Foi assim que ele decidiu enfrentar a eternidade: sentado, hirto, num discreto cadeirão como quem tem apenas alguns minutos para dispensar, braços cruzados, expressão sisuda (talvez impaciente?), decorada por bigode impecável, algumas rugas à espreita nos olhos atentos, a cabeça calva e redonda como um ovo. A escritora britânica Agatha Christie poderia ter-se inspirado nas características físicas dele, quando criou a sua personagem literária mais famosa, Hercule Poirot. Mas ao contrário do genial detetive, Calouste Gulbenkian estava longe de ser vaidoso, defende Jonathan Conlin: o único retrato que alguma vez encomendou de si próprio foi o acima descrito, pintado pelo artista Charles Joseph Watelet em 1912 (e que está na capa desta edição da VISÃO). Uma escolha parcimoniosa, dado que Gulbenkian estava a dar então os passos que o transformariam no Senhor cinco por cento – assim chamado pela percentagem dos seus lucros na exploração petrolífera do Médio Oriente – e à data da sua morte, em 1955, com 86 anos, no homem mais rico do mundo.
“A história da vida de Calouste Gulbenkian é muitas coisas, mas não uma história de alguém que construiu fortuna do nada”, adverte Jonathan Conlin logo às primeiras linhas de O Homem Mais Rico do Mundo (Objectiva, 496 págs.), a biografia agora lançada, que ilumina e desconstrói muitos mitos consensuais, tanto em torno do magnata britânico-arménio como do generoso gesto que o levou a deixar legado e fortuna a Portugal, hoje traduzidos na fundação e no museu com o seu nome. Um desses mitos é a ideia de que Calouste Gulbenkian foi um self-made man, à maneira dos grandes empreendedores norte-americanos que subiram a pulso, entre crude e lágrimas. Nascido em Constantinopla, hoje Istambul, o mais velho de três irmãos pertencia por direito à elite mercantil arménia, os amiras: cerca de 165 famílias poderosas, acima das centenas de milhares de arménios otomanos que, refere o biógrafo, “não obstante toda a sua riqueza, os modos alla franga (de estilo francês) e o trajar ingilizhârî (de estilo inglês), continuavam a ser tratados como cidadãos de segunda classe”. Comerciantes e cambistas, os Gulbenkian exportavam algodão em bruto, lã, pelo de angorá e ópio do Império Otomano, e importavam tecidos de Manchester, artigos de vidro de França e querosene de Baku. “Para o pequeno Calouste, viajar entre a Europa e a Ásia teria sido rotina, pois a família estava instalada de ambos os lados do Bósforo”, lê-se. E na mansão asiática de Kadiköy, os empregados abundavam. Uma anedota recorrente na família, usada quando “alguém perdia o sentido de perspetiva”, é a que relata um bizarro episódio: quando o pai de Calouste bateu palmas para o seu criado lhe levar café e este falhou a comparência, porque adormecera no posto, Sarkis ordenou aos outros serviçais que o castigassem. O infeliz morreu devido à severidade dos castigos, inspirando esta tirada ao patriarca: “Disse-vos que o sovassem, não que o matassem.” Esta espécie de pai tirano deixaria a Calouste, como herança dos seus negócios, um valor equivalente a 80 milhões de libras.
O ouro negro seria o agente de combustão que multiplicou esta vantagem familiar e, reza ainda a biografia, fez dele o único arménio otomano “a prosperar extraordinariamente” no Ocidente quando chegou à maioridade, a tempo de “ver o mundo que lhe era familiar ser dilacerado pelo genocídio e pela guerra”. “Longe de o desencorajar, a destruição da sua pátria e uma personalidade solitária tornaram-se chaves para o seu sucesso: como homem reservado sem lealdades a qualquer império, Estado ou companhia, Gulbenkian pôde apresentar-se como o mais honesto dos intermediários”, defende o biógrafo e professor de História Moderna Britânica. Alguém que acumulará quatro passaportes, casas em várias capitais europeias, uma impressionante coleção de arte e uma carteira de contactos invejável, que de muito lhe valeram numa vida dedicada à diplomacia financeira. Esta é uma história de “oportunidade”, define Conlin: Calouste Gulbenkian transformou-se em magnata do petróleo sem saber nada de geologia e tendo visitado, em toda a sua longa vida, apenas um campo de petróleo, em Baku, quando tinha 19 anos.
