O cartaz do Festival de Cannes 2026 não foi, de certeza, pensado e feito por um comité de marketing, depois de um almoço comprido, que começou com umas ostras, regadas com um rosé da Provença ou água com gás. Aliás, tenho dúvidas de que isso aconteça no maior festival de cinema do mundo. Tudo é muito bem pensado e com espírito cinéfilo. Assim, o cartaz da 79.ª edição, anunciado esta terça-feira, 21 de abril, já era tarde, entra-nos pela retina como um murro elegante, de unhas feitas e esmaltadas e uma pistola no bolso de trás das jeans: “Thelma e Louise”. Ou, mais precisamente, com as figuras de Geena Davis e Susan Sarandon, fotografadas por Roland Neveu no set do filme de Ridley Scott e que regressam agora como heroínas oficiais do Festival de Cannes, 35 anos depois da antestreia mundial do filme na Croisette, a 20 de maio de 1991. O festival não se limitou a escolher uma imagem bonita: escolheu uma posição. E isso, nos tempos decorativos que atravessamos, é uma decisão mais do que acertada. Na mouche.

Segundo o próprio festival, estas duas “combatentes inesquecíveis” “viraram a mesa”, quebraram estereótipos cinematográficos e políticos, encarnaram a liberdade absoluta e a amizade inabalável, e continuam hoje a fazer ressoar temas que, em 1991, pareciam vanguarda e, em 2026, continuam infelizmente a soar menos a passado resolvido do que a lembrete embaraçoso. A imagem escolhida é a preto e branco, mas o gesto é tudo menos nostálgico: Cannes vai buscar um filme de 1991 não para o embalsamar, mas para o atirar outra vez à estrada.
E faz muito bem. Porque “Thelma e Louise” não é apenas um filme clássico; é um daqueles filmes que teve a indecência de envelhecer melhor do que muita gente que o comentou com superioridade masculina na altura. Quando estreou, houve quem o tratasse como uma extravagância feminista com gasolina a mais, uma espécie de “Easy Rider – Sem Destino” com protagonistas femininas e má vontade patriarcal em sobredose. Hoje percebemos melhor o que ali estava: um road movie sobre mulheres que não querem saber do enquadramento. Não saem apenas de casa. Saem do lugar onde o cinema americano as tinha estacionado durante décadas: ao lado do herói, atrás do herói, na cama do herói, ou mortas a tempo de ensinar qualquer coisa ao herói. Ridley Scott, que já tinha passado por Cannes com “Os Duelistas” em 1977, pegou num género tradicionalmente musculado, viril e cheio de poeira testosterónica, e teve a excelente ideia de o entregar a duas mulheres fartas de serem adereço narrativo.
É por isso que este cartaz significa tanto para os cinéfilos. Porque um cinéfilo a sério, ao contrário do estereótipo do colecionador de posters que acha que o cinema acabou em 1974, sabe reconhecer o raro momento em que uma imagem promocional diz qualquer coisa sobre a história da arte que representa. Este cartaz não vende só a edição de 2026; reabre uma ferida gloriosa do cinema americano. Recorda-nos que “Thelma e Louise” foi, em simultâneo, entretenimento, escândalo, manifesto, buddy movie, western crepuscular e elegia sobre o preço da liberdade feminina num mundo desenhado por homens convencidos de que eram eles os autores de tudo, incluindo do destino alheio.
E depois há o lado mais delicioso da coisa: Cannes, essa máquina internacional da passadeira vermelha, com tuxedos pretos e brancos com laçarote, joalharia de luxo, vestidos impossivelmente engomados e poses de varanda, escolhe como rosto oficial da edição duas mulheres que passaram a história do filme a fugir precisamente da ordem masculina, judicial, social e moral, vestidas de jeans e camisas sem mangas. É um pouco como convidar o anarquismo para apresentar uma gala patrocinada por relógios suíços ou pela joalharia da Chopard. E, no entanto, funciona. Funciona porque o festival, quando acerta, sabe que o glamour não tem de ser estúpido. Pode ser cinematográfico. Pode até ser político sem virar panfleto ou manifesto. Pode ter memória.
