Ceuta: Os novos mouros chegaram sem espadas e a Europa respondeu com boias
Em 711, atravessaram Gibraltar soldados que trouxeram conquista, violência, ciência e civilização; em 2026, os rapazes que chegaram ao enclave de Ceuta, do outro lado, ainda em África, chegaram descalços e de camisola de futebol, empurrados pela pobreza, pelas redes sociais e por governos que usam seres humanos como munição diplomática
Manolo Solo (1964-2026): morreu o ator que roubava os filmes sem levantar a voz
Dos silêncios de Fechar os Olhos (2023), de Víctor Erice, à melancolia portuguesa de A Quinta (2025), de Avelina Prat, com Maria de Medeiros, e ao derradeiro Aqui (2026), de Tiago Guedes, desaparece aos 62 anos um intérprete raro do esplendor atual do cinema espanhol e que fazia dos secundários protagonistas
Quem mexeu nos papéis do Ventura?
O gabinete remexido, os documentos desaparecidos: eis o argumento para o primeiro policial parlamentar português deste verão
A “praga” dos influencers: o cinema e a política já não querem críticos, querem cúmplices
Dos estúdios que compram entusiasmo aos comentadores que vendem guerras e candidatos, a nova indústria da influência prefere seguidores sem memória, opiniões sem contraditório e publicidade disfarçada de espontaneidade
“Homem-Aranha: Um Novo Dia” | Zendaya e Tom Holland, quando o tamanho não importa
A estreia de Homem-Aranha: Um Novo Dia devolve-nos um casal em que ela olha ligeiramente de cima e põe a nu um século de caixas de madeira, saltos escondidos e masculinidades cinematográficas aterrorizadas com a fita métrica
Chuck Russell (1952-2026): O homem que pôs Freddy a sonhar e Jim Carrey a explodir
O realizador de A Máscara morreu aos 74 anos e a notícia chegou-nos tarde, como chegam quase sempre as despedidas dos artesãos de Hollywood que nunca foram admitidos no clube muito sério dos autores
Festival de Veneza 2026: Hollywood perdeu o barco, mas o fim do mundo chegou a horas
Em Veneza 83 (2-12-septembro), Nanni Moretti troca Cannes pelo Lido, Werner Herzog escava uma montanha, Florian Zeller constrói um bunker e Alberto Barbera, o diretor da Mostra, apresentou uma competição menos americana, muito italiana e atravessada por guerras, culpa, poder e memória
Luís Neves: o tanque, o atrelado e a arte de incendiar um ministro
Carta de um jornalista de cinema que já viu muitos filmes, a um polícia de mérito que entrou no Governo com autoridade de sobra e descobriu que, na política portuguesa, há casos que ardem imediatamente e outros que já vêm tratados com retardante. O problema não é investigar o ministro: é parecerem escolher previamente quem merece a fogueira e quem recebe um extintor
“Odisseia”: Ulisses trocou o remo pelos quadradinhos e voltou às livrarias
Antes de Christopher Nolan meter Homero no IMAX, Christophe Lemoine e Miguel de Lalor Imbiriba já tinham comprimido monstros, deuses, feititiceiras, naufrágios e vinte anos de saudade em 64 páginas. A banda desenhada da Levoir regressa agora às livrarias porque, quando Hollywood chama, até os clássicos que estavam na prateleira voltam a navegar
“O Canto das Árvores Esquecidas”: contra os deuses, duas mulheres e um quarto em Mumbai
Enquanto A Odisseia ocupa o Olimpo, o IMAX e quase todas as conversas, O Canto das Árvores Esquecidas, delicada primeira longa-metragem da indiana Anuparna Roy, lembra-nos que o cinema também pode caber num apartamento, num silêncio e na amizade entre duas mulheres que a cidade de Mumbai prefere não ver
“A Odisseia”: como sobreviver ao canto das sereias ou arte de contar histórias segundo Christopher Nolan
Christopher Nolan transforma o poema de Homero num grande espetáculo popular, físico e surpreendentemente acessível. Não é uma obra-prima, tem personagens subaproveitadas e alguns episódios apressados, mas é um excelente filme sobre aventura, culpa, sobrevivência e regresso a casa
Sam Neill (1947–2026): faleceu o homem que ensinou os dinossauros a ter maneiras
Tinha a elegância de um gentleman, o humor seco de quem não precisava de levantar a voz e a rara capacidade de enfrentar dinossauros, demónios e famílias infelizes sem perder a humanidade. Sam Neill morreu aos 78 anos e o cinema fica subitamente com menos classe, menos ironia e muito menos simpatia
A mão invisível de Messi
Quando o benefício aparece uma vez, chama-se acaso. Quando reaparece, chama-se padrão. À terceira, as redes sociais já lhe abriram um canal no YouTube, encomendaram o documentário e escolheram a música sinistra para o trailer
Almada e a crise da água ou a tua nuvem seca o meu rio
A civilização, meus caros, vive precisamente daquilo que se evita. Evitar uma epidemia. Evitar um incêndio. Evitar uma rutura de água. Evitar que uma cidade inteira descubra, numa semana de calor, que a modernidade afinal depende muito de uma torneira com pressão
Portugal ficou sem rede no mundial dos telefonemas
Trump ligou, Infantino abriu a gaveta, Balogun entrou, os EUA levaram quatro e Portugal descobriu tarde demais que uma lenda pouco móvel não faz pressão alta
“Um Julgamento”: O povo absolveu Wagner Moura, portanto a verdade ainda tem defesa
Em “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, Christiane Jatahy e Wagner Moura transformam Ibsen num tribunal elétrico, cinematográfico e moralmente implacável. No CCB, Thomas Stockmann foi absolvido por larga maioria. Mas a pergunta saiu do palco e aterrou, com estrondo, na Base das Lajes: quem é afinal o inimigo do povo quando a terra, a água e os corpos começam a apresentar provas? Que curiosa coincidência
Carlos Queiroz, o homem a quem Portugal deve mais do que gosta de admitir
Esta madrugada, no Gana–Colômbia, o velho professor volta a entrar em campo como selecionador do país africano e contra o esquecimento português. E nós, que tanto gostamos de celebrar vitórias, talvez devêssemos aprender a agradecer a quem nos ensinou que era possível ganhá-las — e sermos como os grandes do futebol. Mesmo que leiam esta crónica amanhã, ela continua a ser fundamental
Wagner Moura leva a verdade a “Um Julgamento” no CCB
Wagner Moura e a encenadora brasileira Christiane Jatahy trazem a Lisboa Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, uma peça que não adapta Ibsen: continua-o, confronta-o e chama o público ao banco dos jurados
A nação que Hollywood construiu
Nos 250 anos da Independência Americana, o cinema continua a vender-nos a América como sonho, sermão, parque temático e conflito moral, às vezes tudo no mesmo plano
“Mínimos e os Monstros”: a América faz 250 anos e Portugal fica no buraco 18
Entre a estreia de Mínimos e os Monstros, criaturas amarelas que querem fazer cinema, monstros que escapam do ecrã e Donald Trump a descobrir Portugal pelo green, o 4 de Julho chega-nos este ano como uma superprodução de Hollywood dobrada em diplomacia recreativa
Ernst Lubitsch: Um toque no fresco do cinema
Até 14 de julho, o Nimas troca o calor, o Mundial e a solenidade por Ernst Lubitsch: o mestre que fazia rir com portas fechadas, adultérios elegantes e malícia em fato de gala