O biógrafo atreve-se a deixar cair outro mito fulcral em torno de Calouste Gulbenkian, o da presença e o do protagonismo do homem de negócios no momento em que se traçou uma linha vermelha no Médio Oriente (ver caixa O Mapa do Tesouro): “Gulbenkian manifestou pouco interesse por ele. O mapa não é mencionado nas memórias que ditou para circulação privada em 1945. Ele nem sequer esteve em Oostende nesse dia fatídico.” E discursos bonitos não eram com ele…
Dotado de grande pragmatismo, anos antes, em 1925 – após o insucesso da Conferência de Lausana de 1923 em chegar a um acordo sobre a delimitação de fronteira entre a Turquia e o novo Estado do Iraque-, estava interessado, tal como a Turkish Petroleum Company (TPC), em que as jazidas de petróleo ficassem do lado iraquiano, dada a relação deficitária com a Turquia). Gulbenkian propôs-se então uma tarefa: conseguir que os denominados mapas de Teleki “fossem desenhados de modo que as jazidas petrolíferas de Mossul ficassem do lado ‘direito’ [iraquiano] da fronteira”. Foi, então, buscar a sua carteira de contactos às raízes geográficas: “O cartógrafo de Teleki, explicou ele aos seus colegas da TPC, era o antigo cartógrafo otomano, um arménio chamado Zatik Khanzadian”, alguém que o abordara através de um amigo mútuo da escola, confiando na sua “posição e nome para conservar tudo em segredo”. O parágrafo escrito pelo biógrafo é rematado assim: “Para quê incomodarem-se com convenções, protocolos e tratados quando as fronteiras internacionais podiam ser dispostas à nossa maneira por apenas duas mil libras? Outros poderiam ir para a linha de partida. Gulbenkian ia direto à meta.”
“Como uma aranha no centro de uma indústria internacional petrolífera e financeira emergente, Gulbenkian manteve impérios e multinacionais como reféns durante 50 anos. No entanto, não teria chegado a deter tanto poder se não fosse um negociador e um arquiteto financeiro excecionalmente dotado”, avança outro dos parágrafos fortes desta obra agora publicada em Portugal. E cita Daniel Yergin, autor da premiada história da indústria petrolífera The Prize, que coloca Gulbenkian ao nível de Rockefeller ou de Getty como “um dos grandes criadores-filibusteiros do petróleo”.
Da caça e do caçador
Em 1930, Gulbenkian examinou todo um catálogo publicado do Museu Hermitage de Moscovo, assinalando a lápis as obras que desejava comprar. Entre elas, estavam Palas Atena, belíssimo perfil guerreiro pintado por Rembrandt, que o colecionador adquiriu nesse mesmo ano, ou Diana, a estátua de mármore de Jean-Antoine Houdon, que fora originalmente executada para ornamentar os jardins do palácio do duque de Saxe-Gotha, na Turíngia, mas que acabou por ser adquirida por Catarina II da Rússia. Obra privilegiada numa coleção de exceção, seria comprada em 1930 por Calouste Gulbenkian numa transação que contou com o beneplácito de Estaline: o ditador russo tinha procurado o conselho de Gulbenkian e, recorda-se em O Homem Mais Rico do Mundo, este foi recompensado com obras de Rembrandt pertencentes ao Hermitage. Um sinal de que o amor pela arte, ou pelo negócio, não o impedia de lidar com figuras mais controversas.
Calouste chamava às suas obras de arte “as suas filhas”. Mas Jonathan Conlin defende igualmente uma visão algo diferente do mero colecionador de coisas belas: “O que também era marcante era até que ponto ele acabou por adorar colecionar como uma perseguição tal e qual como uma caçada, em muitos casos era a caça e não o prémio, a posse da obra de arte, que o entusiasmava. Após serem adquiridas, muitas obras permaneciam armazenadas durante anos: Gulbenkian assegurava que eram bem cuidadas, mas aparentemente não sentia a necessidade de as observar. Compradas, ele sabia que lhe pertenciam, prontas a fazerem parte do legado que deixaria atrás de si.”
