A Feira do Livro do Porto começou em grande este fim de semana, enchendo a Avenida das Tílias, nos Jardins do Palácio de Cristal, de livros, música, poesia e encontros. Até 6 de setembro, mais de 200 atividades dão corpo a uma edição que homenageia Inês Lourenço e que parece transportar consigo uma ideia muito portuense: a cultura não se contempla à distância, vive-se na rua, partilha-se e conversa-se.
Há uma frase do presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, que ajuda a compreender a alma desta edição. Ao homenagear Inês Lourenço, afirmou: “Quando o olhar é suficientemente atento, nada é verdadeiramente banal. A poesia começa precisamente aí, na qualidade da atenção que prestamos ao mundo.”
Falava da poeta, mas poderia estar a falar do Porto. Dessa cidade que encontra matéria para contar histórias nas ruas, nos cafés, nas personagens e nos pequenos gestos quotidianos. E foi um pouco dessa alma que desceu este fim de semana aos Jardins do Palácio de Cristal.
No centro da Feira está Inês Lourenço. A exposição “Na Lâmina Implacável do Tempo”, com curadoria de Rita Roque, percorre a vida e obra da homenageada e permite descobrir uma autora cuja relação com a cidade é indissociável da sua poesia.
Como lembrou Pedro Duarte, “há entre Inês Lourenço e o Porto uma pertença recíproca”. A cidade deu-lhe lugares, personagens e matéria literária; a poeta devolveu-lhe um Porto visto com inteligência, ironia, desassombro e afeto.
A homenagem ganhou especial significado com a atribuição da Tília a Inês Lourenço, seguindo-se um dos momentos mais belos da abertura, o concerto “A Todas Estas Riquezas Fugidias Chamei Alma”, com Sofia Lourenço, Bernardo Moreira Trio, Horácio Ferreira e leituras de António Durães.
Mas a alma de uma Feira do Livro encontra-se também enquanto se caminha. Na Avenida das Tílias, entre os 140 pavilhões de editoras, livreiros e alfarrabistas, cruzavam-se leitores e escritores, conversas e dedicatórias. O padre Jorge Oliveira protagonizou uma apresentação muito concorrida do livro “Quantas Cervejas Posso Beber Até Pecar?”, deixando depois dedicatórias aos leitores.
Houve também a conversa de Maria João Reynaud com Inês Lourenço em torno da revista Hífen e do período em que a poeta foi editora. Em “Poemas que escolheram Inês”, João Luís Barreto Guimarães apresentou uma antologia em que 14 poetas escolheram poemas da autora homenageada.
No final da tarde de domingo, a atriz e encenadora Cláudia Jardim mergulhou na riqueza literária da poeta portuense de 83 anos, numa performance particularmente forte e emotiva. A presença de Inês Lourenço tornou o momento ainda mais intenso, levando a própria atriz à emoção. Por instantes, entre autora, intérprete e público, ficou apenas a palavra.
E este foi apenas o primeiro fim de semana.
Até 6 de setembro, a Feira apresenta mais de 200 atividades em 17 dias: 21 conversas, 20 concertos, sete mesas-redondas, seis espetáculos, três exposições, uma intervenção mural e 83 sessões para bebés, crianças, jovens e famílias, além de apresentações de livros e encontros com escritores.
O vereador da Cultura, Jorge Sobrado, definiu-a como “uma feira feita por mulheres”, numa programação elaborada por Teresa Coutinho e marcada pela criatividade, pela diversidade e pela reflexão sobre o mundo contemporâneo.
Entre os convidados está o poeta e jornalista palestiniano Mohammed El Kurd, que vai participar numa conversa sobre a palavra enquanto forma de resistência perante a guerra e a opressão. Passam ainda pela Feira nomes como Rim Battal, Tatiana Salem Levy, Rui Lage, Angélica Liddell, Dino D’Santiago e Martim de Sousa Tavares. Na música, o programa reúne Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves, Janeiro, Tatanka, Mimi Froes, Miguel Marôco, Frankie Chavez, Peixe, Lena d’Água e Benjamim. As noites prolongam-se ainda no Pinguim Café.
Há nesta programação a dinâmica cultural de Jorge Sobrado, cruzando literatura, música, pensamento e performance, e fazendo da Feira muito mais do que um lugar para comprar livros.
Pedro Duarte deixou outra frase que resume essa ambição: “Uma cultura que não funciona como senha de acesso a um círculo restrito, mas como uma linguagem comum. Que não separa, aproxima.”
Foi isso que se sentiu neste primeiro fim de semana: crianças e poetas, escritores e leitores, música, livros, emoção e conversas debaixo das tílias.
A Feira do Livro começou em grande e vale a pena percorrê-la sem pressa, porque há feiras onde se compram livros e há outras onde uma cidade se reconhece nas palavras.
Esta é uma Feira com alma. E a alma é, inequivocamente, a do Porto.