui a algumas semanas.
Os primeiros casos de Ómicron na Dinamarca concentraram-se na faixa etária dos 20 anos, pessoas que normalmente apresentam sintomas leves e cujas infeções podem passar despercebidas em países que fazem menos testes. Alguns cientistas do Statens Serum Institut consideram que a nova vaga está uma ou duas semanas à frente de outros países ocidentais, outros defendem que o país do norte da Europa pode estar a apanhar a disseminação que outros países estão a perder. E, se ao início representava 4,9% dos casos, agora a Ómicron já é responsável por 26,8% dos positivos.
A variante já é dominante em Londres, e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças afirma que é provável que se torne dominante em todo o continente em janeiro ou fevereiro. Os Estados Unidos também se preparam para uma grande onda, com os hospitais lotados já no próximo mês.
Para Anders Fomsgaard, virologista do Statens Serum Institut e um dos mais conhecidos do país, as pessoas infetadas pela Ómicron podem sair com uma proteção mais profunda – empurrando o coronavírus para algo menos ameaçador. Mas, o vírus é impossível de erradicar totalmente. O médico descreve o coronavírus como um “mutante mestre” e, claramente, com a vacinação, os humanos estão a levar o vírus para um canto, onde ele pode enfraquecer ou mudar.