José Vieira Mendes

Jornalista, crítico e programador de cinema
Cultura

“O Canto das Árvores Esquecidas”: contra os deuses, duas mulheres e um quarto em Mumbai

Enquanto A Odisseia ocupa o Olimpo, o IMAX e quase todas as conversas, O Canto das Árvores Esquecidas, delicada primeira longa-metragem da indiana Anuparna Roy, lembra-nos que o cinema também pode caber num apartamento, num silêncio e na amizade entre duas mulheres que a cidade de Mumbai prefere não ver

Cultura

“A Odisseia”: como sobreviver ao canto das sereias ou arte de contar histórias segundo Christopher Nolan

Christopher Nolan transforma o poema de Homero num grande espetáculo popular, físico e surpreendentemente acessível. Não é uma obra-prima, tem personagens subaproveitadas e alguns episódios apressados, mas é um excelente filme sobre aventura, culpa, sobrevivência e regresso a casa

Cultura

Sam Neill (1947–2026): faleceu o homem que ensinou os dinossauros a ter maneiras

Tinha a elegância de um gentleman, o humor seco de quem não precisava de levantar a voz e a rara capacidade de enfrentar dinossauros, demónios e famílias infelizes sem perder a humanidade. Sam Neill morreu aos 78 anos e o cinema fica subitamente com menos classe, menos ironia e muito menos simpatia

Opinião

A mão invisível de Messi

Quando o benefício aparece uma vez, chama-se acaso. Quando reaparece, chama-se padrão. À terceira, as redes sociais já lhe abriram um canal no YouTube, encomendaram o documentário e escolheram a música sinistra para o trailer

Microplásticos presentes na água potável (ainda) são pouco perigosos para a saúde
Opinião

Almada e a crise da água ou a tua nuvem seca o meu rio

A civilização, meus caros, vive precisamente daquilo que se evita. Evitar uma epidemia. Evitar um incêndio. Evitar uma rutura de água. Evitar que uma cidade inteira descubra, numa semana de calor, que a modernidade afinal depende muito de uma torneira com pressão

Opinião

Portugal ficou sem rede no mundial dos telefonemas

Trump ligou, Infantino abriu a gaveta, Balogun entrou, os EUA levaram quatro e Portugal descobriu tarde demais que uma lenda pouco móvel não faz pressão alta

Cultura

“Um Julgamento”: O povo absolveu Wagner Moura, portanto a verdade ainda tem defesa

Em “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, Christiane Jatahy e Wagner Moura transformam Ibsen num tribunal elétrico, cinematográfico e moralmente implacável. No CCB, Thomas Stockmann foi absolvido por larga maioria. Mas a pergunta saiu do palco e aterrou, com estrondo, na Base das Lajes: quem é afinal o inimigo do povo quando a terra, a água e os corpos começam a apresentar provas? Que curiosa coincidência

Opinião

Carlos Queiroz, o homem a quem Portugal deve mais do que gosta de admitir

Esta madrugada, no Gana–Colômbia, o velho professor volta a entrar em campo como selecionador do país africano e contra o esquecimento português. E nós, que tanto gostamos de celebrar vitórias, talvez devêssemos aprender a agradecer a quem nos ensinou que era possível ganhá-las — e sermos como os grandes do futebol. Mesmo que leiam esta crónica amanhã, ela continua a ser fundamental

Cultura

Wagner Moura leva a verdade a “Um Julgamento” no CCB

Wagner Moura e a encenadora brasileira Christiane Jatahy trazem a Lisboa Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, uma peça que não adapta Ibsen: continua-o, confronta-o e chama o público ao banco dos jurados

Sociedade
Exclusivo

A nação que Hollywood construiu

Nos 250 anos da Independência Americana, o cinema continua a vender-nos a América como sonho, sermão, parque temático e conflito moral, às vezes tudo no mesmo plano