Um magnata reservado
Questionado sobre se o mecenas seria um entre muitos ricos financeiros que gostavam de colecionar belas coisas como exemplo de estatuto social, o académico responde à VISÃO: “Em Paris, no fim do século XIX, era comum aos membros da haute banque colecionar arte de algum género: pinturas do período dourado holandês, mobiliário francês do século XVIII, retratos de Reynolds e de Gainsborough… O gosto de Gulbenkian era algo diferente do dos Rothschild ou dos mercadores judeus otomanos Camondo, cuja coleção ainda pode ser admirada, hoje, no Musée Nissim de Camondo, em Paris.” Acrescenta: “O que era diferente em Gulbenkian era a sua ânsia em aprender sobre arte, em estudar História de Arte e em educar o seu gosto.” Também o seu amor pelos gatos, pelos pássaros, pelos jardins, pela propriedade amplamente arborizada que comprou na Normandia – Les Enclos – e a que sempre regressou (a filha chamou-lhe um “parque para galinhas”), projetavam dele uma sensibilidade diferente. Curioso é referir que nas disposições testamentárias estipuladas por Calouste Gulbenkian, em 1916, havia uma curiosa cláusula de doações destinadas ao Palácio de Versalhes com instruções para que fossem gastas de modo a encorajar “belas aves canoras […] a escolher o parque para residência”. Escreve Conlin que “o legado teria enchido muitas pias onde se banhariam os pássaros com Évian”.
Heranças difíceis
O apoio a uma ampla gama de causas, de várias nacionalidades (norte-americanas, holandesas, francesas, britânicas, arménias…), foi uma prática constante no percurso deste filantropo ao longo de toda a vida. Algo que ecoa nas palavras de Isabel Mota, atual presidente da Fundação Gulbenkian, quando questionada sobre como caracterizaria a figura, os pontos fortes do temperamento e a importância de Calouste Gulbenkian: “Da vasta informação disponível a que tive acesso, incluindo a troca de correspondência do senhor Gulbenkian com familiares e amigos, seguramente destacaria a multiplicidade dos seus interesses e a sua capacidade de realização enquanto homem de negócios, colecionador e filantropo. Nestas três dimensões, residem, quanto a mim, os elementos da sua personalidade que são relevantes para o trabalho que diariamente desenvolvemos na Fundação Calouste Gulbenkian, o principal legado do nosso fundador para a Humanidade.” Ao longo de 2019, para celebrar o 150º aniversário do nascimento de Calouste Gulbenkian, a grande casa batizada com o seu nome apresentará uma programação diversificada (concertos, exposições, prémios, conferências…). A mesma instituição que anunciou, em abril de 2018, a opção estratégica da venda da Partex, empresa-recetáculo dos famosos 5% advindos da exploração petrolífera que fez de Calouste uma figura mundial; e que Isabel Mota espera ser um processo concluído durante o corrente ano.
Na última newsletter publicada pela Fundação Gulbenkian, a presidente refere, a propósito da biografia de Jonathan Conlin, ser esta “uma investigação académica e independente que contou com o apoio financeiro da Fundação”, e que o autor teve “acesso total aos arquivos e total controlo editorial”. Esse sopro de liberdade e desembaraço sente-se ao longo de O Homem Mais Rico do Mundo. Sublinhe-se que este volume biográfico é onde se assume mais claramente o intrincado labirinto por detrás da proclamada “oferta a Portugal” da sua fortuna expressão que Jonathan Conlin atribui a Salazar. O advogado (e, posteriormente, primeiro presidente da Fundação Gulbenkian) Azeredo Perdigão é mostrado como alguém em permanente contacto com o ditador português, que o instrui no sentido de o conselho de administração da fundação ser dominado por portugueses. O advogado de confiança de Gulbenkian, Lord Radcliffe, questiona-se: “Estaria Azeredo Perdigão a falar como executor de Gulbenkian ou seria um porta-voz de Salazar?” Tudo começara, recorda o biógrafo, de forma quase acidental: Calouste gostava do clima do País, e as tentativas de estabelecer a sua fundação benemérita em Londres tinham caído por terra. Aliciado pela isenção de impostos garantida pelo consultor Azeredo (que, mais tarde, entrou em contradições quanto a essa questão fiscal), o magnata escolheu o nosso país. Em Lisboa, onde chegou em abril de 1942, escolheu como lar o lindíssimo Hotel Aviz e aí permaneceu durante 13 anos (à semelhança do que acontecia em Paris, onde fizera construir um “fabuloso” palácio, por ele recheado de tesouros, que abandonava à noite para ir dormir no Hotel Ritz). Mas Calouste nunca falará português nem abandonará os restantes domicílios (Paris, Normandia…).
