O termo “Advento” vem do latim (adventos) e significa chegada, vinda, aproximação, aparecimento. Na área religiosa refere-se ao período das quatro semanas que precedem o Natal. Para os cristãos, o último domingo de novembro marca o início deste tempo litúrgico de vigia, espera, expectativa, acolhimento e exultação do Salvador.
Embora alguns segmentos da fé cristã não sublinhem este tempo do Advento mas apenas o Natal, isso deve-se às tradições particulares. Mas é bom lembrar que os puritanos da Nova Inglaterra nem sequer o Natal gostavam de assinalar e muito menos festejar. Apenas a Páscoa, que representa o âmago da fé cristã, sendo a morte de Cristo refletida na eucaristia ou ceia do Senhor, de acordo com as diferentes tradições.
Com efeito, a morte sacrificial de Cristo é a pedra angular da fé cristã para católicos, ortodoxos, protestantes ou evangélicos. Daí que toda a teologia cristã e em especial a economia da salvação procedam do ato supremo do Calvário. Por isso a cruz é o elemento simbólico mais elevado do cristianismo.
Só que ninguém morre sem ter nascido antes a não ser os nados-mortos. E é por isso que todo tempo litúrgico começa com o Advento, depois o Natal, a Quaresma, a Páscoa e termina com o Pentecostes, numa espécie de revisitação do percurso de Jesus de Nazaré, que vai desde a Anunciação do anjo a Maria, passa pela vida e ministério público do Mestre, sua paixão, morte e ressurreição, ascensão ao céu, descida do Espírito Santo no Pentecostes e inauguração dessa realidade espiritual a que chamamos Igreja.
A verdade é que esta época serve para nos prepararmos para se poder olhar para o Natal com um significado realmente espiritual, e não folclórico. De facto, qualquer pessoa que se considere cristã deve compreender que há mais vida no Natal para lá dos comes e bebes, dos presentes, dos encontros familiares, das viagens à terra, dos enfeites, dos jantares de empresa, dos feriados, do subsídio de Natal e das músicas da época.
Este tempo de algum recolhimento mas de espera feliz fala da vinda ao mundo do Salvador, Jesus, o Cristo, que ousou nascer no ventre duma simples mulher.
A azáfama da época, o entusiasmo das crianças e todo ruído e movimentação comercial à nossa volta, dificilmente nos permitem momentos de recolhimento e reflexão. Mas se eles fazem sempre falta, ao longo de todo o ano, no Advento ainda mais, pois trata-se para as pessoas de fé em seguir os passos de Maria logo depois da Anunciação. Ela guardou a mensagem do anjo Gabriel no seu coração e afastou-se, indo visitar a prima Isabel que vivia nas montanhas de Judá.
Foi aí que, ao saudá-la à chegada, a criança que Isabel trazia no ventre “saltou de alegria”, e na sequência Maria apresentou a Deus um cântico único, o Magnificat, que ainda hoje é inspirador. E ficou por lá “quase três meses” antes de regressar a casa. Este afastamento do quotidiano e este recolhimento ilustram bem o sentido do Advento para os cristãos.
Muita gente que não vive a fé católica diz que gosta de entrar num templo mas fora do horário das missas e ficar ali em silêncio durante algum tempo. O sentido da transcendência está lá e estes momentos de recolhimento são apreciáveis, porque a vida não é feita só de ruído, luz, movimento e cor, ao contrário do que as redes sociais sugerem.
Mas para quem tem fé e a vive, o tempo de Advento serve para interiorizar aquela que é a mais elevada demonstração do amor de Deus ao enviar o Seu Filho a este mundo de trevas. Já o profeta Isaías dizia: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (9:2).
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