Escritor. A palavra, num rápido jogo de associação de ideias, evoca imagens de timidez ou reclusão quase monástica dedicada à causa dos livros. Com Norman Mailer, 74 anos, um dos mais conceituados romancistas norte-americanos da actualidade, passa-se o oposto — Mailer é uma estrela mediática capaz de se sentar no estúdio de Oprah Winfrey (uma das mais populares apresentadoras de TV dos Estados Unidos) ou, como fez no passado, de saltar para den tro de um ringue de boxe e desafiar Muhammad Ali. Tudo pela boa causa do estrelato. Com 30 livros publicados, vencedor de dois prémios Pulitzer, Norman Mailer editou agora nos Estados Unidos O Evangelho Segundo o Filho (The Gospel According to the Son), um romance onde reconta a vida de Cristo. A ideia de reescrever a história de Jesus não é novidade literária. Antes de Mailer, uma verdadeira galeria de notáveis já o fizera: de Charles Dickens a Tolstoi, passando por D. H. Lawrence, Gore Vidal, Robert Graves ou mesmo Yeats, e mais recentemente Nikos Kazantzakis (A Última Tentação de Cristo) e José Saramago (O Evangelho Segundo Jesus Cristo). A flagrante diferença da obra de Norman Mailer radica no facto de o autor não se ter contentado com escrever um «evangelho apócrifo» — um pouco à semelhança do que fez Saramago —, preferindo, em vez disso, chamar a si a personagem principal e contar a história na primeira pessoa. Uma «arrogância» que, aliada à sua excêntrica persona lidade pública, a crítica não lhe perdoou. Num press realese da editora, a Random House, de Nova Iorque, Norm an Mailer escreve que a sua própria celebridade literária lhe concedeu «uma certa compreensão do que é ser metade homem, metade outra coisa qualquer. Qualquer coisa de grande dimensão». Embora reconhecendo que ser uma estrela mediática não lhe confere aspirações celestiais, o escritor concretiza: «Isso quer dizer que tenho duas personalidades com as quais convivo ao mesmo tempo. Uma, sou eu próprio, até ce rto ponto como as outras pessoas, mas depois há a personalidade oposta, a entidade mediática, que me dá poderes que eu nem sei sempre como utilizar da melhor maneira. Por isso o paralelo era mais forte do que eu próprio imaginei à partida.»
‘JESUS JEDI’
O resultado é um rom ance a que Miahiko Kakutani, crítico do New York Times, chamou «uma versão do Jesus Cristo Superstar, com Jesus no papel ambivalente de estrela pop e líder de uma seita». O narrador
de O Evangelho Segundo o Filho não é o Jesus idealista, dado a conhecer no Evangelho de S. Marcos, o mestre apresentado por S. Mateus, ou mesmo o messiânico Filho de Deus de S. João. O Jesus de Norman Mailer é um homem comum. Petulante, quase vaidoso, por vezes irascível, e devorado por sentimentos de luxúria, a personagem que conta a sua história no romance é um carpinteiro que, aos 30 anos, descobre
que foi chamado por Deus. Para os críticos, um dos pecados do livro, a par da pouca consistência da personagem principal, é a quase ausência da componente mística de Cristo. Exemplo disso são os milagres, que acabam por não ser assim tão miraculosos – a multiplicação dos peixes e dos pães, na prosa de Mailer, transforma-se numa divisão: um pão esfarela-se em centenas de pequenas migalhas que acabam por chegar para todos os discípulos. «O Jesus do senhor Mailer, na tentativa de mostrar o seu lado humano e mortal, por
vezes parece Luke Skywalker, da Guerra das Estrelas, o aprendiz de Jedi que tenta dominar a Força», comenta Miahiko Kakutani.
Nos últimos anos, nas suas biografias, Mailer procurou investir nas personagens humanas – de Picasso a Lee Harvey Oswald, o pretenso assassino de J. E Kennedy – de características heróicas. Desta vez, fez o oposto, derrubando Cristo do seu trono celeste. «Como é que alguém que já publicou tanto, com alguns pedaços de prosa admirável, pode escrever um livro tão mau?», pergunta a crítica literária Mary Gordon da revista The Nation. Para ela, O Evangelho Segundo o Filho faz o leitor passar por três estágios à medida que o vai folheando: relutância («será que devo continuar?»), raiva («como é que ele pode escrever isto?») e, finalmente, embaraço («como é que eu posso estar a ler isto?»).