Para quem ama cinema, o gesto tem ainda outro sabor: “Thelma e Louise” é um daqueles raros filmes que pertencem ao museu e à vida ao mesmo tempo. Continua a ser estudado, citado, imitado, reciclado e vampirizado por tudo o que veio depois, desde variações femininas do road movie até filmes de fuga emocional que nem sempre percebem que a gasolina narrativa daquele clássico não estava na rebeldia ornamental, mas na forma como a amizade se transformava em destino comum. A certa altura, Thelma e Louise deixam de ser apenas personagens e passam a ser um estado de espírito. Não são duas mulheres na estrada; são duas mulheres a sair, finalmente, da gramática masculina da obediência. E isso continua a ser um espetáculo mais excitante do que metade das conferências sobre empoderamento patrocinadas por marcas de beleza.
Além disso, o cartaz chega num contexto de 2026 que o torna ainda mais expressivo. A 79.ª edição decorre de 12 a 23 de Maio, terá Park Chan-wook como presidente do júri — o primeiro cineasta sul-coreano a ocupar esse cargo — e abriu desde logo a porta a uma edição que se quer cinéfila, internacional e consciente do seu próprio legado. O filme de abertura será “La Vénus électrique”, de Pierre Salvadori, e a Seleção Oficial já foi anunciada pelo festival a 9 de Abril. A novidade de hoje são as duas curtas-metragens portuguesas selecionadas: Daniel Soares, na Competição de Curtas, com “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, e Clara Vieira, na La Cinef — secção dedicada a filmes de escolas de cinema —, com “Onde Nascem os Pirilampos”, filme da ESTC — Escola Superior de Teatro e Cinema. Traduzindo isto para português simples: Cannes 2026 já tinha calendário, presidente e grelha; faltava-lhe talvez uma imagem-símbolo que desse unidade emocional à coisa. Agora tem. E escolheu-a não num filme “importante” no sentido chato da palavra, mas num filme popular, feroz, trágico e infinitamente vivo.
Há também aqui uma inteligência cinéfila que merece o maior aplauso. Em vez de usar um rosto consagrado pela respeitabilidade académica e crítica, Cannes recupera um filme que pertence ao cânone e ao imaginário popular ao mesmo tempo. “Thelma e Louise” é amado por feministas, por estudiosos do género, por espectadores normais que só queriam ver um grande filme, por gente que nunca leu teoria nenhuma e por pessoas que, felizmente, continuam a achar que Susan Sarandon acende um cigarro como quem assina uma tese. É cinema com ideias, mas também com corpo, velocidade, deserto, humor, suor, música e uma daquelas cenas finais que já ultrapassaram o estatuto de final para entrarem no território reservado aos mitos. Não vou estragar a vida a ninguém com spoilers de 35 anos, mas digamos que há poucos desfechos no cinema americano tão belos, tão desesperados e tão insolentemente livres.
E é por isso que este cartaz vale mais do que mil editoriais e críticas sobre representatividade e igualdade de género na Seleção Oficial, escritos à pressa para agradar às opiniões politicamente corretas. Porque não vem dizer-nos, com ar virtuoso, que as mulheres também contam. Vem lembrar-nos que já contavam, que já incendiavam a paisagem, que já carregavam o filme às costas, e que o cinema demorou demasiado tempo a admitir uma evidência que estava ali, de óculos escuros, camisetas de alças branca e preta e vontade de mandar o patriarcado dar uma curva. O cartaz da 79.ª edição é maravilhoso. Não faz pedagogia social. Não tenta ser consensual. Limita-se a afirmar: antes de Cannes ser uma passadeira vermelha, já era uma estrada. E nessa estrada, Thelma e Louise ainda vão à frente.
No fundo, o festival percebeu uma coisa essencial: há momentos em que a melhor maneira de parecer contemporâneo não é inventar um slogan novo, mas regressar à imagem certa, no momento certo. Em 2026, com a indústria entretida entre plataformas, algoritmos, reposicionamentos estratégicos, crises de financiamento e a eterna conversa sobre o futuro do cinema dita por gente que raramente vai ao cinema, Cannes escolhe duas mulheres de sonho cinéfilo de 1991 para lembrar que o futuro do cinema, às vezes, já estava filmado. Só era preciso ter olhos para o ver.
E nós, cinéfilos, agradecemos. Porque, entre um cartaz assético desenhado para não ofender nem chocar ninguém e este golpe de liberdade num descapotável, com motor americano, pó no rosto e fúria antiga, a escolha é fácil. Cannes podia ter escolhido a elegância. Escolheu a coragem. Podia ter escolhido a reverência. Escolheu a fuga. Podia ter escolhido a neutralidade publicitária. Escolheu “Thelma e Louise”. Finalmente, temos um cartaz oficial que não parece ter sido aprovado por um departamento jurídico ou de marketing. Parece ter sido aprovado pela história do cinema.