Durante vários anos, sobretudo a nível global, o ecossistema de startups habituou-se a uma realidade de capital relativamente acessível. Havia muito dinheiro disponível, uma enorme atenção mediática e uma pressão constante para crescer rápido, muitas vezes sem que existisse uma preocupação proporcional com a sustentabilidade do negócio. Hoje, o paradigma mudou — e, na minha opinião, isso é uma mudança positiva e necessária para o ecossistema.
A instabilidade política, social e económica mundial e os efeitos sistémicos que daí advêm – níveis de inflação e subida de taxas de juro – tornam o investimento em capital de risco mais exigente com métricas ligadas à sustentabilidade do negócio, deixando de se focar apenas no crescimento acelerado e a estar orientado para a criação de valor real. As startups são hoje chamadas a provar que aquilo que estão a construir faz sentido do ponto de vista do negócio, ou seja, existe mercado, existe um modelo sustentável há capacidade de execução.
Há uma tendência global que está a redefinir aquilo que significa construir uma startup de sucesso. Durante muito tempo olhámos sobretudo para métricas de crescimento: número de utilizadores, ritmo de expansão, crescimento da equipa. Muitas vezes aceitava-se que as perdas fossem grandes desde que o crescimento fosse ainda maior. Esse paradigma está claramente mudou.
Esta mudança sente-se um pouco por todo o lado, mas é particularmente interessante observá-la em mercados como o ibérico. O ecossistema de venture capital na Península Ibérica é ainda relativamente jovem. Na prática, estamos a falar de um mercado com cerca de uma década, pouco mais do que isso. Nos últimos anos vimos um crescimento claro: mais fundos, mais rondas de investimento, rondas maiores e mais startups a levantar capital. Mas, quando comparamos com ecossistemas mais maduros, ainda há caminho a fazer. A maturidade do mercado constrói-se com o tempo — e com aprendizagem de ambos os lados.
Por um lado, as startups enfrentam hoje um desafio maior. Muitas vezes têm de provar valor muito cedo e demonstrar métricas bastante exigentes, que nem sempre são fáceis de atingir em fases muito iniciais do projeto. Uma startup early stage ainda está a testar o produto, a encontrar o seu mercado, a ajustar o modelo de negócio. Por outro lado, o desenvolvimento de produto e o acesso a capital global, cria oportunidades de diferenciação e de escala para as start-ups desde muito cedo.
Ao mesmo tempo, também os investidores estão num processo de evolução. É importante perceber que investir em fases iniciais implica necessariamente lidar com risco e com incerteza. Nem sempre as métricas que esperamos de uma empresa mais madura são aplicáveis a um projeto que está a dar os primeiros passos.
Existe ainda uma dimensão cultural que não podemos ignorar. Em Portugal — e, em certa medida, também em Espanha — existe historicamente uma maior aversão ao risco. Isso acaba por refletir-se na forma como o capital é alocado e nas expectativas que existem quando se investe em startups. Nalguns casos, vemos investidores interessados em entrar muito cedo, mas a exigir métricas que são mais típicas de fases bastante mais avançadas. Isso cria uma tensão natural no ecossistema e reforça a necessidade de um processo de maturação de ambos os lados.
Acredito que os próximos anos serão precisamente anos de ajuste. As startups vão começar cada vez mais cedo a pensar na sua estratégia de financiamento e a preparar o caminho para responder às expectativas do mercado. Vão estruturar melhor as suas métricas, os seus modelos de negócio e a forma como contam a sua história aos investidores. Do lado dos investidores, também veremos uma evolução natural na forma como o risco é entendido e gerido.
Hoje, existe uma preferência crescente por projetos que demonstram viabilidade económica e sustentabilidade financeira desde cedo. Startups que crescem, mas que crescem de forma equilibrada. Negócios que conseguem provar que o modelo funciona e que conseguem defender esse modelo no longo prazo. No fundo, estamos a passar de uma lógica centrada apenas no potencial para uma lógica mais focada na sustentabilidade. E isso também se reflete na forma como as startups conseguem, ou não, captar investimento.
Uma das diferenças mais claras está na capacidade de adaptação às expectativas do mercado. As startups que hoje conseguem levantar capital são aquelas que se focam em validar a necessidade do seu produto ou serviço com o mercado desde muito cedo. Dessa forma, preparam o seu crescimento com esse objetivo em mente e conseguem mostrar um caminho claro para a criação de valor. Hoje, por exemplo, uma startup que não consiga demonstrar um caminho credível para rentabilidade dificilmente consegue avançar em fases mais competitivas de investimento.
Naturalmente, também existe sempre a questão dos temas que estão no centro da atenção do mercado. O mercado de investimento em capital de risco responde a incentivos cíclicos e a tendências de procura, normalmente associados ao aparecimento de novas tecnologias disruptivas. Assistimos à vaga do blockchain e web3 no período pós-pandemia e estamos atualmente a assistir a uma enorme atenção em torno da inteligência artificial, e certamente veremos novos ciclos nos próximos anos.
Os fluxos de investimento acabam por criar algum sentimento de FOMO (fear of missing out) e com isso levar a alguns investimentos sem bases ou métricas sólidas de sustentabilidade. Mas, mesmo nesses momentos, o que acaba por fazer a diferença é a capacidade de execução e a clareza do modelo de negócio. As startups que não fazem este trabalho de preparação, que não alinham as suas métricas com as expectativas do mercado ou que não conseguem mostrar um caminho claro para a sustentabilidade acabam, naturalmente, por ter mais dificuldade em captar investimento.
No final, a mudança que estamos a viver pode parecer, à primeira vista, mais exigente para quem está a construir uma startup. Mas também é uma mudança saudável. O capital deixou de premiar apenas o potencial e passou a valorizar, cada vez mais, a capacidade de execução. E isso é um sinal claro de maturidade — não só para quem investe, mas para todo o ecossistema.
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