Opinião

“Mínimos e os Monstros”: a América faz 250 anos e Portugal fica no buraco 18

Entre a estreia de Mínimos e os Monstros, criaturas amarelas que querem fazer cinema, monstros que escapam do ecrã e Donald Trump a descobrir Portugal pelo green, o 4 de Julho chega-nos este ano como uma superprodução de Hollywood dobrada em diplomacia recreativa

Cultura

Ernst Lubitsch: Um toque no fresco do cinema

Até 14 de julho, o Nimas troca o calor, o Mundial e a solenidade por Ernst Lubitsch: o mestre que fazia rir com portas fechadas, adultérios elegantes e malícia em fato de gala

Cultura

Mel Brooks: cem anos a rir-se na cara da morte

O homem que fez de Hitler um número musical, de Frankenstein uma vedeta de cabaret e da velhice uma anedota continua a provar que a comédia, quando é mesmo grande, entra à vontade, parte a mobília e ainda deixa gorjeta

Cultura

“The Disenchantment of Lisbon — Lisbon is not cool anymore” | Um não-guia turístico de Lisboa

O livro, por enquanto apenas disponível em inglês, é um anti-guia feroz, divertido e melancólico sobre a cidade que trocou moradores por malas de rodinhas, tascas por brunches e alma por investimento imobiliário

Opinião

CR7, a Seleção de Portugal, a positividade tóxica e a máquina de fazer dinheiro

Portugal passou, mas deixou o futebol no hotel de Palm Beach. Entre a boa energia de Roberto Martínez, a máquina de imprimir dinheiro e a obsessão nacional por encontrar o número 7 em cada ataque, a Seleção chegou aos dezasseis avos-de-final como quem entra num casamento de canadianas: sorridente, maquilhada, mas profundamente coxa

Cultura

Hollywood, a IA e “Artificial”, o filme que ninguém quer estrear

A máquina tem medo do espelho. “Artificial”, o filme de Luca Guadagnino sobre Sam Altman ficou sem casa de distribuição, a produtora A24 namora a IA da Google e Hollywood descobre, com ar muito surpreendido, que vender a “alma ao diabo” tem cláusulas de confidencialidade

Opinião

A Seleção Nacional e CR7 na Rota da Seda

Portugal está na Rota da Seda, pois vai a Houston jogar com o Uzbequistão, mas parece que a seleção entrou por engano num conto de Xerazade, com Ronaldo no papel de sultão, Roberto Martínez já sem mais histórias ou desculpas para dar, e a bela cidade de Samarcanda à espera ao fundo, coberta de azulejos, pó e ansiedade nacional

Opinião

O cromo, a caderneta e a estátua

Portugal jogou como uma caderneta de cromos mal colada, Martínez voltou a rezar ao altar do camisola 7 e Ronaldo, mais do que cromo raro, pareceu a estátua da Praça CR7 do Funchal

Cultura

“Toy Story 5” | O sapo entrou no quarto e roubou a infância

A Pixar volta a fazer aquilo que parecia impossível: transformar bonecos de plástico, cowgirls de pano, astronautas avariados e um tablet em forma de sapo em mais uma maravilhosa comédia sobre a infância, a tecnologia, a amizade e essa coisa terrível que é crescer sem os pais darem por isso

Cultura

“Duas Vezes João Liberada”: O Santo Ofício, o fantasma e a câmara de filmar

O filme de Paula Tomás Marques, chega às finalmente às salas depois da estreia na Berlinale 2025 e de uma quase viagem de circum-apresentação em festivais internacionais. Um filme português sobre as questões de género, História, cinema e a mania muito nacional de perseguir quem não cabe na moldura.

Cultura

“Magalhães”: o herói que afinal chegou ao fim do mundo e encontrou a sua própria sombra

O realizador filipino Lav Diaz transforma Fernão de Magalhães num santo torto da expansão marítima: menos navegador glorioso, mais conquistador perdido entre Deus, febre, fome e o delírio colonial.