RELIGIOSO SILÊNCIO
Por muito incrível que possa parecer à primeira vista, o romance de Norman Mailer tem recebido mais ataques da crítica literária do que dos tradicionais religiosos conservadores, sempre dispostos a defender a Bíblia na melhor tradição purit ana – recorde-se a polémica em torno do Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em Portugal.
A verdade é que Norman Mailer, um escritor conotado com a esquerda, não apoquenta homens como o activo e ex tremista reverendo Jerry Fallwell – o tal que levou o pornógrafo Larry Flint ao Supremo Tribunal -, mais preocupado em con trolar aquilo que os norte-americanos vêem na televisão. A falta de ataques da direita religiosa a Mailer tem uma explicação simples: depois de perdida a guerra que travaram no Verão contra a cadeia de televisão ABC, por esta exibir Ellen, uma série cuja protagonista se assumia como lésbica, ficou provado que neste tipo de coisas não há publicidade negativa. Por causa de toda a polémica, a série bateu todos os recordes de audiências. E com a América a ressentir-se também da crise global de falta de leitura, combater o livro de Mailer seria garantir-lhe um lugar cativo nas listas de best-sellers. Para os fundamentalistas religiosos, mesmo que O Evangelho Segundo o Filho seja ofensivo e iconoclasta, a melhor arma é o silêncio. Mesmo perante o aparente fracasso que o livro representa – tanto em termos literários
(segundo os críticos), como n as tabelas de vendas -, a verdade é que o leitor norte-americano tem uma propensão cada vez maior para a literatura religiosa ou inspirada em temas religiosos. Números da Amerian Booksellers Association mostram que as vendas de livros de temática religiosa subiram 112% entre 1991 e 1996. E Norman Mailer não é o único dos grandes nomes da literatura norte-americana a erguer a pena aos céus. Os últimos romances de John Updike – The Beauty of the Lilies (A Beleza dos Lírios) — e de Doris Betts — The Sharp Teeth of Love (Os Dentes Aguçados do Amor) — também tecem as suas linhas em torno da religião.
A DEFESA DE MAILER
«Há cerca de dois anos, voltei a ler o Novo Testamento. Fiquei impressionado com a riqueza da história. Depois de o voltar a pôr na estante, pensei que tinha de fazer qualquer coisa com aquilo», conta Mailer numa recente entrevista ao Chicago Tribune. «Escrevo cada vez mais por instinto. Tem de haver um impulso que me leve a escrever um livro específico», acrescenta o escritor, dizendo que foi também assim que resolveu avançar com trabalhos biográficos como Marilyn: a Biography, The Executio-nor’s Song (em português: A
Canção do Carrasco) ou Oswald’s Tale: an American Mystery. «Não encontrei o Jesus humano no Novo Testamento. O que ali está é apenas o Deus, nunca o homem», defende Mailer. Para o autor, a reacção nega tiva que o seu último romance encontrou nos EUA é compreensível. «Se de repente eu pegasse na Ilíada e quisesse escrever uma versão moderna, as pessoas aceitavam. Mas, neste caso, há muita gente apegada ao Novo Testamento, e possui sentimentos muito fortes em relação a ele. Escrevi o livro porque senti que tinha de o fazer. Segui o meu instinto », diz Norman Mailer tentando, de alguma forma, minimizar as repercussões negativas dos ataques de que tem sido alvo. «Apercebi-me de que sempre olhámos para Jesus enquanto Filho de Deus, que, por coincidência e destino, é também um homem.
Eu quis reverter isso. Quis escrever acerca de um homem que, por coincidência, é o Filho de Deus.» E
foi o que fez. Resta agora saber quem se segue no panteão do escritor, depois de ter biografado Marilyn
Monroe, Pablo Picasso, Muhamad Ali, Robert Kennedy, Lee Harvey Oswald e, agora, Jesus Cristo. Segundo os críticos americanos, e para con tinuar a subir os degraus do estrelato estratosférico dos seus retratados, aos olhos de Mailer, depois de Cristo, só parece fazer sentido mais um livro: a autobiografia de Mailer.
Norman Mailer superstar
Foto: Tom Herde/The Boston Globe via Getty Images
Lançado em 1997, O Evangelho Segundo o Filho é um romance no qual Norman Mailer reconta a história da vida de Cristo. Recorde aqui o artigo