Distante e pragmático
Numa carta de 1926, dirigida ao filho Nubar, Gulbenkian explica porque coleciona: “A arte proporcionava ‘consolo e alívio’ sempre que se via confrontado com desapontamentos na vida.” O mecenas sempre exerceu um forte controlo sobre a família. O longo casamento com Nevarte começara de forma promissora: uma união entre filhos de boas famílias (a noiva já era uma Gulbenkian antes do enlace), com ela “a submeter-se às cartas de amor algo pedantes do noivo”. Depois, o casal debate-se “para viver em grande proximidade”, e Nevarte convive com a liberdade de sentido único do marido: o “sexo regular com mulheres jovens”, conselho do doutor otomano Kemhadjian, como tónico regenerador, Calouste praticou-o com a diligência de um atleta. A exceção ao statu quo era a intolerância da esposa à dedicadíssima secretária do marido, Isabelle Theis, acerca de quem Jonathan Conlin não se atreve a confirmar se terá tido um romance com o milionário. Mas, declara, “nos seus derradeiros anos, Nevarte divertira-se imenso a ser a Senhora cinco por cento.” “A forma como lidava com a paternidade e o casamento era o de um amira arménio otomano”, defende ainda o biógrafo. Os filhos educados em Inglaterra, Rita e Nubar, “exasperavam-se” com os modos distantes e pragmáticos do pai, mas “nenhum deles teve o vigor para se libertar das mesadas (e promessas de herança) que os amarravam ao pai”. Nubar teria uma espécie de vingança: tornar-se-ia um dandy despesista e excêntrico (que, ao contrário do progenitor, gostava de chamar a atenção), famoso em Londres por circular num táxi privado com motorista e que chegou a pôr o pai em tribunal. A filha, Rita, reconhecia que Gulbenkian era “um génio, um número especial” que se consentia “a si mesmo fazer tudo à sua maneira” – alguém a quem as regras não se aplicavam.
“Rita e Nubar estavam perfeitamente cientes dos planos do pai para deixar a coleção de arte, os investimentos e a Pandi (ou seja: os famosos cinco por cento) a uma fundação benemérita.” Acrescenta o biógrafo que “não existe testemunho de que algum deles se ressentisse disso”. Mas, lê-se, na década de 1950, “Gulbenkian tornara-se tão obcecado com a proteção da sua fortuna que parecia não estar interessado nos destinos para que estava a ser preservada”. Em fevereiro de 1955, num “momento de lucidez”, diz em arménio a Nubar: “Não te esqueças do que te estou a dizer. És forte e tens de defender a nossa fortuna, será uma vergonha se tudo se perder.” Descobre-se, no entanto, que Gulbenkian tinha poucas ilusões quanto a isso: “Conjeturou que, poucos minutos volvidos sobre o seu último suspiro, Nubar e Rita seriam vistos a ‘esgueirarem-se pela porta do Jack Barclays’, o reputado concessionário da Bentley de Berkeley Square, em Londres.” Cada um dos filhos receberia, segundo o testamento, um milhão de dólares (hoje, cerca de 6,8 milhões de libras). Mas no ano da sua morte, em 1955, os proventos dos cinco por cento do patriarca foram o equivalente a 92 milhões de libras nos dias de hoje.
