Nos filmes, os agentes secretos são bonitos, inteligentes, treinados, munidos de recursos e ideologicamente alinhados com o seu país. Servem uma causa. Foram recrutados em universidades de prestígio e, frequentemente, são membros do corpo diplomático estacionado no país onde operam. Uma ficção, mas inspirada em factos reais. O famoso espião inglês Dušan Popov terá sido a musa de Ian Fleming na criação de James Bond.
O mundo virtual alterou as regras do jogo… O roubo de segredos, o recrutamento, a realização de ações desestabilizadoras destinadas a abalar o moral do inimigo, já não carecem de um aparelho com uns milhares de funcionários e espiões treinados e dotados de gadgets. Também na espionagem o software ganhou predominância sobre o hardware.
Gamaredon, um grupo ligado ao GRU (os serviços secretos russos), utiliza phishing – envio de emails e mensagens com links − que lhe permite instalar software nos computadores e, assim, aceder à informação nestes armazenada. Os seus alvos são funcionários de instituições governamentais, não apenas ucranianas, mas de também dos seus aliados. Já não há necessidade de esquemas elaborados nem de agentes infiltrados que permitam o acesso a instalações físicas, basta um incauto funcionário que, por erro, clica num link.
No terreno, já não são precisos Popovs nem Matas Haris. Com a expulsão do corpo diplomático russo na Europa em 2018 (mais de 600 pessoas), o recrutamento transferiu-se para as redes sociais. Na app Telegram, no canal Grey Zone (com mais de 550 000 subscritores) anunciam-se contas onde se realiza o recrutamento. Anúncios deste tipo aparecem noutros canais do Telegram, no Facebook, no Vkontakte e até na plataforma de jogos Steam.
Os anúncios são postados em contas do Telegram usadas por traficantes de droga para contratar serviços de entrega. A percentagem de recrutamento é ínfima, mas o custo envolvido é muito baixo. Recrutam-se pequenos criminosos. Os Ubers da espionagem…
GLOBSEC (uma ONG dedicada à promoção da segurança internacional e apoiada pela Comissão Europeia) identificou 110 eventos (ocorridos sobretudo em França e na Polónia) ligados à Rússia, desde 2022. Foram identificadas 131 pessoas, das quais 35 tinham registo criminal e foram recrutados via Telegram ou redes de crime organizado.
O modelo é um sucesso e já está a ser utilizado pelo Irão. O nível de sofisticação apura-se. No Reino Unido, as autoridades consideram que os eventos recentes de fogo posto em ambulâncias e sinagogas terão sido orquestrados desta forma. Anúncios em hebraico e inglês no Telegram. Bots que fazem o primeiro screening de quem clicou. Uma primeira missão… Queimar umas fotos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu numa rua de Londres, filmar e enviar. O pagamento é feito em criptomoedas. A partir daí, estabelecida a relação, são feitos pedidos para filmar alvos, recolher informações, vandalismo e fogo posto. Não é caro, das 500 libras para filmagens básicas a alguns milhares para incendiar uma sinagoga.
Perante esta realidade, o que surpreende é a incapacidade dos Estados europeus de reagir. Fala-se em banir o Telegram e, recentemente, o seu proprietário chegou a ser detido, pelas autoridades francesas, mas uma ação definitiva não acontece porque os proprietários das plataformas usam e abusam da legislação que os protege de qualquer responsabilidade pelo conteúdo que a plataforma difunde.
Igualmente, tarda em regular-se as criptomoedas. Os bancos e os seus administradores são penalmente responsáveis caso não estabeleçam controlos que permitam evitar a utilização dos seus serviços por criminosos, mas as empresas de criptomoedas, os seus proprietários e administradores operam num vácuo de responsabilidades.
As ameaças são sérias e as vítimas, reais. Enquanto não impusermos às empresas de tecnologia − plataformas e criptomoedas − as mesmas regras a que sujeitamos quem opera no mundo físico, o mundo virtual continuará a ser um porto seguro para criminosos, terroristas e Estados inimigos das sociedades democráticas.
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