Na crítica a O Homem Mais Rico do Mundo publicada no The Guardian, o jornal britânico refere Calouste Gulbenkian como um “oligarca”, mito desmentido pelo biógrafo: “Esse rótulo não é útil, já que as fortunas de Gulbenkian não estavam associadas ou dependentes de qualquer regime político, da mesma forma que, digamos, os oligarcas russos fazem parte da cleptocracia que esvazia o Estado e fabricam o consentimento do governo”, diz à VISÃO. Antes, ressalvara já: “Os princípios morais eram muito importantes para Gulbenkian, e ele não era um hipócrita nesse aspeto. A biografia descreve muitas circunstâncias em que os seus parceiros o traíram, mas não encontrei quaisquer provas de Gulbenkian trair outros. Ele não enganava as pessoas.”
Acordo da Linha Vermelha
O mapa do tesouro
A Turkish Petroleum Company (TPC) foi criada em 1912 para explorar os campos petrolíferos iraquianos: uma união de esforços entre o Banco Nacional da Turquia, o próprio Calouste Gulbenkian (então com uma percentagem acordada de nada menos do que 15% dos lucros da exploração do precioso líquido) e várias companhias petrolíferas (hoje identificadas como BP, Total, ExxonMobil e Royal Dutch Shell). O desígnio desta reunião de players era o de estabelecerem uma cooperação (substituindo as rivalidades) no território entendido como Império Otomano na Ásia, e desenvolverem também as zonas além de Mossul e Bagdade, não ricas em petróleo. Em 1928, tanto a ideia como esse império tinham desabado devido à Primeira Guerra Mundial (e Gulbenkian diminuíra a sua percentagem para 5%). Os vários protetorados franceses e britânicos (antes dominantes) evoluíam para novos estados-nação, como o Iraque, a Jordânia e a Arábia Saudita. Mas a 31 de julho de 1928, em Oostende, esse império foi redesenhado no mapa o Acordo da Linha Vermelha, assegurando que as intervenções dos negociantes de petróleo na região seriam efetuadas exclusivamente através da TPC. Esse acordo marcou a criação de um cartel petrolífero que se estendia por uma área vasta, sendo predecessor da OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo, nascida em 1960. Manteve-se a pretensão de Gulbenkian a 5% do petróleo da TPC (depois transferida para a empresa Partex, ainda hoje existente). E reza a lenda que o mapa fora desenhado a lápis vermelho pela sua própria mão… História desmentida pelo biógrafo, Jonathan Conlin.
Influenciadores
Os homens de Calouste
Algumas das figuras que marcaram o percurso do magnata arménio
Howard Carter
O egiptólogo britânico, que ficou célebre pela descoberta, em 1922, do túmulo do faraó Tutankhamon no Vale dos Reis, foi intermediário e conselheiro de Gulbenkian na aquisição de vários objetos para a sua coleção de arte egípcia
Cyril Radcliffe
“Deixem isso com Radcliffe”, eis a frase dita por Calouste quando era pressionado a decidir sobre o seu legado. O barão, político e advogado britânico foi nomeado administrador principal da fundação e opôs-se a Azeredo Perdigão
Azeredo Perdigão
Advogado de Calouste desde a década de 1940, foi ele quem convenceu Gulbenkian a criar a sua fundação em Portugal, com o argumento de que não haveria pagamento de impostos. Acabaria por se tornar o primeiro presidente da instituição
Arte
Um colecionador ávido
Muito antes da ideia de criar um museu para abrigar a sua coleção de obras de arte, já Calouste Gulbenkian se deixava seduzir pelos beaux objets. O magnata relatava orgulhosamente a sua primeira aquisição: as 50 piastras dadas pelo pai, como recompensa pelos bons resultados escolares obtidos aos 14 anos, foram logo gastas no bazar, a comprar dois estáteres (moedas cunhadas da antiga colónia grega de Cízico). Numa carta dirigida ao especialista Lucien Neville, em outubro de 1946, Gulbenkian dizia: “Tenho de confessar que não me limito a colecionar moedas raras – coleciono, sobretudo, moedas que, além de raras, apresentem um alto valor artístico e um perfeito estado de conservação, como se não tivessem circulado.” A primeira moedinha foi o início de uma paixão duradoura por obras de arte, estendida a pintura (Degas, Fragonard, Guardi, Renoir, Rubens, Rembrandt…), escultura, cerâmica e faiança islâmica, artefactos gregos, iluminuras e livros valiosos, peças de mobiliário, têxteis, ourivesaria: um espólio de mais de seis mil peças, da Antiguidade até ao início do século XX. Um artista único tem lugar especial na Coleção do Fundador: René Lalique (1860-1945), originalíssimo criador de peças de inspiração art déco, fortemente influenciadas pela Natureza. Ainda hoje, o Museu Gulbenkian é a instituição que reúne o maior número de obras de Lalique num só museu. Entre 1899, data da compra da gargantilha Arvoredo, e 1927, o arménio adquiriu 175 obras do célebre joalheiro francês, a que se juntaram inúmeras compras para presentes de cortesia. Expostas na sua casa de Paris, estas peças exibiam-se em vitrines, mas o seu uso estava vedado a todos, incluindo a sua mulher, Nevarte Gulbenkian. A exceção à regra? O peitoral Libélula, usado em palco pela atriz Sarah Bernhardt.
Sede, museu e jardim Gulbenkian
Meio século de um edifício histórico
Em 2019, celebram-se cinco décadas da inauguração do edifício-sede da Fundação, do Museu e do Jardim Gulbenkian. Facto curioso: ali funcionaram o primeiro Jardim Zoológico de Lisboa, em 1884, e a Feira Popular, em 1943. Isto após o fracasso de um projeto de loteamento (1917) no então chamado Parque de Santa Gertrudes a Palhavã, onde o proprietário, José Maria Eugénio de Almeida, construíra cavalariças, lagos, viveiros, alamedas de árvores exóticas e até um coreto. Estes terrenos foram adquiridos em 1957, pela Fundação Calouste Gulbenkian, que lançou um concurso para a construção do edifício, desejando que este fosse “uma contribuição importante para a valorização da arquitetura contemporânea em Portugal”, explica a arquiteta e historiadora Ana Tostões em Gulbenkian: Arquitetura e Paisagem. Venceu a proposta de linhas sóbrias, horizontais e contemporâneas, de Ruy d’Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa. Um ano depois, iniciou-se o marcante projeto paisagístico do jardim, assinado por Gonçalo Ribeiro Telles e por António Viana Barreto (responsável pelos terraços verdes do Hotel Ritz). Nascia assim a homenagem, em betão, granito e Natureza, a Calouste Gulbenkian.
Jonathan Conlin: “Gulbenkian nunca mencionou Lisboa como lar para a sua coleção”
Dedicou cinco anos a pesquisar e a escrever a biografia O Homem Mais Rico do Mundo. As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian (Objectiva, 496 págs., €21,90), ganhando livre acesso aos mais de 600 metros de documentos guardados na Fundação Calouste Gulbenkian e a outros arquivos públicos, corporativos e privados mundiais à exceção, conta, dos pertencentes às petrolíferas ExxonMobil e Gulf (BP, Total e Royal Dutch Shell deixaram-no ver tudo). Nascido em Nova Iorque, Jonathan Conlin estudou História e Línguas Modernas em Oxford e em Cambridge, e possui uma ironia lúcida e independente que atravessa o livro. A obra dedicada ao mecenas mais reconhecido no nosso país é lançada esta quinta-feira, 24, na inauguração das comemorações do 150º aniversário do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian. Atualmente a trabalhar num projeto dedicado ao centenário da Conferência de Lausana, celebrado em 2023, instigado pela pesquisa anterior, entusiasma-se com as novas descobertas: “Quando aprendemos a ver o passado através dos óculos transnacionais de Gulbenkian, reparamos em novos padrões.”
O que despertou o seu interesse em Gulbenkian?
Deparei-me pela primeira vez com o sr. Gulbenkian quando estava a escrever a história da National Gallery, em Londres. Um dos grandes “e se?” da sua história assenta no plano abortado de Gulbenkian para legar a sua magnífica coleção de arte a essa instituição. Talvez ainda mais importante, esse legado teria incluído os célebres 5% da produção de petróleo do Médio Oriente. Para uma instituição que luta para competir com os orçamentos dos museus norte-americanos, esta herança teria mudado o jogo.
O que era importante desvendar sobre ele?
Normalmente, um biógrafo de uma figura tão importante para o século XX como Calouste Gulbenkian teria tido a oportunidade de ler biografias prévias já publicadas, construindo a sua obra com base em factos estabelecidos e em alguma discussão historiográfica. Mas as biografias existentes, como a de Ralph Hewins [O Senhor Cinco por Cento, de 1957, várias vezes reeditada em Portugal], foram inúteis: nenhuma se baseava nos papéis de Gulbenkian ou em qualquer pesquisa documental. Até dados elementares (será que Gulbenkian tinha uma irmã? Quando é que ele nasceu?) estavam ainda por determinar. Assim que comecei a minha pesquisa, percebi porquê: a natureza global da carreira de Gulbenkian foi tal que, para investigar a sua vida, é preciso ser poliglota. Com a ajuda de outros académicos, montámos um retrato deste homem, com informações descobertas em arquivos localizados em dez países e fontes escritas em nove idiomas.
Um homem tão poderoso tem a sua lenda e pessoas que a defendem. Encontrou resistências, segredos?
A grande lenda em Portugal é a de que Gulbenkian se apaixonou pelo vosso país e queria que a sua fundação fosse “uma oferta a Portugal”. Esta lenda é importante para muita gente, cuja relação com Gulbenkian resulta sobretudo da gratidão, mas de pouca curiosidade. Para os arménios, a imagem de Gulbenkian como benfeitor é igualmente notável, exceto que eles reivindicam que os portugueses “roubaram” um legado que lhes era destinado! Gulbenkian tem sido reclamado como propriedade exclusiva de muitas nações… Mas ele era um cidadão do mundo. Permaneceu 13 anos em Lisboa, mas passou-os num hotel. Era um linguista dotado, mas nunca aprendeu português, nem muitos negócios seus estavam sediados em Portugal. Gulbenkian gostava seguramente de Lisboa e do seu clima, mas teria achado bizarra a ideia de que esse afeto o obrigava a deixar a fortuna aos portugueses. Ele [também] gostava muito dos seus patos, mas tal não implicava que planeasse deixar-lhes a fortuna. A frase “uma oferta a Portugal” não é de Gulbenkian – estas são palavras de Salazar que foram postas na boca de Gulbenkian.
Assume a sua biografia como independente, a de Ralph Hewins apoiou-se na versão de Nubar Gulbenkian sobre o pai. Como vê o peso de cada uma?
Hewins era um jornalista a escrever um livro com um prazo apertado. Não o invejo por ter tido de escrever tão rapidamente! O filho de Gulbenkian, Nubar, era um bon vivant e um contador de histórias, e por isso é talvez compreensível que Hewins tenha escolhido repetir as anedotas bem treinadas de Nubar em vez de fazer a sua própria investigação. Como janela para a relação complicada de Nubar com o seu pai, a obra de Hewins tem algum valor. Mas a autobiografia de Nubar, Pantaraxia [1965], é provavelmente mais reveladora. O meu livro diferencia-se por ser baseado numa pesquisa documental, e por não estar interessado em contar histórias coloridas sobre um “oriental exótico”, que nos dizem pouco sobre o próprio Gulbenkian, mas revelam muito acerca da nossa visão ocidental do Oriente.
Enquanto biógrafo, foi-lhe difícil não cair na armadilha do fascínio?
Muitos predisseram que me apaixonaria por ele. Mas Gulbenkian não quer o meu afeto, ele exige o meu respeito. E tem-no. Isso é suficiente, para ambos.
Em O Homem Mais Rico do Mundo, questiona como foi possível alguém tão tímido e reservado ter atingido e mantido tal influência global. Calouste Gulbenkian era um visionário, um produto do seu tempo, um caso de sorte?
Como todos nós, o Gulbenkian dos 20 anos é diferente do Gulbenkian dos 40 ou dos 60. Ele era um rapazinho terrivelmente tímido, mas aos 20 e tal anos era um jovem adulto bastante social. Nos últimos anos de vida, amoleceu e podia revelar-se bastante caloroso com a meia dúzia de pessoas em quem confiava. Gulbenkian era, seguramente, um homem do seu tempo no sentido em que as décadas pré-1941 foram as primeiras da globalização, da mobilidade e do comércio livre. Ele tinha igualmente uma grande fé em si próprio, e, como diz, quando temos confiança em nós próprios, “it goes on rolling and rolling...”.
O petróleo e as implicações políticas do monopólio das Sete Irmãs (as sete maiores petrolíferas transnacionais que dominaram o mercado até aos anos 60) constituíram a força inspiradora de Calouste Gulbenkian?
Nada havia no petróleo enquanto substância que interessasse Gulbenkian: ele visitou um campo petrolífero apenas uma vez, e nunca fingiu saber onde encontrar petróleo. Era o design e a construção de redes interligadas de interesses e participações que o fascinavam. Nós chamamos-lhes cartéis, ele via-as como construções elegantes, como meios de evitar o desperdício da competição que observou em Baku, nos anos 80 do século XIX.
José de Azeredo Perdigão foi crucial na constituição do Museu Gulbenkian? Sem ele tudo teria sido diferente?
Ele não desempenhou grande papel no moldar do museu: a ideia de unir as coleções Gulbenkian num único lugar era uma ideia que o próprio alimentava anos antes de conhecer Perdigão. Gulbenkian concebeu planos para um museu em Londres, depois em Washington – nunca mencionou Lisboa como lar para a sua coleção. E a decisão de transportar as obras de arte para Portugal, antes da construção de um edifício, seria infeliz: instaladas num armazém no Palácio Pombal, em Oeiras, muitas ficaram danificadas pelas cheias de 1967. Por outro lado, o papel de Perdigão em assegurar que a fundação fosse “uma oferta a Portugal” foi maior. As cartas guardadas nos arquivos estatais revelam-no a trabalhar de perto, e secretamente, com Salazar, no sentido de assegurar que a administração tivesse sempre uma maioria de membros nacionais.
As fortunas comparadas
Há alguém mais rico do que eu?
“Calcular a riqueza de Gulbenkian é diabolicamente difícil”, admite Jonathan Conlin. No entanto, o próprio biógrafo atreve-se a fazê-lo, com a ressalva de que naquele tempo não existiam métodos fidedignos para contabilizar o património financeiro. Para concluir que, à data da morte, em 1955, o arménio era mesmo o homem mais rico do mundo. Usando o ano de 2015 como referência, o pecúlio acumulado em vida por Calouste Gulbenkian é estimado por Conlin em cinco mil milhões de libras. Esse montante inclui a participação de 5% na valiosa Iraq Petrolium Company (IPC), um valor complicado de apurar, na medida em que as suas ações nunca tinham sido transacionadas.
Em 1957, quando a revista Fortune inaugurou a lista dos mais ricos do mundo, pôs em primeiro lugar o magnata do petróleo Jean Paul Getty, com recursos avaliados entre 700 milhões e mil milhões de dólares.
Se tivermos em conta o intervalo mínimo, a fortuna de Getty valeria em 2015 qualquer coisa como 4,5 mil milhões de libras, o que colocaria o norte-americano atrás de Gulbenkian. Mas se a referência forem os mil milhões de dólares, então Getty seria o mais rico, com um património de 6,4 mil milhões de libras. Tal como o biógrafo de Gulbenkian, a VISÃO fez os cálculos recorrendo à calculadora do poder de compra e ao conversor cambial disponibilizados pelo site measuringworth.com. Hoje, Jeff Bezos, fundador da Amazon, é o homem mais rico do mundo, com uma fortuna de 150 mil milhões de dólares, tendo destronado o criador da Microsoft, Bill Gates, que, durante quase duas décadas, liderou os diversos rankings dos mais afortunados. O património de Bezos supera em cerca de 25 vezes o legado deixado por Calouste Gulbenkian, a valores atuais. C.T.
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